De muitas experiências contemplativas se constrói a sabedori...

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Q39583 Português
A arte de não fazer nada

Dizem-me que mais da metade da humanidade se
dedica à prática dessa arte; mas eu, que apenas recente e
provisoriamente a estou experimentando, discordo um pouco
dessa afirmativa. Não existe tal quantidade de gente
completamente inativa: o que acontece é estar essa gente
interessada em atividades exclusivamente pessoais, sem
consequências úteis para o resto do mundo.

Aqui me encontro num excelente posto de observação: o
lago, em frente à janela, está sendo percorrido pelos botes
vermelhos em que mesmo a pessoa que vai remando parece
não estar fazendo nada. Mas o que verdadeiramente está
acontecendo, nós, espectadores, não sabemos: cada um pode
estar vivendo o seu drama ou o seu romance, o que já é fazer
alguma coisa, embora tais vivências em nada nos afetem.

E não posso dizer que não estejam fazendo nada
aqueles que passam a cavalo, subindo e descendo ladeiras,
atentos ao trote ou ao galope do animal.

Há homens longamente parados a olhar os patos na
água. Esses, dir-se-ia que não fazem mesmo absolutamente
nada: chapeuzinho de palha, cigarro na boca, ali se deixam
ficar, como sem passado nem futuro, unicamente reduzidos
àquela contemplação. Mas quem sabe a lição que estão
recebendo dos patos, desse viver anfíbio, desse destino de
navegar com remos próprios, dessa obediência de seguirem
todos juntos, enfileirados, para a noite que conhecem, no
pequeno bosque arredondado? Pode ser um grande trabalho
interior, o desses homens simples, aparentemente desocupados,
à beira de um lago tranquilo. De muitas experiências
contemplativas se constrói a sabedoria, como a poesia. E não
sabemos ? nem eles mesmos sabem ? se este homem não vai
aplicar um dia o que neste momento aprende, calado e quieto,
como se não estivesse fazendo nada, absolutamente nada.

(Cecília Meireles, O que se diz e o que se entende)

De muitas experiências contemplativas se constrói a sabedoria, como a poesia. (4º parágrafo)

Considerando-se o contexto, uma nova, correta e coerente redação do que se afirma na frase acima é:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: No trecho “De muitas experiências contemplativas se constrói a sabedoria, como a poesia.”, “De muitas experiências contemplativas” indica a base/origem da construção, e “como a poesia” inclui a poesia no mesmo processo; por isso, a alternativa correta é a que preserva essa relação de formação a partir de experiências contemplativas.

Tema central: reescrita com preservação de sentido
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa altera o sentido ao fazer da sabedoria “a contemplação de muitas experiências que se constroem”. No original, não são as experiências que se constroem, nem a sabedoria é definida como contemplação delas. O texto afirma o contrário: as experiências contemplativas são a base da construção da sabedoria e da poesia.
B
Errada
Há inversão da direção lógica. A alternativa diz que experiências contemplativas resultam da construção da sabedoria, quando o trecho original estabelece que elas são a origem/base a partir da qual se constroem a sabedoria e a poesia.
C
Errada
A redação troca a relação de fundamento por consequência. Passa a afirmar que sabedoria e poesia levam a experiências contemplativas, mas o texto diz que as experiências contemplativas antecedem esse processo e servem de base para construir ambas.
D
Errada
A alternativa é sintaticamente desorganizada e semanticamente truncada. Ela não explicita com coerência o que se constrói a partir de quê, rompendo a estrutura de sentido do original e impedindo uma paráfrase fiel.
E
Certa
A alternativa E mantém a relação sintático-semântica essencial do período original: as experiências contemplativas são o ponto de partida, e sabedoria e poesia são os resultados construídos a partir delas. A troca de “De muitas” por “a partir de várias” e de “como” por “tal como” preserva o conteúdo proposicional do enunciado, sem inverter causa e efeito nem alterar a coordenação entre “sabedoria” e “poesia”.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre base e resultado: várias alternativas reaproveitam palavras do trecho, mas invertem a relação semântica central. Outra armadilha é ler “como a poesia” de modo solto, sem perceber que a poesia também está submetida ao mesmo processo de construção.
Dica para questões semelhantes
  • Localize primeiro quem é a base/origem e quem é o resultado no período original antes de comparar as reescritas.
  • Verifique se conectores como “como”, no contexto, estão apenas comparando ou também incluindo outro termo no mesmo processo enunciado.
  • Não valide uma paráfrase só porque ela repete as mesmas palavras; confira se a organização sintático-semântica foi preservada.

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Comentários

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e-

A `e` [e a única opção que encapsula o significado da afirmação, o qual pode ser compreendido como:

a sabedoria, como a poesia, se constrói De muitas experiências contemplativas.

 

'constrói-se' é a forma da voz passiva sintética para "ser construido".

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