Prioritariamente, o texto objetiva

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q2690154 Português

As questões de 1 a 10 desta prova são baseadas no texto a seguir.


ABORTO, ASSUNTO DE HOMENS


Conrado Hübner Mendes

Doutor em Direito e professor da USP


1º Dias atrás, a Irlanda promoveu histórico referendo para legalização do aborto no país. O resultado teve apoio de 66% dos eleitores. Foi o ponto culminante de uma longa história de luta por direitos e igualdade, num país em que convicções religiosas sustentavam uma das leis mais restritivas à autonomia da mulher.

2º Há dois meses, o Instituto Guttmacher lançou um profundo relatório sobre a situação do aborto ao redor do mundo (Abortion worldwide 2017: uneven progress and unequal access). Entre os achados da pesquisa, apontou que as taxas de aborto caem em países desenvolvidos e se mantêm estáveis nos países em desenvolvimento; que a América Latina é a região com mais alta taxa anual de aborto (44 a cada 1.000 mulheres em idade reprodutiva) e com a mais alta taxa de gravidez indesejada (96 a cada 100 mulheres). Mostrou também que a taxa de aborto é similar entre os países que legalizaram e os que continuam proibindo a prática. Em suas palavras: "Restrições jurídicas não eliminam o aborto. Em vez disso, aumentam as chances de abortos inseguros, pois mulheres são compelidas a buscar a via clandestina".

3º Nem sempre o direito ao aborto é conquistado pela via legislativa ou pela do voto popular. Em muitos países, como Estados Unidos e Alemanha, foram tribunais de cúpula que deram esse passo. No Brasil, o episódio mais recente dessa longa história está no STF, no qual tramita ação que questiona a criminalização do aborto pelo Código Penal (Art. 124 e 126). Alega-se a violação de direitos fundamentais como dignidade, liberdade e igualdade, assim como a desproporcionalidade da medida. A ministra Rosa Weber, relatora do processo, convocou audiência pública para discutir o caso com a sociedade em breve. Os participantes serão selecionados por critérios de representatividade, expertise técnica e pluralidade.

4º Duas comissões da Câmara e uma do Senado se anteciparam ao STF e coorganizaram um seminário para debater o caso. O seminário ocorre enquanto escrevo este texto (30 de maio). Não poderei estar lá para opinar sobre os argumentos e símbolos ali presentes, mas uma olhada no perfil dos participantes dá indícios de como o assunto é tratado. O requerimento foi feito por 16 parlamentares, apenas uma mulher. Na programação, dos 24 participantes na mesa, apenas seis mulheres. Do ponto de vista profissional, uma mistura de políticos, representantes religiosos e alguns juristas. Nenhum especialista em política pública de saúde, nenhum cientista. O seminário tem lado único, e esse não é o do debate franco, que a audiência do STF promete realizar.

5º Dos minutos a que pude assistir, um participante dizia algo assim: "A criança dentro ou fora do útero tem o mesmo valor! Descriminalizado o aborto, teremos um cemitério de criancinhas!". Não duvido que ele esteja sinceramente preocupado com o valor da vida. Mas tem a responsabilidade de informar-se melhor sobre a principal lei social do aborto: na qual se criminaliza e se estigmatiza, a taxa de gravidez indesejada não s e altera, a mulher permanece no escuro e o número de abortos só faz aumentar. A criminalização do aborto não dissuade mulheres. Orientação e cuidado, talvez.

6º Há infinitas posições morais e jurídicas em relação ao aborto e múltiplos arranjos institucionais para enfrentar o tema com respeito e competência. O debate público, contudo, não resiste ao contraste binário entre os pró e os contra, sem saber exatamente ao quê.

7º Quem descriminaliza não necessariamente legaliza. Quem legaliza não expressa aprovação moral. Quem aprova legalmente não incentiva nem está menos preocupado com a vida. Todos os países que descriminalizaram o aborto no mundo o fizeram por meio de políticas públicas complexas que não celebram o aborto, não subestimam a dimensão trágica da escolha nem ignoram a sacralidade da vida. Pelo contrário: tiraram o tema da esfera do crime e da punição e o trataram por meio de orientação, prevenção, acolhimento e procedimentos médicos seguros. Conseguiram reduzir, sem exceção, o número de abortos e de mortalidade materna. Como melhor proteger a vida?


MENDES, Conrado Hübner. Aborto, assunto de homens. Época. São Paulo, Editora Globo, nº 1040, Jun. 2018. [Adaptado]

Prioritariamente, o texto objetiva


Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito Comentado — Interpretação de Texto Argumentativo

Tema central: Esta questão avalia interpretação de texto argumentativo, que exige identificar a tese (opinião central) do autor e seus argumentos, além de compreender a intenção principal do texto.

Pela norma-padrão da Língua Portuguesa, como ensinam Bechara e Koch, o texto argumentativo busca persuadir e fundamentar um ponto de vista através de exemplos, dados e reflexão crítica. No texto analisado, o autor discute o aborto de forma crítica e fundamentada, apresentando dados e analisando experiências internacionais.

Justificativa da Alternativa Correta (C):

A alternativa C) "opinar sobre as vantagens da descriminalização do aborto e da adoção de políticas públicas de orientação sobre o tema" está correta porque:

  • O texto expõe claramente a opinião do autor: ele defende que apenas criminalizar o aborto não resolve o problema e propõe como solução a orientação, o cuidado, o acolhimento e as políticas públicas.
  • São apresentados argumentos a favor da descriminalização, como a redução de abortos inseguros e de mortalidade materna (ex: "Conseguiram reduzir, sem exceção, o número de abortos e de mortalidade materna.").
  • Essa alternativa abrange a tese central do texto: defender políticas públicas e orientação em vez da criminalização.

Por que as outras alternativas estão erradas?

  • A) O texto não se limita a caracterizar o caso brasileiro; trata do tema em várias perspectivas e países.
  • B) Não há crítica aos países que descriminalizaram sem debate. Pelo contrário, é evidenciado que países com políticas públicas obtiveram resultados positivos.
  • D) Relatar experiências judiciais não é objetivo central: essa informação aparece apenas como exemplo, não como foco do texto.

Estratégia de Prova:

Em textos argumentativos, busque sempre as palavras que indicam opinião (ex: "talvez", "opino", "é preciso", "deveria") e expressões que apontam vantagens ou propostas. Fuja das alternativas que restringem o sentido ou desviam o foco principal do texto.

Referências: Bechara (Gramática Escolar), Koch (A Coerência Textual), Manual de Redação da Presidência da República – interpretação precisa e objetiva!

Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo