É lamentável que atualmente alunos do curso médio e superior...
LEITURA E APRENDIZADO.
*Nilce Rezende Fernandes
1 Um expressivo número de adolescentes, incluindo os alunos de tradicionais colégios da rede particular, apresenta dificuldade de compreensão de texto, o que é detectado pelas respostas vagas, inconsistentes, sem coerência, coesão e com graves erros de ortografia. Esses fatos se devem, na maioria das vezes, à falta de hábito aliado ao prazer da leitura.
2 Há algumas décadas, a maioria dos jovens na faixa dos 14 aos 17 anos, devorava os clássicos da literatura brasileira e até estrangeira, mesmo antes da tão propagada globalização. Havia uma intimidade entre leitores e autores como Machado de Assis, Raquel de Queiroz, Érico Veríssimo, Rubem Braga, Carlos Drumonnd de Andrade, Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, Carlos Heitor Cony, Fernando Sabino, Clarice Lispector e Guimarães Rosa, entre tantos outros. As obras eram motivo de discussão entre os amigos, que até simulavam um julgamento para condenar ou inocentar Capitu, personagem da obra-prima Dom Casmurro, de Machado de Assis.
3 Dostoiévski, George Orwell, Hemingway, Tolstoi, Proust, Gabriel Garcia Márquez, entre vários também faziam parte das leituras juvenis. Ler bastante era considerado tão natural quanto dominar a tecnologia nos dias atuais. Foi dessa forma que os adolescentes aprenderam a interpretar textos, argumentar, expressando-se com clareza e no português padrão exigido. O antigo Colégio Estadual Central, famoso pelo corpo docente, era o mais disputado para essa turma amante dos livros, que após o ensino médio, ingressava na UFMG com sucesso.
4 É lamentável que atualmente alunos do curso médio e superior escrevendo “xampu” com sh e “quis” com z, influenciados pelas palavras inglesas “shampoo” “quiz”, mesmo sendo o significado da segunda completamente diferente. O x dá lugar ao ch em “xícara”, “mexer” e “vexame”; o inverso ocorre em “chuchu”, “enchimento” e “pichação”. Devido à semelhança do som, o j de “gorjeta” é trocado pelo g, assim como o s por z em “paralisar”, “alisar” e “puser”.
5 A língua portuguesa é complexa e as regras com uma série de exceções não contemplam cada termo, por isso a leitura é uma importante ferramenta de aprendizagem. Seria injusto jogar a culpa no novo acordo ortográfico, uma vez que as palavras citadas não sofreram nenhuma alteração em função dele.
6 O Estado de Minas publicou (Opinião, 23/02/2012) o artigo “Quando a tecnologia provoca involução”, assinado por Carlos Eduardo Guilherme, afirmando que tamanhos avanços tecnológicos provocam o distanciamento dos jovens em vez de aproximá-los e proporcionam dificuldades de se relacionar em grupo. Fala que “o consumismo excessivo, o uso exagerado do computador, dos jogos eletrônicos, da TV e a superproteção dos pais têm criado situações de isolamento”. Em outro trecho diz que “nos colégios e clubes, mesmo após meses de convívio, eles têm dificuldade de se aproximar dos colegas. São, na grande maioria, garotos individualistas e egocêntricos, vivem em mundos separados da realidade”.
9 O contato dos bebês com os livros emborrachados durante o banho, evoluindo para os contos de fadas contados pelos pais antes de os filhotes pegarem no sono e depois os propícios a cada faixa etária, contribui para que na adolescência já se tenha solidificado amor e intimidade com o romance, conto, crônica ou poema. Aí, certamente, haverá prazer de ler Machado de Assis, Ignácio de Loyola Brandão, Marina Colasanti, Adélia Prado, Nélida Piñon e muitos outros. Sem restrição alguma da substituição do livro impresso pela leitura digital. Afinal, por mais que os contumazes leitores valorizem o papel, na era da tecnologia é fundamental uma flexibilização para incentivar o ato de ler da garotada. Se, pelo contrário, optar-se por uma imposição, provavelmente, o tiro sairá pela culatra, e assim muitos jovens vão preferir ignorar a leitura.
