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Q4068895 Português
Texto para responder à questão.

As cruéis mitocôndrias

    Tem coisa que a gente aprende na escola e não entende bem pra que aquilo vai servir, se é que vai servir um dia. [...]
    O que nunca me entrou na cabeça foi a importância de aprender o nome de tantos protozoários, bactérias, fungos, vírus e outros causadores de doenças. Na época eu estava curtindo meu primeiro amor platônico e só queria aprender a explicação pro meu coração acelerado e minha dor-de-cotovelo. A professora de ciências não passava nem perto de resolver esse problema. [...]
    Quase no final da adolescência, tive a brilhante ideia de montar uma banda de rock chamada Giardia Lamblia e seus Vacúolos Contráteis. Maravilha: eu tinha descoberto finalmente a utilidade das aulas de ciências. Era um nome engraçado e de sonoridade moderna. [...]
     Acabei entrando pra faculdade de jornalismo e foi ali que eu descobri mais uma utilidade pras tais aulas de ciências. Um dia, eu e dois colegas, cada um mais gozador do que o outro, fomos ao Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, e a escadaria do museu principal estava em reforma. Os visitantes tinham que recorrer a uma escadinha de madeira, bem capenga, num canto escuro.
    Quando a gente estava descendo pra ir embora, notamos um garotinho de uns oito anos olhando praquela escada e morrendo de medo de subir. Nessa hora um dos meus amigos, o Mauro, resolveu sacanear o menino:
     – Se eu fosse você eu não subia não.
     – Por quê?
    – o menininho até tremia.
    – Lá em cima tá cheio de mitocôndrias!
    – Coitado do menino. Arregalou uns olhos desse tamanho, engoliu seco, não sabia o que fazer.
     – E isso morde?
   – ele ainda teve voz pra perguntar.
    E o Mauro – até hoje não sei ele conseguiu lembrar dessa aula tantos anos depois – teve a crueldade de responder:
   – Morder não morde. Mas sintetiza ATP.
    Pronto: o menino saiu em disparada pela praça de Ouro Preto, berrando “mamãe, mamãe!”.
    Só muitos anos depois, na aula de ciências, o pobre do menino deve ter percebido toda a sacanagem daquele dia.
    Até então, aposto que ele teve mil pesadelos, com as cruéis mitocôndrias sintetizando todos os ATPs de seu cérebro.

(CUNHA, Leo. As cruéis mitocôndrias. In: CUNHA, Leo. Manual de desculpas esfarrapadas. São Paulo: FTD, 2004, pp. 17-19.)
A substituição do sintagma destacado pelo sugerido entre parêntese implica desvio de concordância em: 
Alternativas

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: Em “Quando a gente estava descendo pra ir embora,”, o verbo concorda com “a gente” na terceira pessoa do singular. Ao substituir apenas essa expressão por “nós”, a norma-padrão exige a primeira pessoa do plural, “estávamos”. Manter “estava” após a troca provoca o desvio de concordância identificado em A.

Tema central: Concordância verbal com pronomes
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A é a única em que a substituição altera a pessoa e o número gramaticais do sujeito sem ajustar a forma verbal, produzindo incompatibilidade de concordância.
B
Errada
Não provoca desvio: “A professora de ciências” e “ela” são sujeitos de terceira pessoa do singular. Assim, a forma verbal “passava” permanece corretamente flexionada após a substituição.
C
Errada
Não provoca desvio: a substituição de “a escadaria” por “a escada monumental” preserva o sujeito na terceira pessoa do singular, mantendo correta a forma “estava”. O sentido de conjunto de degraus de “escadaria” não a torna gramaticalmente plural.
D
Errada
Não provoca desvio: “a brilhante ideia” integra o objeto direto de “tive”, e sua substituição por “o lampejo genial” não altera o sujeito elíptico “eu”, com o qual o verbo concorda. A mudança de gênero também não gera erro, pois o novo sintagma apresenta concordância nominal interna adequada.
Pegadinha da questão
A troca deve ser avaliada sem ajustar o verbo. Embora “a gente” e “nós” possam ter a mesma referência, somente “a gente” admite “estava” na norma-padrão; com “nós”, é necessário empregar “estávamos”.
Dica para questões semelhantes
  • Faça somente a substituição proposta e verifique se o verbo mantido concorda em pessoa e número com o novo sujeito.
  • Diferencie equivalência de sentido e concordância gramatical: “a gente” exige terceira pessoa do singular; “nós”, primeira pessoa do plural.
  • Identifique a função sintática do segmento substituído: a troca de um objeto direto não determina mudança na concordância verbal.
  • Ao mudar o gênero de um sintagma, confira sua concordância interna; a mudança de feminino para masculino não constitui, por si só, um erro.

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