Considerado o poema, assinale a alternativa correta.

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Q854211 Português

Atenção: A questão refere-se ao texto abaixo, atribuído a um dos heterônimos de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos. 


 DATILOGRAFIA


Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,

Firmo o projeto, aqui isolado,

Remoto até de quem eu sou.


Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,

O tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Que náusea da vida!

Que abjeção esta regularidade!

Que sono este ser assim!


Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros

(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),

Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,

Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,

Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.


Outrora.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,

O tique-taque estalado das máquinas de escrever.


Temos todos duas vidas:

A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,

E que continuamos sonhando, adultos, num substrato

                                                                          [de névoa;

A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,

Que é a prática, a útil,

Aquela em que acabam por nos meter num caixão.


Na outra não há caixões, nem mortes,

Há só ilustrações de infância:

Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;

Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.

Na outra somos nós,

Na outra vivemos;

Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;

Neste momento, pela náusea, vivo na outra...


Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,

Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de

                                                                        [escrever. 

Considerado o poema, assinale a alternativa correta.
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é articular o dado explícito de isolamento com a indicação de presença alheia no ambiente: “Firmo o projeto, aqui isolado, / Remoto até de quem eu sou. / Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, / O tique-taque estalado das máquinas de escrever.” Nesse trecho, “ao lado” e o som das “máquinas de escrever” permitem inferir convivência espacial com outros, enquanto “isolado” e “Remoto até de quem eu sou” afirmam o estranhamento de si; por isso, a alternativa B é a correta.

Tema central: isolamento e presença alheia
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra ao dizer que há afastamento também do mundo dos sonhos. O poema afirma o contrário: “A verdadeira, que é a que sonhamos na infância, / E que continuamos sonhando, adultos”. O vínculo com o sonho permanece na vida adulta; o que o texto critica é a vida prática, não uma ruptura com o sonhado.
B
Certa
A alternativa B reúne com fidelidade dois elementos centrais do poema. De um lado, “Ao lado” e “O tique-taque estalado das máquinas de escrever” permitem inferir que o eu lírico está num ambiente compartilhado, com outras pessoas por perto. De outro, ele declara explicitamente: “aqui isolado” e “Remoto até de quem eu sou.” Portanto, a alternativa acerta ao mostrar a coexistência entre convivência espacial com outros e isolamento interior, inclusive em relação a si mesmo.
C
Errada
A eliminação decorre do tom do poema. Não há conformação nem lamento contido, mas repulsa intensa: “Que náusea da vida! / Que abjeção esta regularidade! / Que sono este ser assim!”. Essas exclamações marcam inconformismo e mal-estar, incompatíveis com a ideia de resignação diante da vida.
D
Errada
A alternativa reduz indevidamente as imagens a sentido literal. No poema, “castelos e cavaleiros”, “paisagens do Norte” e “palmares do Sul” aparecem ligados ao sonho e à infância: “Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho” e “Há só ilustrações de infância”. Logo, essas imagens têm função imaginária e memorial, não se restringem à concretude.
E
Errada
O erro está em transformar “a prática, a útil” em valorização da vida adulta. O próprio texto a desqualifica: “A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros, / Que é a prática, a útil, / Aquela em que acabam por nos meter num caixão.” O segmento está enquadrado por avaliação negativa explícita; “útil” não significa aqui que seja a vida que realmente importa.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre isolamento subjetivo e solidão física absoluta: o eu lírico se diz “isolado”, mas o poema marca a presença de outros por meio de “Ao lado” e do “tique-taque estalado das máquinas de escrever”.
Dica para questões semelhantes
  • Quando a alternativa mistura estado interior e descrição do ambiente, confira se o texto sustenta os dois planos ao mesmo tempo.
  • Não transforme palavra de valor aparentemente neutro ou positivo em elogio sem verificar o enquadramento do trecho inteiro, como ocorre com “a prática, a útil”.
  • Em interpretação, imagens ligadas a infância, sonho e memória não devem ser lidas como mera enumeração literal se o próprio texto lhes dá função imaginária.

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Comentários

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A -> Falsa - A vida adulta aproxima-o do mundo concreto, não o afasta dele.

B -> Verdadeira - as primeiras estrofes dizem exatamente isso.

C -> Falsa - O poeta não está conformado, está inconformado.

D -> Falsa - Essas menções podem ser tomadas em sentido metafórico, e não somente no literal.

E -> Falsa - Pelo contrário, ele inclusive diz que a verdadeira vida é a que sonhamos na infância. Dessa forma, ela é a que importa.

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