Os sintomas foram se acumulando
rapidamente. No intervalo de dois ou três dias, estavam
todos lá: cansaço, depois cansaço extremo. Moleza,
fraqueza. Inapetência. Enxaqueca em grau até então
desconhecido (pode respirar mais baixo, por favor?) - e
já não lembrava nem o que havia almoçado horas antes.
Enjoos. Nas semanas anteriores, a dor na coluna havia
me levado duas vezes ao PS Ortopédico (Primeiro foram
os anti-inflamatórios, depois os analgésicos, depois as
bolsas térmicas, depois acupuntura, depois RPG e então,
enfim, admitamos: só Deus). Mas só quando surgiu a
febre alta, repentina, instantânea, suspeitei realmente.
(...)
Fui acometido por uma certeza fria de que era
dengue. A dengue daria sentido a tudo, ao cansaço, à
insatisfação, à moleza, à inapetência. À vida, nestes dias.
Era dengue. Preparei as malas para ir ao hospital e
decretar triunfalmente: estou com dengue. Meus amigos
tiveram dengue. Colegas de trabalho tiveram dengue.
Matei um mosquito de listras brancas dentro do meu
carro esses dias. Tenho todos os sintomas do Google,
digo, da dengue, portanto é saber qual tipo e se vou
sobreviver. O médico contestou. Fez-me pagar um
exame particular, já que os planos de saúde já não
cobrem mais testes de dengue - como se sabe, servem
para todas as coisas de que não precisamos.
Paguei para ver.
Não era dengue. Fiquei desconcertado. O rosário
que daria sentido aos meus sintomas - e a mais do que
isso, aos meus dias - se desfazia.
Não era dengue, era a vida.
Aquela doença que me andava deprimindo,
exaurindo, que na quinta-feira às sete horas da noite
engolfou meu corpo na cama como um oceano de
algodão - era a vida.
Era a vida, que também derruba. A vida, que não
é transmitida por mosquitos, mas por mães, e da qual a
gente só se lembra assim, de vez em quando, quando um
mosquito inocula um falso vírus, quando uma dor trava a
coluna, quando alguém próximo morre.
A vida, que, quando ignorada, volta-se contra nós
de mansinho, com lábios de Monalisa, enfraquecendo
pernas e pés, costas e ombros, turvando a vista e
ricocheteando furiosamente nas paredes do crânio até
que nos apercebamos dela. A vida, cachorro que morde
a mão, cachorro cuja indignação é inexplicável até que
notada.
A vida de minhas retinas tão fatigadas. A vida de
acordar muito cedo, estender-se na rua até tarde, culpar- se pela pouca atenção à família, à mulher, ao cachorro,
às crianças e velhos que morrem sem vida; ao corpo, ao
sono, à cabeça. A vida de São Paulo, Brasil, classe
média, escritor fatigado de 34 anos.
Eu não sei se fez sol ou se choveu, ontem à
tarde. Não lembro o que comi no almoço. Tenho 16
relatórios para esta semana.