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Q3450061 Português
Uma revolução educacionista para completar a Abolição "O novo livro de Cristovam Buarque, A última trincheira da escravidão, inscreve-se na melhor tradição de pensadores que souberam projetar o Brasil para além do imediato. Diante da nossa imoral desigualdade social, todos ficam tentados a discutir políticas sociais de efeito imediato. Trata-se de aliviar o sofrimento de milhões de brasileiros. O quanto antes. Mas isso não nos deveria eximir de pensar o médio e o longo prazos. E imaginar mudanças para que o nosso desenvolvimento corrija o atraso, a pobreza e a exclusão. Só assim teremos um projeto de país. (...)

Quem tem o privilégio de ler esse seu livro, logo se convence da importância da cruzada de Cristovam por uma revolução educacionista. Imaginar um Brasil desenvolvido e socialmente justo depende de uma condição essencial: uma educação básica de qualidade com acesso equitativo para ricos e pobres. Nesse livro, Cristovam mostra que o acesso equitativo à escola de qualidade é o principal vetor do desenvolvimento. Mais do que um mero investimento ou política social. E apresenta uma proposta consistente de um Sistema Único Nacional Público para a educação de base.

O mapa para alguém ser livre é a escola quem dá. Sem a educação de qualidade, ninguém pode saber o caminho para viver livremente na contemporaneidade. Somente no século 21, o Brasil começou a matricular todos na escola. Mas em escolas desiguais. Aí surge a última trincheira da escravidão: a dualidade da escola-senzala e da escola-casa-grande. (...)

Os descendentes sociais dos escravizados estão nas escolas de baixa qualidade. Sem acesso ao aparato básico para exercer uma cidadania plena no novo mundo digital. Eles são a vasta maioria do povo brasileiro. Já para os descendentes sociais dos escravocratas, este triste país garante escolas de nível internacional e lhes proporciona uma formação com todas as ferramentas do conhecimento necessárias para trabalhar e empreender no novo ambiente tecnológico."

(Trecho de artigo de opinião escrito por Maurício Rands, Advogado formado pela FDR da UFPE, Ph.D. pela Universidade Oxford. Publicado no Correio Braziliense, 16/02/2023.)
No trecho “Só assim teremos um projeto de país”, faz referência: 
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema da questão: interpretação de texto com foco em coesão referencial, isto é, identificar a que termo/ideia o conector retoma. Aqui, o destaque é o uso de “Só assim” como elemento de retomada (anáfora).

Estratégia para resolver: quando a banca pergunta “faz referência a quê?”, volte uma ou duas frases no texto e procure os marcadores discursivos. No trecho analisado, observe os conectores: “Mas” (contraposição), “para que” (finalidade) e, principalmente, “Só assim” (condição exclusiva). O advérbio “assim” retoma uma ideia anterior; o advérbio “só” indica exclusividade. Segundo a gramática normativa (Bechara; Cunha & Cintra), trata-se de anáfora por advérbio de modo e de restrição. A grafia “” (com acento) está conforme o VOLP.

Contexto-chave do texto: o autor critica o foco apenas no imediato e defende a necessidade de pensar o médio e o longo prazos e imaginar mudanças estruturais para corrigir atraso, pobreza e exclusão. Em seguida, afirma: “Só assim teremos um projeto de país.” Logo, o “assim” retoma precisamente esse planejamento de médio e longo prazos com mudanças estruturais.

Alternativa correta: D

A alternativa D é a que melhor traduz o referente de “assim”: a ideia de que a verdadeira superação do legado da escravidão (metáfora presente no texto: “última trincheira da escravidão”) depende de planejamento a médio e longo prazos e de mudanças estruturais, notadamente via uma revolução educacionista. Em termos de coesão, “Só assim” = só com esse planejamento e essa visão de longo curso é que “teremos um projeto de país”. A menção à “abolição completa” dialoga com o eixo temático do texto e não desvia do sentido central do conector.

Por que as demais estão incorretas?

A) “Aliviar o sofrimento de milhões” descreve medidas imediatas. O texto, porém, contrapõe o imediato ao necessário planejamento de médio e longo prazos. Portanto, não é isso que “assim” retoma.

B) “Discutir políticas de efeito imediato” também remete ao curto prazo, explicitamente criticado como insuficiente. O referente de “assim” não é a discussão do imediato, mas o planejamento e as mudanças de longo alcance.

C) “Criar um Brasil justo e desenvolvido” é objetivo (resultado desejado). Já o “assim” aponta para os meios que conduzem a esse objetivo: pensar o médio e longo prazos e imaginar mudanças. Confundir meio com fim leva ao erro.

E) Incorreta porque há, sim, alternativa que expressa adequadamente o referente do conector — a alternativa D.

Dica de prova: destaque marcadores como “Mas”, “para que” e “só”. Em geral, “assim” retoma a ideia imediatamente anterior (anáfora). Se a frase fala de “imediato” x “médio e longo prazos”, “Só assim” quase sempre aponta para o segundo conjunto, por ser a condição necessária indicada pelo advérbio de restrição “só”.

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