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Q3795936 Medicina

Chega ao seu consultório um homem de 58 anos, portador de insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida (FEVE 30%), em seguimento irregular. Ele relata piora progressiva da dispneia aos esforços, ortopneia e edema de membros inferiores. Está em uso de carvedilol, enalapril e espironolactona. Nos últimos dias, refere náuseas e sensação de fraqueza. O exame físico mostra estertores bibasais, turgência jugular e edema +2/4. Os exames laboratoriais revelam: K⁺ = 5,8 mEq/L, Ur = 89 mg/dL, Cr = 2,1 mg/dL (valor prévio 1,3), BNP elevado e eletrólitos sem outras alterações. O ECG mostra ritmo sinusal sem alterações isquêmicas.


Diante do quadro clínico e laboratorial, a melhor adequação terapêutica imediata para otimizar o tratamento da insuficiência cardíaca desse paciente é: 

Alternativas

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: Em HFrEF sintomática, com K+ = 5,8 mEq/L e creatinina em elevação sob enalapril e espironolactona, o bloqueio do sistema renina-angiotensina não pode ser mantido com segurança; nessa hipótese, a alternativa compatível com a base é suspender o IECA e adotar hidralazina + dinitrato de isossorbida, preservando o betabloqueador e permitindo a otimização da terapia com SGLT2i.

Tema central: HFrEF com hipercalemia
Análise das alternativas
A
Errada
Errada porque propõe aumentar o IECA justamente no contexto em que o bloqueio RAAS está inviabilizado pela hipercalemia de 5,8 mEq/L e pela piora renal. Também erra ao suspender temporariamente o betabloqueador sem que o enunciado traga instabilidade hemodinâmica, choque, bradicardia relevante ou outra causa específica.
B
Errada
Errada por três razões convergentes: suspende indevidamente o betabloqueador, mantém IECA e espironolactona apesar da hipercalemia relevante, e ainda troca para sacubitril/valsartana sem resolver o problema central, porque o ARNI continua atuando no eixo renina-angiotensina. A alternativa contraria diretamente a necessidade de interromper o eixo RAAS quando ele não pode ser mantido com segurança.
C
Certa
A alternativa C é a melhor entre as oferecidas porque enfrenta o problema central do caso: o paciente usa enalapril e espironolactona, mas apresenta hipercalemia de 5,8 mEq/L e piora da creatinina, o que torna inadequada a manutenção plena do bloqueio do eixo renina-angiotensina naquele momento. Por isso, faz sentido suspender o IECA e recorrer à combinação hidralazina + dinitrato de isossorbida como alternativa vasodilatadora quando IECA/ARB/ARNI não podem ser utilizados. Além disso, não há no enunciado choque, bradicardia importante ou outra contraindicação específica que justifique suspender o betabloqueador. A base também reconhece o inibidor de SGLT2 como terapia de base da HFrEF. Ressalva-se, porém, que a alternativa não enfrenta expressamente a necessidade de rever a espironolactona diante do K+ de 5,8 mEq/L.
D
Errada
Errada porque manter todas as medicações atuais ignora o dado decisivo do caso: K+ de 5,8 mEq/L associado à piora da função renal sob IECA/MRA. Além disso, acrescentar tiazídico para 'controle do potássio' não enfrenta o fundamento do problema, que é a manutenção inadequada do bloqueio neuro-hormonal nessa condição.
E
Errada
Errada por erro de hierarquia terapêutica na HFrEF. Digitálico não é droga de primeira linha para substituir vasodilatadores nem compõe a estratégia central de otimização descrita na base. Suspender todos os vasodilatadores rompe tratamento modificador de prognóstico sem fundamento no quadro apresentado.
Pegadinha da questão
A banca explorou a confusão entre 'otimizar HFrEF' e simplesmente trocar IECA por sacubitril/valsartana ou suspender betabloqueador por congestão. O ponto real era perceber que a hipercalemia relevante inviabiliza naquele momento o bloqueio do eixo renina-angiotensina, mas não autoriza retirar o betabloqueador de rotina.
Dica para questões semelhantes
  • Se houver HFrEF com K+ acima de 5,5 mEq/L e creatinina em piora sob IECA/ARB/ARNI ou MRA, o primeiro filtro é a segurança do bloqueio RAAS.
  • Não suspenda betabloqueador em HFrEF apenas por congestão ou por alteração laboratorial ligada ao eixo RAAS; procure contraindicação específica no enunciado.
  • Quando IECA/ARB/ARNI não puderem ser usados, hidralazina + nitrato passa a ser a alternativa vasodilatadora relevante.
  • SGLT2i deve ser reconhecido como terapia de base da HFrEF, não como medida acessória.

