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Q39586 Português
A arte de não fazer nada

Dizem-me que mais da metade da humanidade se
dedica à prática dessa arte; mas eu, que apenas recente e
provisoriamente a estou experimentando, discordo um pouco
dessa afirmativa. Não existe tal quantidade de gente
completamente inativa: o que acontece é estar essa gente
interessada em atividades exclusivamente pessoais, sem
consequências úteis para o resto do mundo.

Aqui me encontro num excelente posto de observação: o
lago, em frente à janela, está sendo percorrido pelos botes
vermelhos em que mesmo a pessoa que vai remando parece
não estar fazendo nada. Mas o que verdadeiramente está
acontecendo, nós, espectadores, não sabemos: cada um pode
estar vivendo o seu drama ou o seu romance, o que já é fazer
alguma coisa, embora tais vivências em nada nos afetem.

E não posso dizer que não estejam fazendo nada
aqueles que passam a cavalo, subindo e descendo ladeiras,
atentos ao trote ou ao galope do animal.

Há homens longamente parados a olhar os patos na
água. Esses, dir-se-ia que não fazem mesmo absolutamente
nada: chapeuzinho de palha, cigarro na boca, ali se deixam
ficar, como sem passado nem futuro, unicamente reduzidos
àquela contemplação. Mas quem sabe a lição que estão
recebendo dos patos, desse viver anfíbio, desse destino de
navegar com remos próprios, dessa obediência de seguirem
todos juntos, enfileirados, para a noite que conhecem, no
pequeno bosque arredondado? Pode ser um grande trabalho
interior, o desses homens simples, aparentemente desocupados,
à beira de um lago tranquilo. De muitas experiências
contemplativas se constrói a sabedoria, como a poesia. E não
sabemos ? nem eles mesmos sabem ? se este homem não vai
aplicar um dia o que neste momento aprende, calado e quieto,
como se não estivesse fazendo nada, absolutamente nada.

(Cecília Meireles, O que se diz e o que se entende)

Está clara e correta a redação deste livre comentário sobre o texto:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: O ponto decisivo está no trecho final da crônica: "Pode ser um grande trabalho interior, o desses homens simples, aparentemente desocupados, à beira de um lago tranquilo. De muitas experiências contemplativas se constrói a sabedoria, como a poesia. E não sabemos — nem eles mesmos sabem — se este homem não vai aplicar um dia o que neste momento aprende, calado e quieto, como se não estivesse fazendo nada, absolutamente nada." Esse fecho é o critério de resolução porque explicita que a aparente inatividade pode encobrir aprendizado interior e formação de sabedoria; por isso, a alternativa correta precisa preservar essa relação de sentido.

Tema central: contemplação e aprendizado
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra por generalização vaga. O texto não diz que a "arte de não fazer nada" seja simplesmente "muito enganosa", nem formula a ideia de que "frequente que aconteça o contrário". O ponto central é mais específico: o que parece inatividade pode ser atividade pessoal ou interior, inclusive contemplativa e formadora. A paráfrase, portanto, não retoma com fidelidade o núcleo do aprendizado interior.
B
Errada
A formulação desloca indevidamente o foco para uma "defesa do ócio". Pela base, o texto não faz defesa ampla do ócio em si; ele relativiza a aparência de não fazer nada e mostra que pode haver trabalho interior e aprendizado. Além disso, "conquanto ele seja útil" introduz uma formulação argumentativa que não corresponde ao modo como o texto trata a questão, pois a crônica não sustenta genericamente a utilidade do ócio.
C
Errada
A alternativa distorce o eixo temático. O texto não defende uma tese geral sobre trabalho nem afirma que "nem todo trabalho deixa de ter consequências". A discussão está na desocupação aparente e na possibilidade de ela encobrir vivência interior significativa. Ao transformar isso em uma afirmação genérica sobre trabalho e consequências, a alternativa altera a relação de sentido central.
D
Errada
Embora se aproxime do campo semântico do texto, a alternativa é menos fiel e menos correta na redação. "Desfrutando com a vida" não corresponde ao foco específico da crônica, que valoriza contemplação como aprendizado interior. A aderência semântica é inferior à da alternativa E, porque a formulação fica mais genérica do que o sentido explicitado no texto.
E
Certa
A alternativa E é a correta porque retoma a ideia central do texto ao dizer que Cecília Meireles valoriza "aquele tipo de aprendizado que deriva das horas de contemplação". Isso corresponde ao fecho da crônica, em que a autora afirma que "De muitas experiências contemplativas se constrói a sabedoria, como a poesia", sem distorcer a tese apresentada.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre "aparente inatividade" e "ócio" e também induz à escolha de paráfrases apenas tematicamente próximas. O acerto exige localizar no trecho final que o núcleo do texto é a contemplação como forma de aprendizado interior.
Dica para questões semelhantes
  • Procure o trecho em que o texto enuncia sua tese de forma direta e use esse ponto para testar as paráfrases.
  • Elimine alternativas que trocam a ideia específica do texto por noções mais amplas, como "ócio", "engano" ou "trabalho" em geral.
  • Em interpretação, não basta a alternativa ter tema parecido; ela precisa preservar a relação exata entre os elementos centrais do texto.
  • Quando a questão pede comentário correto, verifique também se a redação mantém precisão semântica e formulação adequada.

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Comentários

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a) Cecília Meireles, nessa crônica, considera que a arte de não fazer nada é muito enganosa, sendo frequente que aconteça o contrário. (redação ambígua, confusa)b) Nessa crônica, Cecília Meireles não deixa de fazer uma defesa do ócio, conquanto ele seja útil, ao menos para aquele que lhe diz respeito.(redação ambígua, confusa)c) Contra a ideia de que a desocupação é uma tarefa inútil, Cecília Meireles prefere defender que nem todo trabalho deixa de ter consequências.(redação ambígua, confusa)d) Cronista e poetisa sensível, Cecília Meireles não despreza os momentos nos quais ficamos absortos, aprendendo e desfrutando com a vida.
b) Nessa crônica, Cecília Meireles não deixa de fazer uma defesa do ócio, conquanto ele seja útil, ao menos para aquele que lhe diz respeito. (porquanto)

c) Contra a ideia de que a desocupação é uma tarefa inútil, Cecília Meireles prefere defender que nem todo trabalho deixa de ter consequências.
    Cecília Meireles prefere defender que nem todo trabalho deixa de ter consequências à ideia de que a desocupação é uma tarefa inútil.
d) Cronista e poetisa sensível, Cecília Meireles não despreza os momentos onde ficamos absortos, aprendendo e desfrutando com a vida.
e) Sendo também poetisa, a cronista Cecília Meireles valoriza, em seu texto, aquele tipo de aprendizado que deriva das horas de contemplação.(Também poetisa, a cronista...) Erro de conexão, "Sendo" igual "por que".
Apesar do gabarito ser a letra E, a única que não apresenta erro é a primeira alternativa. 

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