Homem, 58 anos é atendido pelo SAMU com dor abdominal intens...

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Q3948505 Medicina

Homem, 58 anos é atendido pelo SAMU com dor abdominal intensa em epigástrio, iniciada há cerca de 10 horas, com irradiação para dorso, associada a vômitos incoercíveis. De antecedentes, é etilista crônico (destilados diariamente), dislipidemia em uso irregular de estatina e colelitíase conhecida. Ao exame: fácies de dor, FC: 124 bpm, PA: 92 × 58 mmHg, FR: 28 irpm, SpO₂: 93% em ar ambiente, Temperatura: 38,1 °C. Abdome com dor intensa à palpação profunda em epigástrio, sem rigidez. Condutas iniciais são realizadas e o paciente é transportado. Na admissão hospitalar, exames laboratoriais iniciais mostram: Lipase: 3.400 U/L, Hematócrito: 52%, Ureia: 64 mg/dL, Creatinina: 2,1 mg/dL, Cálcio total: 7,4 mg/dL, AST: 280 U/L, ALT: 410 U/L, BT: 3,2 mg/dL.


Após 6 horas de internação, evolui com necessidade de O₂ para manter SpO₂ > 94%, diurese < 0,4 mL/kg/h e dor abdominal menos intensa, porém com piora do estado geral.


Considerando o quadro apresentado, assinale a alternativa que CORRETAMENTE integra o diagnóstico, a classificação de gravidade, a etiologia mais provável e as condutas adequadas no Atendimento Pré-Hospitalar (APH) e no hospital.

Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O caso preenche critérios de pancreatite aguda e aponta etiologia biliar; a disfunção orgânica precoce afasta forma leve e sustenta necessidade de suporte intensivo, com reposição volêmica no APH e avaliação hospitalar para obstrução biliar/colangite, podendo haver indicação de CPRE precoce quando pertinente.

Tema central: Pancreatite aguda biliar
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A integra corretamente os quatro pontos cobrados. O diagnóstico é pancreatite aguda porque há dor típica em epigástrio irradiada para dorso, vômitos e lipase francamente elevada. A gravidade é sustentada por sinais de disfunção orgânica precoce e piora sistêmica: hipotensão, taquicardia, hipoxemia com necessidade de oxigênio, oligúria e creatinina elevada, o que exclui forma leve e justifica monitorização intensiva. A etiologia mais provável é biliar, não alcoólica, porque há colelitíase conhecida e padrão laboratorial compatível com origem biliar, especialmente ALT muito elevada nas primeiras 48 horas e bilirrubina aumentada. No APH, a conduta correta é suporte com reposição volêmica vigorosa, analgesia, oxigênio conforme necessidade e transporte rápido. No hospital, cabe manejo monitorizado e avaliação de obstrução biliar/colangite; por isso a formulação 'considerar CPRE precoce' está adequada, já que esse procedimento não é rotineiro para toda pancreatite biliar, mas pode ser indicado nesse contexto.
B
Errada
Está errada em gravidade, etiologia e conduta. Não se trata de pancreatite aguda leve, porque o caso tem hipotensão, taquicardia, hipoxemia, oligúria e injúria renal, todos incompatíveis com forma leve. A etiologia alcoólica é menos provável que a biliar, pois colelitíase conhecida, ALT 410 U/L e bilirrubina total 3,2 mg/dL favorecem origem biliar. Também é inadequado propor antibiótico empírico precoce como rotina, já que antibioticoprofilaxia não é recomendada sem infecção comprovada.
C
Errada
O erro central é negar valor a dois achados decisivos. A elevação de transaminases, especialmente ALT muito elevada nas primeiras 48 horas, tem valor etiológico e neste caso sustenta pancreatite biliar. Já a insuficiência renal inicial altera sim o prognóstico: creatinina 2,1 mg/dL e diurese < 0,4 mL/kg/h são marcadores de gravidade e de disfunção orgânica precoce. Mesmo que a alternativa use 'moderada', ela erra ao desconsiderar justamente os dados que classificam risco e definem etiologia.
D
Errada
O enunciado descreve pancreatite aguda, não pancreatite crônica agudizada: há dor típica aguda, vômitos e lipase muito elevada, sem elementos de cronicidade estrutural ou funcional. Além disso, hipocalcemia e hemoconcentração não afastam necrose pancreática; pela base, são marcadores de gravidade e podem ocorrer em pancreatite aguda grave. Portanto, a alternativa erra no diagnóstico e na interpretação prognóstica dos exames.
E
Errada
A etiologia medicamentosa por estatina é muito menos provável diante de forte evidência de causa biliar: colelitíase conhecida, ALT muito elevada e hiperbilirrubinemia. Além disso, as condutas propostas são inadequadas: antibiótico profilático não é medida inicial rotineira na pancreatite aguda, e nutrição parenteral total também não deve ser iniciada precocemente como rotina. A alternativa associa uma causa improvável a duas condutas que a base exclui.
Pegadinha da questão
A banca contrapõe etilismo crônico à etiologia biliar para induzir erro, mas o dado que decide é a colelitíase associada a ALT 410 U/L e bilirrubina elevada. Outra armadilha é a redução da dor após horas de internação, que não significa melhora quando surgem oligúria, necessidade de O2 e piora do estado geral.
Dica para questões semelhantes
  • Em pancreatite aguda, confirme o diagnóstico com 2 de 3 critérios; dor típica mais lipase > 3 vezes o limite superior já bastam.
  • Para etiologia, não pare no antecedente de etilismo se houver colelitíase e ALT muito elevada nas primeiras 48 horas; esse padrão favorece origem biliar.
  • Exclua forma leve quando houver hipotensão, azotemia/creatinina elevada, oligúria, hemoconcentração ou hipoxemia com necessidade de O2.
  • No manejo inicial, priorize suporte hemodinâmico, analgesia, oxigênio e monitorização; antibiótico profilático e CPRE rotineira para toda pancreatite biliar estão errados.

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