O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
Burnout já existia na Idade Média: o que a sabedoria
medieval tem a nos ensinar
O estresse e o esgotamento mental não são problemas
exclusivos da vida moderna. Na Idade Média, também
eram comuns, e parte da sabedoria medieval sobre
como enfrentar o burnout, considerado um fenômeno
ocupacional pela Organização Mundial da Saúde,
continua surpreendentemente atual.
Os sintomas, observou João Cassiano, um dos primeiros
pensadores cristãos do século quinto a exercer o papel
de sacerdote-terapeuta, eram sempre os mesmos:
cansaço, desesperança, vontade de estar em qualquer
lugar, menos no trabalho, e uma espécie de névoa
mental, descrita como uma confusão da mente sem
explicação, que fazia seus colegas se sentirem improdutivos, inúteis e buscarem consolo no sono.
Quem já enfrentou burnout, esgotamento ou depressão
reconhecerá parte dessas sensações. É comum supor
que esses problemas sejam consequência das pressões
do século vinte e um. Cassiano, porém, escreveu sobre
isso no século quinto depois de Cristo, para cristãos dos
primeiros séculos exaustos pelas exigências da vida
espiritual.
Será que relatos como esse podem ajudar a
compreender o mal-estar contemporâneo e apontar
caminhos para enfrentá-lo?
Essa é a tese do livro do historiador Peter Jones,
Autoajuda na Idade Média: uma viagem pela mente
medieval, que apresenta as formas como os chamados
padres-terapeutas orientavam os fiéis a superar a
angústia espiritual.
A pesquisa de Jones revela como o esgotamento foi
recorrente ao longo da história, constatação que pode
confortar quem atravessa um período de profunda
angústia. Segundo o historiador, há muita sabedoria na
Idade Média. Depois de tantos livros dedicados às lições
dos antigos estoicos, talvez seja o momento de recorrer
também aos manuscritos medievais.
Jones conta que a ideia do livro surgiu após enfrentar a
própria crise, descrita por ele como "o inverno mais frio
da minha vida".
Em 2015, por razões que ainda diz ter dificuldade para
explicar, aceitou o cargo de professor titular de História
na Universidade de Tyumen, na Sibéria. As temperaturas
eram tão baixas que, depois de apenas vinte minutos ao
ar livre, ele perdia completamente a sensibilidade nas
pernas.
Também enfrentava dificuldades com o idioma e sentia
muita falta da família, que havia ficado em Dublin, na
Irlanda. Ele conta que deveria pesquisar, preparar aulas
e seguir com a vida, mas simplesmente não conseguia
fazer nada.
Enquanto preparava um curso sobre os Sete Pecados
Capitais, Jones começou a reconhecer nos relatos
medievais ecos da própria infelicidade. Segundo ele, os
autores medievais passaram por experiências
semelhantes às atuais, porque os sentimentos e as
crises humanas sempre foram parecidos.
Jones explica que os sete pecados capitais não
aparecem na Bíblia. Foram formulados por pensadores
cristãos dos primeiros séculos, como João Cassiano, e
sistematizados mais tarde pelo papa São Gregório
Magno, que os considerava uma ferramenta para
compreender os problemas da mente.
Esse esquema de organização dos pensamentos incluía
soberba, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria.
Entre os sete pecados, a preguiça foi a que mais refletiu
o estado de espírito de Jones na Sibéria. Hoje, costuma
ser associada à indolência ou à falta de vontade de agir.
Os autores medievais, porém, identificavam por trás dela
um vazio emocional mais profundo.
Conhecida na época como acídia, a condição abrangia
uma ausência de amor, uma paralisia do cuidado e um
vazio espiritual, escreve Jones. Era o estado em que
tudo o que antes iluminava os dias passava a despertar
apenas indiferença.
Jones conta que se identificou especialmente com um
texto do século treze, conhecido como MS 306 e
preservado em Dublin. Nele, a acídia é descrita como
estar parado no meio de um rio caudaloso, diante de
uma correnteza que bate contra as pernas, mas sem
forças para seguir em frente. A imagem reproduzia a
sensação de paralisia que ele experimentou durante o
inverno na Sibéria.
Jones não é o único historiador a identificar paralelos
entre os males medievais e os da vida contemporânea.
No livro Exaustos, a historiadora cultural Anna Katharina
Schaffner estabelece uma relação direta entre a acídia
descrita pelos cristãos medievais e o burnout atual. Entre
os sintomas estão a busca de conforto na comida e o
recurso a distrações sem propósito, em vez da
dedicação a atividades significativas.
Segundo Schaffner, trata-se de um círculo vicioso: quem
sofre de acídia se torna cada vez menos capaz de
meditar e refletir sobre questões espirituais, enquanto as
estratégias inadequadas usadas para recuperar as
energias agravam o problema. Nesse sentido, os
indivíduos medievais eram semelhantes às pessoas do
século vinte e um, exaustas e inclinadas a evitar o que
realmente importa por meio de atividades improdutivas.
Mas quais eram as soluções?
O autor do manuscrito MS 306 responde com uma
referência indireta à Bíblia, segundo a qual os jebuseus
vivem dentro das fronteiras de cada pessoa. É possível
subjugá-los, mas não exterminá-los.
Jones explica que os jebuseus eram um povo antigo que
ocupou Jerusalém e não podia ser completamente
expulso. A metáfora aconselha quem sofre de acídia a
aprender a conviver com esses sentimentos, em vez de
lutar constantemente contra eles.
Jones reconhece que, fora do contexto original, essas
ideias soam como clichês. Ainda assim, observa que
elas lembram abordagens contemporâneas para tratar o
burnout e outros problemas emocionais.
Jones também cita os escritos de Bernardo de Claraval,
do século doze, um dos fundadores da Ordem dos
Cavaleiros Templários. Segundo o historiador, Bernardo
comparou uma boa vida a correr em um terreno
acidentado, no qual qualquer pessoa, depois de
percorrer uma distância suficiente, acabará tropeçando
ou caindo. Todos passam por momentos em que se
sentem completamente sem rumo.
Para Jones, há grande conforto em reconhecer que
ninguém sofre sozinho. Seja qual for a aflição, outras
pessoas já experimentaram sentimentos semelhantes ao
longo de milhares de anos. É reconfortante sentir a
companhia daqueles que vieram antes de nós.
No livro Exaustos, a historiadora cultural Anna Katharina
Schaffner "estabelece" uma relação direta entre a acídia
descrita pelos cristãos medievais e o burnout atual.
Considerando a regência do verbo "estabelece", assinale a alternativa correta.
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
Veja como esse erro impacta seu desempenho geral. Ver estatísticas