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Comentários

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1Essa é uma questão excelente que exige conhecimento das Diretrizes Brasileiras de Insuficiência Cardíaca (IC) para manejar um paciente que está descompensando (IC Perfil B - "quente e úmido") e apresenta complicações metabólicas.

​A resposta correta é a C, e aqui está a explicação baseada na lógica clínica e nas diretrizes:

​1. O Cenário Clínico (Diagnóstico de Congestão e Insulto Renal)

​O paciente apresenta sinais clássicos de Insuficiência Cardíaca Descompensada:

​Sintomas: Ortopneia, dispneia progressiva e edema.

​Exame Físico: Estertores pulmonares, turgência jugular e edema de MMII.

​Laboratório Crítico: * Hipercalemia: K^+ = 5,8 mEq/L (o limite para suspender IECA/BRA/Espironolactona geralmente é > 5,5).

​Piora da Função Renal: Creatinina subiu de 1,3 para 2,1 mg/dL (um aumento de > 50\% em relação à base).

​2. Por que suspender o IECA (Enalapril)?

​Segundo a Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda:

​Disfunção Renal Aguda: Quando há um aumento significativo da creatinina (geralmente > 50\% ou acima de 2,5 - 3,0 mg/dL) e hipercalemia persistente, deve-se suspender temporariamente os inibidores do sistema renina-angiotensina-aldosterona (IECA, BRA ou ARNI).

​O Enalapril, neste momento, pode estar contribuindo para a queda da taxa de filtração glomerular por reduzir a pressão na arteríola eferente e por reter potássio.

​3. Por que introduzir Hidralazina + Dinitrato de Isossorbida?

​Esta é uma estratégia de vasodilatação alternativa. Quando o paciente não tolera IECA/BRA/ARNI (seja por insuficiência renal severa ou hipercalemia), a combinação de Hidralazina e Nitrato é a escolha para:

​Reduzir a pós-carga (Hidralazina).

​Reduzir a pré-carga (Nitrato), ajudando no controle da dispneia e ortopneia.

​Manter o tratamento vasodilatador sem afetar os níveis de potássio ou agredir tanto a hemodinâmica renal.

​4. Por que manter o Betabloqueador?

​A diretriz é clara: Não se retira o betabloqueador (Carvedilol) em pacientes com IC descompensada, a menos que ele esteja em choque cardiogênico ou bradicardia sintomática. Retirar o BB aumenta a mortalidade a curto prazo. Como o paciente está "apenas" congesto (Perfil B), o BB deve ser mantido, preferencialmente na dose atual.

​5. Por que iniciar o iSGLT2 (Inibidor de SGLT2)?

​Os inibidores da SGLT2 (como Dapagliflozina ou Empagliflozina) tornaram-se um dos pilares do tratamento da IC com Fração de Ejeção Reduzida (ICFEr). Eles:

​Têm efeito diurético osmótico suave (ajudam na congestão).

​Reduzem o risco de hipercalemia (ajudam a equilibrar o potássio)..

​Têm efeito nefroprotetor a longo prazo, mesmo que haja uma pequena queda inicial na filtração glomerular.

Dica para a prova: Sempre que vir um paciente de IC com K^+ > 5,5 ou Creatinina subindo muito, a primeira medida é "limpar" os poupadores de potássio e bloqueadores do eixo renina-angiotensina.

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