Um dos entraves à realização plena de uma vocação está

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Q2249869 Português
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     Na época do vestibular, minha sobrinha resolveu optar pelo curso de Enfermagem. – Por que não Medicina? – foi a infalível pergunta de muitos parentes e amigos. Moça paciente, explicou que não queria ser médica, queria ser enfermeira. Formou-se com brilho, fez proveitoso e bem sucedido estágio e hoje trabalha em um grande hospital de São Paulo. Mas ainda tem, vez ou outra, de explicar por que não preferiu ser médica.
     Muita gente não leva a sério essa tal de vocação. Ela levou. Poderia ter entrado, sim, no curso de Medicina: sua pontuação no vestibular deixou isso claro. Mas alguma coisa dentro dela deve ter-lhe dito: serei uma ótima enfermeira. E assim foi. Confesso que a admiro por ter seguido essa voz interior que nos chama para este caminho, e não para aquele. Poucas pessoas têm tal discernimento quanto ao que efetivamente querem ser. Em geral são desviadas dessa voz porque acabam cumprindo expectativas já prontas, mais convencionais. Calculam as vantagens, pecuniárias ou relativas ao status, fazem contas, avaliam “objetivamente” as opções e acabam decidindo pelo que parece ser o mais óbvio. Mas se esquecem, justamente, da mais óbvia pergunta: Serei feliz? É exatamente isso o que eu quero? Da falta desse fecundo momento de interrogação saem os profissionais burocráticos, sonolentos em seu ofício, vagamente conformados, que passam a levar a vida, em vez de vivê-la.
      Em meu último encontro com a sobrinha pude ver que ela está feliz. Faz exatamente o que gosta, leva a sério uma das mais exigentes profissões do mundo e se realiza a cada dia com ela. E vejam que atua numa especialidade das mais penosas: oncologia infantil. Desde seu estágio, envolveu-se com seus pequenos pacientes, por quem tem grande carinho. Tenho certeza de que eles encontram nela mais do que o apoio da profissional competente; vêem-na, certamente, como aquela irmã mais velha e indispensável nas horas difíceis.
     Quando nossa vocação real é atendida, o trabalho não enfada, não pesa como uma maldição. Cansativo que seja, sentimos que estamos no ofício que é nosso, que nos ocupamos com algo que nos diz respeito e que, em larga medida, nos define como sujeitos. Não é pouco; é quase tudo. É o que parece dizer o olhar franco, aberto e feliz dessa jovem enfermeira. Ela não trabalha “para” atingir algum objetivo, não trabalha “para” viver, “para” ganhar a vida. Trabalhando, ela já “é”. E isso não é invejável?

(Valentino Rodrigues)
Um dos entraves à realização plena de uma vocação está
Alternativas

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é identificar, no texto, a causa explicitamente apontada para o afastamento da vocação. O trecho "Em geral são desviadas dessa voz porque acabam cumprindo expectativas já prontas, mais convencionais. Calculam as vantagens, pecuniárias ou relativas ao status, fazem contas, avaliam “objetivamente” as opções e acabam decidindo pelo que parece ser o mais óbvio." nomeia o entrave: a submissão a critérios convencionais e externos de escolha, o que conduz diretamente à alternativa B.

Tema central: entrave à vocação
Análise das alternativas
A
Errada
Incorreta porque transforma em causa aquilo que o texto apresenta como consequência. O enfado aparece depois, como efeito de uma vida profissional desalinhada da vocação: "Quando nossa vocação real é atendida, o trabalho não enfada". Logo, o enfado não é o entrave inicial à realização da vocação.
B
Certa
A alternativa B está correta porque traduz com fidelidade a ideia central do 2º parágrafo: as pessoas deixam de atender à própria vocação quando passam a escolher segundo expectativas sociais já prontas, associadas a status, vantagens e ao que parece mais óbvio. O obstáculo, portanto, não é a profissão nem o esforço do trabalho, mas o convencionalismo que passa a comandar a decisão.
C
Errada
Incorreta por inverter o valor semântico de uma ideia positiva no texto. A realização como sujeito é apresentada como ganho da vocação atendida: o trabalho "nos define como sujeitos. Não é pouco; é quase tudo." Portanto, isso não é obstáculo, mas parte da realização plena.
D
Errada
Incorreta porque contradiz diretamente o texto. O narrador não fala em descaso com vantagens materiais; afirma o oposto: muitos "Calculam as vantagens, pecuniárias ou relativas ao status". O problema está em dar peso excessivo a esses critérios, não em desprezá-los.
E
Errada
Incorreta porque toma como entrave aquilo que o texto valoriza como caminho correto. A sobrinha é admirada justamente por ter "seguido essa voz interior". Atender à voz interior favorece a realização da vocação; não a impede.
Pegadinha da questão
A banca opõe causa e consequência e também explora inversão de polaridade: o candidato pode marcar o enfado, que é efeito posterior, ou a voz interior, que é fator positivo, em vez de perceber que o entrave explicitado é o seguimento de expectativas convencionais.
Dica para questões semelhantes
  • Localize no texto a passagem em que o autor nomeia diretamente a causa pedida; aqui, o verbo "desviadas" indica o obstáculo central.
  • Separe causa de consequência: nem todo elemento negativo do texto é o entrave principal.
  • Desconfie de alternativas que usam expressões do texto com sentido invertido: realização e voz interior, aqui, têm valor positivo.
  • Quando o texto enumera exemplos como dinheiro e status, procure a categoria mais ampla que os reúne; neste caso, o convencionalismo.

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