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Q3416615 Português
PÁSCOA, SUBSTANTIVO FEMININO. As lendas e reviravoltas que fizeram da lebre um coelho.


Às vezes as ideias nos tomam a mente sem aviso — aconteceu comigo na última semana, em meio à compra dos ovos de Páscoa da família. No afã de prolongar a magia da data para as crianças, ia escrevendo no cartão dos chocolates "de: Coelho/para: ..." e, de repente, hesitei. E se fosse coelha?


As pessoas costumam se perguntar sobre o porquê do coelhinho da Páscoa. Não é mesmo evidente o elo entre a festa religiosa celebrada no próximo domingo e um mamífero espalhando ovos por aí — de chocolate, ainda por cima.


Em geral, elas se dão por satisfeitas com a explicação de que o ovo é um símbolo de vida e por isso se liga à ressurreição de Cristo, enquanto o coelho nos lembra a origem pagã da festa, a celebração da primavera no Hemisfério Norte. Entre março e abril, quando a vida se revigora, nascem as crias desse animal, conhecido pela fertilidade.


Para mim, a coisa se complica justo nesse ponto. Por que o coelho da festa é macho e as únicas coelhas lembradas (por motivos nada sagrados) são as da revista Playboy? Não seria o caso de dar o mérito e o lugar de honra à coelha?


Pois bem, fui pesquisar e, no início da tradição europeia, havia mesmo uma coelha. A bem da verdade, uma lebre fêmea (maior e mais orelhuda que sua prima, embora tão fértil quanto ela).


A lebre era sagrada para certos povos antes de Cristo. Júlio César chegou a observar que, nos territórios da atual Grã--Bretanha, ela não servia de alimento, devido a esse significado religioso. Na Grécia Antiga, era associada a Afrodite, a deusa do amor. Mais adiante, no século XIX, Jacob, um dos irmãos Grimm famosos pelos contos de fadas, escreveu sobre uma divindade feminina alemã ligada à fertilidade e à abundância (e outro alemão da mesma época a relacionou à lebre).


Diversas figuras femininas de fecundidade eram festejadas na Europa, nos meses promissores depois do frio, quando as lebres saltavam pelos campos com a filharada. Em algum momento, talvez para explicar às crianças como os ovos de Páscoa tinham ido parar nos jardins das casas, os animais começaram a fazer parte da festa, responsáveis pela distribuição. Daí para virar coelho, foi um pulo.


De uma deusa para outra, a lebre vira coelho, coelho não é coelha, se fosse também não botaria ovo, e o ovo nem de galinha é. Uma miscelânea bem plausível de contestação. Mas, rigores históricos e biológicos à parte, são as mulheres, divinas ou não, as que geram a vida. Por onde se olhe, uma fêmea, fosse de lebre ou de coelho, encaixaria melhor na lenda.


Veja se não estou certa. Os mais conservadores diriam ser papel feminino nutrir a família com afeto, cuidar do preparo dos chocolates e agradar às crianças com os doces. Já outros poderiam afirmar que hoje não faz sentido o distribuidor de presentes ser um homem (ou coelho, no caso). Afinal, há décadas a mulher não depende dele como provedor — aliás, segundo o IBGE, no Brasil são elas as chefes da maior parte das famílias.


Ainda assim, e a despeito de a equidade de gênero ser uma das bandeiras mais levantadas e debatidas atualmente, permanece comum nas decorações e ilustrações pascais o alegre coelho branco, geralmente vestindo roupas masculinas.


De minha parte, fecho este texto com uma constatação singela, mas essa, sim, incontestável. Em bom português, Páscoa é um substantivo feminino.


(Lucília Diniz,Veja 29 de março de 2024)

 A autora emprega argumentos que sustentam uma mudança do símbolo para coelha, mas entre eles não consta:
Alternativas

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Tema central: Interpretação de Texto – Identificação de Argumentos

Esta questão avalia a capacidade do candidato de identificar argumentos apresentados pela autora para defender a mudança do símbolo da Páscoa para uma coelha. Para tanto, exige atenção aos conceitos de coesão, coerência textual e leitura atenta, distinguindo informações argumentativas de simples observações.

Justificativa da alternativa correta (C)

A alternativa C) o alegre coelho branco vestindo roupa masculina é a correta porque, embora o texto cite essa imagem tradicional do coelho da Páscoa, ela aparece como descrição de costume, não como argumento para sugerir que o símbolo da celebração devesse ser feminino. Ou seja, não é utilizada para sustentar a tese da autora.

Estratégia de resolução: Ao buscar o argumento, observe se o trecho explicado apresenta relação de causa, justificativa ou fundamento à tese. Como ensina Koch (2000), distinguir entre enunciados argumentativos e meramente descritivos é central para garantir a coesão e coerência.

Análise das alternativas incorretas

A) as famílias brasileiras serem chefiadas, em maioria, por mulheres – A autora menciona essa informação para reforçar a ideia de que a figura feminina tem papel central na família e, portanto, seria apropriado que o símbolo da Páscoa fosse uma coelha.

B) a fertilidade e a abundância serem ligadas à lebre – Fato presente no texto, que aparece como fundamento histórico e mítico para associar o símbolo da Páscoa à figura feminina.

D) o homem ter perdido o papel de principal provedor – Outro argumento usado no texto para justificar a pertinência de atualizar o símbolo pascal: atualmente, mulheres proveem famílias, não justificando a prevalência do masculino como símbolo.

Orientação para provas: Foque em reconhecer argumentos que fundamentam a opinião do autor e não se deixe enganar por descrições incidentais no texto. Essas armadilhas são frequentes em provas de concursos.

Referência: A abordagem segue ensinamentos de Ingedore Koch (coesão e coerência textual) e Nova Gramática do Português Contemporâneo (Cunha & Cintra).

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