No trecho “Para que as expectativas se mantenham vivas e no...
O texto a seguir é referência para a questão.
A sociedade de consumo tem por base a premissa de satisfazer os desejos humanos de uma forma que nenhuma sociedade do passado pôde realizar ou sonhar. A promessa de satisfação, no entanto, só permanecerá sedutora enquanto o desejo continuar irrealizado; o que é mais importante, enquanto __________ uma suspeita de que o desejo não foi plena e totalmente satisfeito. Estabelecer alvos fáceis, garantir a facilidade de acesso a bens adequados aos alvos, assim como a crença na existência de limites objetivos aos desejos “legítimos” e “realistas” – isso seria como a morte anunciada da sociedade de consumo, da indústria de consumo e dos mercados de consumo. A não satisfação dos desejos e a crença firme e eterna de que cada ato visando a __________ deixa muito a desejar e pode ser aperfeiçoado são os volantes da economia que tem por alvo o consumidor.
A sociedade de consumo consegue tornar permanente a insatisfação. Uma forma de causar esse efeito é depreciar e desvalorizar os produtos de consumo logo depois de terem sido alçados ao universo dos desejos do consumidor. Uma outra forma, ainda mais eficaz, no entanto, se esconde da ribalta: o método de satisfazer toda necessidade/desejo/vontade de uma forma que não pode deixar de provocar novas necessidades/desejos/vontades. O que começa como necessidade deve terminar como compulsão ou vício. E é isso que ocorre, já que o impulso de buscar nas lojas, e só nelas, soluções para os problemas e alívio para as dores e a ansiedade é apenas um aspecto do comportamento que não apenas recebe a permissão de se condensar num hábito, mas é avidamente estimulado a fazê-lo. [...]
Para que a busca de realização possa continuar e novas promessas possam __________ atraentes e cativantes, as promessas já feitas precisam ser quebradas, e as esperanças de realizá-las, frustradas. Um mar de hipocrisia se estendendo das crenças populares às realidades da vida dos consumidores é condição sine qua non para que uma sociedade de consumidores funcione apropriadamente. Toda promessa deve ser enganosa, ou pelo menos exagerada, para que a busca continue. Sem a repetida frustração dos desejos, a demanda pelo consumo se esvaziaria rapidamente, e a economia voltada para o consumidor perderia o gás. É o excesso da soma total de promessas que neutraliza a frustração provocada pelo excesso de cada uma delas, impedindo que a acumulação de experiências frustrantes solape a confiança na eficácia final dessa busca.
Por essa razão, o consumismo é uma economia do logro, do excesso e do lixo; logro, excesso e lixo não sinalizam seu mau funcionamento, mas constituem uma garantia de saúde e o único regime sob o qual uma sociedade de consumidores pode assegurar sua sobrevivência. A pilha de expectativas malogradas tem um paralelo nas crescentes montanhas de ofertas descartadas das quais se esperava (pois prometiam) que __________ os desejos dos consumidores. A taxa de mortalidade das expectativas é elevada, e, numa sociedade de consumo funcionando adequadamente, espera-se que cresça continuamente. A expectativa de vida das esperanças é minúscula, e só uma taxa de fecundidade extraordinariamente elevada pode salvá-Ias da diluição e da extinção. Para que as expectativas se mantenham vivas e novas esperanças preencham o vazio deixado por aquelas já desacreditadas e descartadas, o caminho da loja à lata de lixo deve ser curto, e a passagem, rápida.
(BAUMAN, Zygmunt. Vida líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. p. 106-108.
Adaptado.)
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Tema central da questão: identificação da ideia expressa por uma conjunção subordinativa adverbial, especificamente a locução “para que”. O foco é interpretação semântica dos conectivos no contexto textual.
Justificativa da alternativa correta (E — finalidade):
No trecho analisado, a expressão “para que” introduz uma explicação sobre o objetivo de a passagem “da loja à lata de lixo” ser curta e rápida. Ou seja, o propósito dessa ação é que as expectativas se mantenham vivas e novas esperanças preencham o vazio. Por isso, a oração introduzida por “para que” é uma oração subordinada adverbial final — ela expressa a finalidade da ação da oração principal.
Regra normativa (conforme Bechara e Celso Cunha & Lindley Cintra): Locuções conjuntivas como “para que”, sempre que iniciam uma oração, introduzem finalidade (ex: “Cheguei cedo para que ela não se preocupasse”).
Por que as demais alternativas estão incorretas?
- A) consequência: Conjunções consecutivas (ex: “de modo que”, “de sorte que”) indicam resultado, e não objetivo. “Para que” não expressa consequência, mas intenção.
- B) causalidade: Conjunções causais (“porque”, “visto que”) introduzem a causa da ação, não seu propósito.
- C) temporalidade: Conjunções temporais (“quando”, “logo que”) situam a ação no tempo, o que não ocorre com “para que”.
- D) conclusão: Conjunções conclusivas (“portanto”, “por isso”) indicam um fechamento lógico, diferente do objetivo expresso por “para que”.
Dica de prova: Fique atento à relação lógica imposta pelo conectivo: “Para que” indica sempre finalidade. Treine questionando: “Qual é o objetivo da ação?” Se a resposta for o trecho iniciado por “para que”, você já sabe o caminho!
Portanto, a resposta certa é E) finalidade.
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Para que
→ Uma locução subordinativa adverbial final, valor de finalidade.
GABARITO. E
A questão exige conhecimento sobre conectores e quer saber a semântica do termo sublinhado. Vejamos:
“Para que as expectativas se mantenham vivas e novas esperanças preencham o vazio deixado por aquelas já desacreditadas e descartadas, o caminho da loja à lata de lixo deve ser curto, e a passagem, rápida”, a expressão sublinhada introduz a ideia de:
a) Incorreta.
Para ser consequência, era necessário que houvesse uma conjunção consecutiva. Ex: que (precedido dos advérbios de intensidade tal, tão, tanto, tamanho). de forma que, de modo que, etc.
Ex: Comi tanto que quase explodi.
b) Incorreta.
Para ser de causa, deveria ser introduzida pelas conjunções: porque, que, pois, como, porquanto, visto que, visto como, já que, uma vez que, desde que.
Ex: O violão toca porque é músical. [porque é músical: causa; o tambor toca: efeito]
c) Incorreta.
Para ser temporal, deveria iniciar pela conjunção que indica tempo e são estas: logo que, quando, enquanto, até que, antes que, depois que, desde que, desde quando, assim que, sempre que...
Ex: Vou embora quando você chegar.
d) Incorreta.
Para ser conclusão, era necessário que houvesse uma conjunção conclusiva. As conjunções coordenadas conclusivas exprimem ideia de conclusão relativa à declaração feita na oração anterior. São introduzidas pelas conjunções: logo, portanto, por isso, por conseguinte, pois (depois do verbo), então, assim, destarte, dessarte...
Ex: Comi todo arroz, portanto, não tenho mais fome.
e) Correta.
A locução "para que" carrega carga semântica de finalidade e por ser trocada por: a fim de que, com finalidade de, com o intuito ...
Gabarito do monitor: E
A locução conjuntiva subordinativa adverbial final "para que" encerra sempre o mesmo sentido: de finalidade. As demais opções de resposta nem sequer podem ser cogitadas.
Letra E
GABARITO LETRA E.
PARA QUE
INDICA FINALIDADE
para, para que, afim de, afim de que, que... finalidade.
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