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Q3614770 Português
      Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que já se passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas de fazer balancê, de se remexerem dos lugares. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos; uns com os outros acho que nem se misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo coisas de rasa importância. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras de recente data. Toda saudade é uma espécie de velhice. Talvez, então, a melhor coisa seria contar a infância não como um filme em que a vida acontece no tempo, uma coisa depois da outra, na ordem certa, sendo essa conexão que lhe dá sentido, princípio, meio e fim, mas como um álbum de retratos, cada um completo em si mesmo, cada um contendo o sentido inteiro. Talvez seja esse o jeito de escrever sobre a alma em cuja memória se encontram as coisas eternas, que permanecem...


(Guimarães Rosa apud Rubem Alves. Na morada das palavras. Campinas: Papirus, 2023. p. 139. Adaptado.)
No texto apresentado, é possível reconhecer a ocorrência do vocábulo “talvez” duas vezes, que indica:
Alternativas

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Tema central da questão: Interpretação de texto (Semântica e uso do advérbio “talvez”).

No exercício apresentado, o ponto central está na compreensão do papel semântico do advérbio “talvez”, que aparece por duas vezes no texto. Na norma-padrão da Língua Portuguesa, de acordo com gramáticos como Evanildo Bechara e Celso Cunha & Lindley Cintra, “talvez” é advérbio de dúvida, responsável por expressar possibilidade, hipótese ou ponto de vista, e não certeza ou dúvida em relação a um fato concreto.

Justificativa para a alternativa correta (D):
A alternativa D afirma: “Uma possibilidade de entendimento, ponto de vista, sobre o assunto apresentado”. Isso corresponde exatamente ao efeito provocado pelo advérbio “talvez” no texto. O narrador, ao utilizá-lo, apresenta uma sugestão, uma hipótese interpretativa sobre a melhor forma de narrar a infância – não uma afirmação categórica. Os exemplos: “Talvez, então, a melhor coisa seria contar a infância...” e “Talvez seja esse o jeito de escrever sobre a alma...”, mostram claramente que se trata de uma possibilidade, um modo de considerar o tema.

Por que as demais alternativas estão erradas?

A) “Certo constrangimento diante do interlocutor”: O advérbio “talvez” não revela constrangimento, mas sim possibilidade ou incerteza argumentativa.
B) “Estratégia argumentativa para atrair a atenção do interlocutor”: Embora a linguagem do texto possa envolver o leitor, o emprego do advérbio aqui não é uma estratégia persuasiva direta, mas marca apenas uma hipótese ou ponto de vista.
C) “Dúvida do enunciador quanto às experiências vividas na infância”: O advérbio não remete à dúvida sobre fatos experienciados, mas à melhor forma de narrar tais experiências.

Dica para concursos: Sempre que encontrar advérbios como “talvez”, lembre-se: eles expõem possibilidade, não certeza. Atenção a pegadinhas que confundem dúvida com hipótese ou que atribuem intenções emocionais ao emprego do termo, quando, na verdade, seu papel é construir sentido sem compromisso com a verdade dos fatos.

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O "talvez" está sendo usado como um modalizador, indicando possibilidade. Uma hipótese reflexiva

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