Atente para as seguintes afirmações: I. O caso da sobrinha ...

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Q2249870 Português
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     Na época do vestibular, minha sobrinha resolveu optar pelo curso de Enfermagem. – Por que não Medicina? – foi a infalível pergunta de muitos parentes e amigos. Moça paciente, explicou que não queria ser médica, queria ser enfermeira. Formou-se com brilho, fez proveitoso e bem sucedido estágio e hoje trabalha em um grande hospital de São Paulo. Mas ainda tem, vez ou outra, de explicar por que não preferiu ser médica.
     Muita gente não leva a sério essa tal de vocação. Ela levou. Poderia ter entrado, sim, no curso de Medicina: sua pontuação no vestibular deixou isso claro. Mas alguma coisa dentro dela deve ter-lhe dito: serei uma ótima enfermeira. E assim foi. Confesso que a admiro por ter seguido essa voz interior que nos chama para este caminho, e não para aquele. Poucas pessoas têm tal discernimento quanto ao que efetivamente querem ser. Em geral são desviadas dessa voz porque acabam cumprindo expectativas já prontas, mais convencionais. Calculam as vantagens, pecuniárias ou relativas ao status, fazem contas, avaliam “objetivamente” as opções e acabam decidindo pelo que parece ser o mais óbvio. Mas se esquecem, justamente, da mais óbvia pergunta: Serei feliz? É exatamente isso o que eu quero? Da falta desse fecundo momento de interrogação saem os profissionais burocráticos, sonolentos em seu ofício, vagamente conformados, que passam a levar a vida, em vez de vivê-la.
      Em meu último encontro com a sobrinha pude ver que ela está feliz. Faz exatamente o que gosta, leva a sério uma das mais exigentes profissões do mundo e se realiza a cada dia com ela. E vejam que atua numa especialidade das mais penosas: oncologia infantil. Desde seu estágio, envolveu-se com seus pequenos pacientes, por quem tem grande carinho. Tenho certeza de que eles encontram nela mais do que o apoio da profissional competente; vêem-na, certamente, como aquela irmã mais velha e indispensável nas horas difíceis.
     Quando nossa vocação real é atendida, o trabalho não enfada, não pesa como uma maldição. Cansativo que seja, sentimos que estamos no ofício que é nosso, que nos ocupamos com algo que nos diz respeito e que, em larga medida, nos define como sujeitos. Não é pouco; é quase tudo. É o que parece dizer o olhar franco, aberto e feliz dessa jovem enfermeira. Ela não trabalha “para” atingir algum objetivo, não trabalha “para” viver, “para” ganhar a vida. Trabalhando, ela já “é”. E isso não é invejável?

(Valentino Rodrigues)
Atente para as seguintes afirmações:
I. O caso da sobrinha do autor é um exemplo da falta desse fecundo momento de interrogação.
II. Depreende-se do texto que a negligência quanto à vocação autêntica nasce do fato de que as pessoas passam a levar a vida, em vez de vivê-la.
III. No trabalho vocacionado, a preocupação com metas a serem alcançadas dá lugar à plena realização da vivência cotidiana.
Em relação ao texto, está correto SOMENTE o que se afirma em
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a direção de sentido entre vocação e conformismo: o texto afirma que a falta do "fecundo momento de interrogação" produz profissionais que "passam a levar a vida, em vez de vivê-la", enquanto a sobrinha é apresentada como quem levou a vocação a sério. Assim, a I contraria o texto, a II inverte causa e consequência, e somente a III é compatível com o fecho argumentativo.

Tema central: vocação e realização
Análise das alternativas
A
Errada
Incorreta porque depende da afirmação I, e a I contraria o texto. A sobrinha não exemplifica a falta do "fecundo momento de interrogação"; ela exemplifica o oposto. O texto diz: "Muita gente não leva a sério essa tal de vocação. Ela levou."
B
Errada
Incorreta porque depende da afirmação II, que inverte a relação causal do texto. A passagem "Da falta desse fecundo momento de interrogação saem os profissionais burocráticos" mostra que "passam a levar a vida, em vez de vivê-la" é consequência da negligência da vocação, não sua causa.
C
Certa
A alternativa correta é a C, porque apenas a III retoma com fidelidade a ideia final do texto. O autor afirma: "Ela não trabalha “para” atingir algum objetivo, não trabalha “para” viver, “para” ganhar a vida. Trabalhando, ela já “é”." Isso sustenta que, no trabalho vocacionado, a realização ocorre no próprio exercício cotidiano do ofício, e não apenas em metas externas.
D
Errada
Incorreta porque reúne duas afirmações incompatíveis com o texto. A I é contrariada pela caracterização da sobrinha como alguém fiel à própria vocação, e a II é invalidada pela inversão entre causa e consequência no segundo parágrafo.
E
Errada
Incorreta porque combina uma afirmação correta com outra falsa. A III é sustentada pelo fecho do texto, mas a II não se sustenta, pois troca o efeito pela causa ao tratar da negligência quanto à vocação.
Pegadinha da questão
A banca explora duas armadilhas: atribuir à sobrinha a ideia de falta de reflexão, quando ela representa justamente a escuta da vocação, e aceitar a II sem perceber que o texto apresenta o conformismo como efeito da ausência de questionamento, não como origem dele.
Dica para questões semelhantes
  • Em afirmações interpretativas, verifique sempre se a direção de causa e consequência foi preservada.
  • Quando o texto opõe vocação e escolha convencional, identifique em qual lado o exemplo concreto foi colocado antes de generalizar.
  • No fecho argumentativo, observe se o autor trata o trabalho como meio para fins externos ou como realização no próprio ato; essa oposição costuma decidir a resposta.

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