(Jornal Estado de Minas, 13 de Março de 2012. Caderno Opinião. * Professora e escritora).
Gabarito comentado
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Tema central: Interpretação de texto (foco em ortografia e preservação da língua portuguesa sob influência estrangeira).
No trecho apresentado, a autora lamenta que alunos escrevem palavras portuguesas (“xampu”, “quis”) com grafia estrangeira (shampoo, quiz), demonstrando influência do inglês – e fazendo críticas à perda da forma correta de nossa ortografia.
RESOLUÇÃO: Para resolver essa questão, a estratégia correta é identificar o posicionamento crítico da autora em relação à entrada de grafias estrangeiras e como isso afeta a preservação do sistema ortográfico do português.
Em gramáticas como as de Evanildo Bechara e Celso Cunha & Lindley Cintra, ressalta-se a importância da ortografia como fator de entendimento e identidade da língua. A norma-padrão determina que palavras devem ser grafadas conforme as regras oficiais. O ensino clássico também orienta combater interferências indevidas de estrangeirismos não adaptados na escrita.
Justificativa da Alternativa Correta (D):
“A língua deve ser preservada, principalmente, na forma ortográfica.”
Essa alternativa está correta pois reflete o ponto central do texto: a preocupação em manter as regras ortográficas da língua portuguesa, evitando que grafias estrangeiras sejam incorporadas sem critério, o que pode comprometer a clareza e a unidade do idioma.
Análise das alternativas incorretas:
A) “A língua não sofre interferências com a escrita de palavras diferentes.” Incorreta — O texto justamente lamenta a influência estrangeira e mostra que ela causa prejuízo à escrita convencional.
B) “Em ambas as línguas: inglês e Português a escrita pode se renovar.” Incorreta — A autora não defende a renovação indiscriminada da grafia, mas sim a preservação.
C) “Os estudantes dominam bem as duas línguas: inglês e Português.” Incorreta — Não há indício disso; aponta-se apenas o mau uso da grafia influenciada pelo inglês, não domínio das línguas.
Atenção: Questões assim podem trazer afirmativas genéricas ou que desviem a atenção do foco argumentativo do texto. Ao ler, busque sempre o posicionamento explícito ou implícito do autor e relacione com os conceitos da norma-padrão – estratégia decisiva em provas.
Referencie sempre gramáticas consagradas e o sentido global do texto para fundamentar sua escolha.
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Comentários
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- Questão "barbada", como dizem os gaúchos.
É lamentável que atualmente alunos do curso médio e superior escrevendo “xampu” com sh e “quis” com z, infuenciados pelas palavras inglesas “shampoo” “quiz”, mesmo sendo o signifcado da segunda completamente diferente.
- a) a língua não sofre interferências com a escrita de palavras diferentes.
- Sofre sim. É isso que se infere (deduz logicamente) do texto.
- b) em ambas as línguas: inglês e Português a escrita pode se renovar.
- Em nenhum momento o trecho fala sobre renovação, muito menos da língua inglesa.
- c) os estudantes dominam bem as duas línguas: inglês e Português.
- Em nenhum momento o trecho fala sobre domínio de ambas as línguas por parte dos estudantes. Apenas diz que alunos, até aluno de curso superior, escrevem errado por influência da língua inglesa. Independentemente se ele tem o domínio ou não. Agora se ele tem o domínio do Português, por que ele escreve errado então?
- d) a língua deve ser preservada, principalmente, na forma ortográfca.
- Exato, o texto fala sobre a influência da língua exterior, causando erro na escrita dos nossos estudantes. Começando através de erros assim, pode-se surgir futuramente uma possível mutação na ortografia oficial. Devendo esta ser preservada, principalmente, na forma ortográfica.
a língua deve ser preservada, principalmente, na forma ortográfca.
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