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Q418670 Português

        O recente interesse na regulamentação da astrologia como profissão oferece a oportunidade de refletir sobre questões que vão desde as raízes históricas da ciência até a percepção, infelizmente muito popular, de seu dogmatismo. Preocupa-me, e imagino que a muitos dos colegas cientistas, a rotulação do cientista como um sujeito inflexível, bitolado, que só sabe pensar dentro dos preceitos da ciência. Ela vem justamente do desconhecimento sobre como funciona a ciência. Talvez esteja aqui a raiz de tanta confusão e desentendimento.

        Longe dos cientistas achar que a ciência é o único modo de conhecer o mundo e as pessoas, ou que a ciência está sempre certa. Muito ao contrário, seria absurdo não dar lugar às artes, aos mitos e às religiões como instrumentos complementares de conhecimento, expressões de como o mundo é visto por pessoas e culturas muito diversas entre si.

        Um mundo sem esse tipo de conhecimento não científico seria um mundo menor e, na minha opinião, insuportável. O que existe é uma distinção entre as várias formas de conhecimento, distinção baseada no método pertinente a cada uma delas. A confusão começa quando uma tenta entrar no território da outra, e os métodos passam a ser usados fora de seus contextos.

        Portanto, é (ou deveria ser) inútil criticar a astrologia por ela não ser ciência, pois ela não é. Ela é uma outra forma de conhecimento. [...]

        Essa caracterização da astrologia como não ciência não é devida ao dogmatismo dos cientistas.É importante lembrar que, para a ciência progredir, dúvida e erro são fundamentais. Teorias não nascem prontas,mas são refinadas como passar do tempo, a partir da comparação constante com dados. Erros são consertados, e, aos poucos, chega-se a um resultado aceito pela comunidade científica.

        A ciência pode ser apresentada como um modelo de democracia: não existe o dono da verdade, ao menos a longo prazo. (Modismos, claro, existem sempre.) Todos podem ter uma opinião, que será sujeita ao escrutínio dos colegas e provada ou não. E isso tudo ocorre independentemente de raça, religião ou ideologia. Portanto, se cientistas vão contra alguma coisa, eles não vão como donos da verdade, mas com o mesmo ceticismo quecaracteriza a sua atitude com relação aos próprios colegas. Por outro lado, eles devem ir dispostos a mudar de opinião, caso as provas sejam irrefutáveis.

         Será necessário definir a astrologia? Afinal, qualquer definição necessariamente limita. Se popularidade é medida de importância, existem muito mais astrólogos do que astrônomos. Isso porque a astrologia lida com questões de relevância imediata na vida de cada um, tendo um papel emocional que a astronomia jamais poderia (ou deveria) suprir.

         A astrologia está conosco há 4.000 anos e não irá embora. E nem acho que deveria. Ela faz parte da história das ideias, foi fundamental no desenvolvimento da astronomia e é testemunha da necessidade coletiva de conhecer melhor a nós mesmos e os que nos cercam. De minha parte, acho que viver com a dúvida pode ser muito mais difícil, mas é muito mais gratificante. Se erramos por não saber, ao menos aprendemos com os nossos erros e, com isso, crescemos como indivíduos. Afinal, nós somos produtos de nossas escolhas, inspiradas ou não pelos astros.

(GLEISER, Marcelo. Folha de São Paulo, 22 set. 2002)


A instrução de reescrita que, uma vez observada, altera o sentido de: “Talvez esteja aqui a raiz de tanta confusão e desentendimento.” (§ 1) encontra-se proposta em:
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Gabarito comentado

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Vamos analisar a questão que envolve a interpretação de um trecho do texto de Marcelo Gleiser. O tema central aqui é a figura de linguagem, especificamente a metáfora.

Enunciado: A questão pede para identificar a instrução de reescrita que altera o sentido da frase “Talvez esteja aqui a raiz de tanta confusão e desentendimento.”

Alternativa Correta: D - Substituir a metáfora “a raiz” pela forma literal “o produto”.

Justificativa: A substituição de "a raiz" por "o produto" altera completamente o sentido original da frase. No contexto original, “a raiz” faz uso de uma metáfora para indicar a origem ou causa da confusão e desentendimento. Ao trocar por “o produto”, o sentido passa a indicar um resultado ou consequência, o que modifica significativamente o sentido pretendido pelo autor.

Análise das Alternativas Incorretas:

  • A - Iniciar a frase com “Encontra-se”, apagando a forma verbal “esteja”. Isto não altera o sentido, visto que mantém a ideia de localização da causa da confusão.
  • B - Substituir o advérbio “Talvez” por “Quem sabe” ou “Porventura”. Esses substitutos são sinônimos que mantêm a ideia de incerteza, portanto, não alteram o sentido.
  • C - Escrever, em vez do advérbio “aqui”, “em tal desconhecimento”. Ainda preserva a ideia de localização ou causa, sem alterar significativamente o sentido original.

Estratégia para Interpretação:

Ao lidar com questões de interpretação de texto, é crucial identificar o uso de figuras de linguagem e compreender seu papel no contexto. A metáfora, por exemplo, oferece um significado implícito que é essencial captar para não alterar o sentido original ao reescrever o texto.

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"o produto" tem sentido de consequência, e não causa (como conotado por "a raiz").

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