Sobre alguns elementos característicos da tipologia e do gên...

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Q4068896 Português
Texto para responder à questão.

As cruéis mitocôndrias

    Tem coisa que a gente aprende na escola e não entende bem pra que aquilo vai servir, se é que vai servir um dia. [...]
    O que nunca me entrou na cabeça foi a importância de aprender o nome de tantos protozoários, bactérias, fungos, vírus e outros causadores de doenças. Na época eu estava curtindo meu primeiro amor platônico e só queria aprender a explicação pro meu coração acelerado e minha dor-de-cotovelo. A professora de ciências não passava nem perto de resolver esse problema. [...]
    Quase no final da adolescência, tive a brilhante ideia de montar uma banda de rock chamada Giardia Lamblia e seus Vacúolos Contráteis. Maravilha: eu tinha descoberto finalmente a utilidade das aulas de ciências. Era um nome engraçado e de sonoridade moderna. [...]
     Acabei entrando pra faculdade de jornalismo e foi ali que eu descobri mais uma utilidade pras tais aulas de ciências. Um dia, eu e dois colegas, cada um mais gozador do que o outro, fomos ao Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, e a escadaria do museu principal estava em reforma. Os visitantes tinham que recorrer a uma escadinha de madeira, bem capenga, num canto escuro.
    Quando a gente estava descendo pra ir embora, notamos um garotinho de uns oito anos olhando praquela escada e morrendo de medo de subir. Nessa hora um dos meus amigos, o Mauro, resolveu sacanear o menino:
     – Se eu fosse você eu não subia não.
     – Por quê?
    – o menininho até tremia.
    – Lá em cima tá cheio de mitocôndrias!
    – Coitado do menino. Arregalou uns olhos desse tamanho, engoliu seco, não sabia o que fazer.
     – E isso morde?
   – ele ainda teve voz pra perguntar.
    E o Mauro – até hoje não sei ele conseguiu lembrar dessa aula tantos anos depois – teve a crueldade de responder:
   – Morder não morde. Mas sintetiza ATP.
    Pronto: o menino saiu em disparada pela praça de Ouro Preto, berrando “mamãe, mamãe!”.
    Só muitos anos depois, na aula de ciências, o pobre do menino deve ter percebido toda a sacanagem daquele dia.
    Até então, aposto que ele teve mil pesadelos, com as cruéis mitocôndrias sintetizando todos os ATPs de seu cérebro.

(CUNHA, Leo. As cruéis mitocôndrias. In: CUNHA, Leo. Manual de desculpas esfarrapadas. São Paulo: FTD, 2004, pp. 17-19.)
Sobre alguns elementos característicos da tipologia e do gênero do texto, analise, considerando o contexto, as seguintes afirmativas.
I. O conflito gerador dessa história é o fato de o narrador não conseguir compreender o motivo de se ter que aprender, na escola, o nome de tantas coisas aparentemente inúteis para a vida. Ao desenvolver a história, ele explica, porém, que acabou usando um desses nomes, muito tempo depois, para amedrontar um garotinho.
II. O narrador, que é um dos personagens da história, utiliza uma linguagem típica do gênero crônica, isto é, simples e coloquial, próxima da oralidade, mas sem desvios de concordância. Além disso, a partir do segundo parágrafo, os fatos são organizados numa sequência cronológica, o que delimita com precisão o desenvolvimento dos acontecimentos, o clímax e o desfecho do enredo.
III. O travessão foi usado como recurso para ceder espaço a voz dos personagens da história, caracterizando a presença do discurso direto. Por isso, no trecho “Pronto: o menino saiu em disparada pela praça de Ouro Preto, berrando ‘mamãe, mamãe!’”, ainda que a voz do personagem tenha sido mercada pelo uso das aspas, o narrador não cede espaço diretamente para a voz do personagem, o que caracteriza a presença do discurso indireto.
Está correto o que se afirma em
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: A fala reproduzida literalmente em “Pronto: o menino saiu em disparada pela praça de Ouro Preto, berrando “mamãe, mamãe!”.” caracteriza discurso direto, não indireto. Por isso, III não se sustenta e o gabarito oficial D fica sem sustentação integral.

Tema central: Características da crônica narrativa
Análise das alternativas
A
Errada
Inclui duas afirmativas comprometidas. I atribui ao narrador a provocação, embora o texto identifique outro agente: “Nessa hora um dos meus amigos, o Mauro, resolveu sacanear o menino:”. III erra ao classificar o chamado literal do menino, delimitado por aspas, como discurso indireto.
B
Errada
II encontra apoio no texto, mas I troca o responsável pela provocação: quem utiliza o termo científico para assustar o menino é Mauro. O narrador participar da visita não permite atribuir-lhe a ação do amigo.
C
Errada
Reúne duas afirmativas que não se sustentam integralmente: I atribui ao narrador a ação de Mauro; III confunde discurso direto com indireto. As aspas preservam a fala do menino, e sua inserção no relato do narrador não altera essa classificação.
D
Certa
D é a alternativa indicada oficialmente. A afirmativa II se sustenta pela participação do narrador nos acontecimentos, pela linguagem coloquial e pela progressão temporal predominante: experiência escolar, final da adolescência, faculdade e episódio do museu. Formas como “pra” e “pras” marcam oralidade, não constituindo, por si mesmas, desvios de concordância. Contudo, não é possível validar integralmente D: III classifica como indireta uma fala reproduzida diretamente entre aspas. A análise linguístico-textual sustenta apenas II, combinação ausente das alternativas.
Pegadinha da questão
I confunde o narrador-personagem com Mauro, autor da provocação. III começa corretamente ao reconhecer o discurso direto marcado por travessões, mas termina classificando incorretamente como indireta a fala entre aspas. Essa segunda confusão também compromete a sustentação do gabarito oficial.
Dica para questões semelhantes
  • Confira quem pratica cada ação: participar do episódio não torna o narrador responsável pelas falas de outras personagens.
  • Identifique se a fala foi reproduzida literalmente: tanto aspas quanto travessões podem marcar discurso direto.
  • Avalie a afirmativa inteira; uma observação inicial correta não valida uma conclusão conceitualmente errada.
  • Distinga marcas de oralidade de desvios de concordância e acompanhe os marcadores temporais para verificar a progressão narrativa.

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