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Q2249872 Português
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     Na época do vestibular, minha sobrinha resolveu optar pelo curso de Enfermagem. – Por que não Medicina? – foi a infalível pergunta de muitos parentes e amigos. Moça paciente, explicou que não queria ser médica, queria ser enfermeira. Formou-se com brilho, fez proveitoso e bem sucedido estágio e hoje trabalha em um grande hospital de São Paulo. Mas ainda tem, vez ou outra, de explicar por que não preferiu ser médica.
     Muita gente não leva a sério essa tal de vocação. Ela levou. Poderia ter entrado, sim, no curso de Medicina: sua pontuação no vestibular deixou isso claro. Mas alguma coisa dentro dela deve ter-lhe dito: serei uma ótima enfermeira. E assim foi. Confesso que a admiro por ter seguido essa voz interior que nos chama para este caminho, e não para aquele. Poucas pessoas têm tal discernimento quanto ao que efetivamente querem ser. Em geral são desviadas dessa voz porque acabam cumprindo expectativas já prontas, mais convencionais. Calculam as vantagens, pecuniárias ou relativas ao status, fazem contas, avaliam “objetivamente” as opções e acabam decidindo pelo que parece ser o mais óbvio. Mas se esquecem, justamente, da mais óbvia pergunta: Serei feliz? É exatamente isso o que eu quero? Da falta desse fecundo momento de interrogação saem os profissionais burocráticos, sonolentos em seu ofício, vagamente conformados, que passam a levar a vida, em vez de vivê-la.
      Em meu último encontro com a sobrinha pude ver que ela está feliz. Faz exatamente o que gosta, leva a sério uma das mais exigentes profissões do mundo e se realiza a cada dia com ela. E vejam que atua numa especialidade das mais penosas: oncologia infantil. Desde seu estágio, envolveu-se com seus pequenos pacientes, por quem tem grande carinho. Tenho certeza de que eles encontram nela mais do que o apoio da profissional competente; vêem-na, certamente, como aquela irmã mais velha e indispensável nas horas difíceis.
     Quando nossa vocação real é atendida, o trabalho não enfada, não pesa como uma maldição. Cansativo que seja, sentimos que estamos no ofício que é nosso, que nos ocupamos com algo que nos diz respeito e que, em larga medida, nos define como sujeitos. Não é pouco; é quase tudo. É o que parece dizer o olhar franco, aberto e feliz dessa jovem enfermeira. Ela não trabalha “para” atingir algum objetivo, não trabalha “para” viver, “para” ganhar a vida. Trabalhando, ela já “é”. E isso não é invejável?

(Valentino Rodrigues)
Considerando-se o contexto, traduz-se corretamente o sentido de uma frase ou expressão do texto em:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: A questão exige paráfrase contextual, não substituição mecânica de palavras. No trecho "Ela não trabalha “para” atingir algum objetivo, não trabalha “para” viver, “para” ganhar a vida. Trabalhando, ela já “é”.", o verbo "ser" tem valor existencial-identitário: no exercício do trabalho vocacionado, a personagem se realiza como sujeito. Por isso, a alternativa E é a única que preserva esse sentido ao dizer que ela "já realiza seu ser quando trabalha".

Tema central: paráfrase contextual
Análise das alternativas
A
Errada
"foi a infalível pergunta" não significa "foi o singular questionamento". No contexto, "infalível" vale por inevitável, recorrente, previsível: é a pergunta que sempre aparece quando alguém escolhe Enfermagem em vez de Medicina. "Singular" desloca o sentido para algo único, excepcional ou particular, contrariando a ideia de repetição presente no texto.
B
Errada
"Poucas pessoas têm tal discernimento" significa que poucas pessoas possuem clareza para perceber o que efetivamente querem ser. A reescrita proposta muda esse valor semântico e ainda altera a lógica da frase: "pouca gente deixa de assim deduzir" fala em dedução e introduz uma estrutura negativa que não corresponde ao original. "Discernimento" aqui não é "dedução".
C
Errada
O erro está em deformar a relação entre os termos do original. Em "Da falta desse fecundo momento de interrogação", "fecundo" qualifica positivamente o "momento de interrogação", isto é, o questionamento produtivo sobre a própria vocação. A alternativa transfere "fecunda" para "ausência", o que o texto não faz, e ainda troca "interrogação" por "perplexidade", alterando o sentido contextual.
D
Errada
"algo que nos diz respeito" significa algo que nos concerne, que tem relação conosco. A alternativa erra ao trocar essa ideia de vinculação subjetiva por "respeitabilidade", isto é, prestígio ou valor social da atividade. O texto não fala de respeitabilidade nesse ponto, mas de pertencimento e identificação com o ofício.
E
Certa
A alternativa E mantém o núcleo semântico do fechamento do texto: a enfermeira, por estar no ofício que corresponde à sua vocação, não trabalha apenas para obter salário, status ou sobreviver. O próprio texto explicita essa linha de sentido ao afirmar que esse trabalho "nos define como sujeitos". Assim, dizer que ela "já realiza seu ser quando trabalha" traduz corretamente o valor de "Trabalhando, ela já “é”": há realização identitária no exercício da profissão.
Pegadinha da questão
A banca explora a troca indevida de sentido por aproximação vocabular solta: quem ignora o contexto pode aceitar palavras parecidas, mas a questão exige preservar o campo semântico da vocação, da realização profissional e da identidade subjetiva construído no texto.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique se a paráfrase mantém a ideia central do trecho no contexto, e não apenas palavras aparentemente equivalentes.
  • Desconfie de alternativas que mudam a lógica da frase original, como trocar afirmação por negação ou deslocar um adjetivo para outro termo.
  • Em expressões como "diz respeito", considere o sentido da locução inteira, não o valor isolado de uma palavra.
  • Quando o texto opõe trabalho como meio e trabalho como realização, a alternativa correta deve preservar essa oposição.

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