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Ano: 2019
Banca:
CETAP
Órgão:
Prefeitura de Tailândia - PA
Prova:
CETAP - 2019 - Prefeitura de Tailândia - PA - Nível Médio Completo |
Q4414658
Não definido
Texto associado
Genialidade Brasileira.
Confusão. Sempre confusão. Espírito crítico de antologia universal. Lado a lado todas as épocas, todas as escolas,
todos os matizes. Tudo embrulhado. Tudo errado. E tudo bom.
Tudo ótimo. Tudo genial.
Olhem a mania nacional de classificar palavreado de
literatura. Tem adjetivos sonoros? É literatura. Os períodos rolam
bonito? Literatura. O final é pomposo? Literatura, nem se discute. Tem asneiras? Tem. Muitas? Santo Deus. Mas são grandiloquentes? Se são. Pois então é literatura e da melhor. Quer dizer alguma cousa? Nada. Rima, porém? Rima. Logo é literatura.
O Brasil é o único país de existência geograficamente
provada em que não ser literato é inferioridade. Toda gente se
sente no dever indeclinável de fazer literatura. Ao menos uma
vez ao ano e para gosto doméstico. E toda gente pensa que fazer
literatura é falar ou escrever bonito. Bonito entre nós às vezes
quer dizer difícil. Às vezes tolo. Quase sempre eloquente.
O cavalheiro que encerra a sua oração com um Na antiga Roma ou como disse Barroso Na célebre batalha é orador. Orador, só? Não. Orador de gênio. O cavalheiro que termina o
seu soneto com um Ó sol! É raio! Ó luz! Ó nume! Ó astro! É poeta.
Também genial. E assim por diante.
Só a gente se agarrando com Nossa Senhora da Aparecida.
Essa falsa noção da genialidade brasileira é a mesma do
Brasil, primeiro país no mundo. Não há cidadão perdido em São
Luiz do Paraitinga ou São João do Rio do Peixe que não esteja
convencido disso. E porque o Brasil é o campeão do universo eo
brasileiro o batuta da terra, tudo quanto aqui nasce e existe há de
ser forçosamente o que há de melhor neste mundo de Cristo e de
nós também. Todos os adjetivos arrebatados e apoteóticos são
poucos para tamanha grandeza e tamanha lindeza. Ninguém
pode conosco. Nós somos os cueras mesmo.
Qualquer coisinha assume aos nossos olhos de mestiços tropicais proporções magnificentes, assustadoras, insuperáveis, nunca vistas. O Brasil é o mundo. O resto é bobagem. Castro Alves bate Vítor Hugo na curva. O problema da circulação em
São Paulo absorve todas as atenções estudiosas. Sem nós a
Sociedade das Nações dá em droga. Vocês vão ver. Wagner é
canja para Carlos Gomes. Em Berlim como em Sydney, em
Leningrado como em Nagasaki só temos admiradores invejosos.
O universo inteiro nos contempla. Éta nós!
É por isso que seria excelente de vez em quando uma
cartinha como aquela de Remy de Gourmont a Figueiredo
Pimentel. Um pouco de água gelada nesta fervura auriverde.
Para que o trouxa brasileiro caia na realidade. E deixe-se dessa
história de gênio, grandeza, importância e riquezas incomparáveis que é bobagem.
E não é verdade.
(MACHADO, Alcântara. As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de
janeiro: Objetiva, 2007.)
*"Escrevendo para a França o senhor escreve para um povo
mais ou menos cético que não costuma entusiasmar-se senão
raramente. Deverá então ser moderado nos elogios, mesmo
com relação aos melhores escritores brasileiros." (Remy de
Gourmont)
Não está correta a pluralização do vocábulo em: