De acordo com o texto, a autora: 

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Q3509359 Português
O texto a seguir é referência para a questão.

Literatura para ver

Georgina Martins

    “Mas eles não são cegos, como é que não conseguem ler Machado de Assis?” Em 2008, esta foi a minha resposta ao pedido de ajuda de uma aluna do curso de especialização em literatura infantil e juvenil da Faculdade de Letras da UFRJ. Ela era professora do Ensino Médio da rede pública e precisava de sugestões metodológicas para ensinar literatura aos seus alunos surdos. Minha resposta, na verdade, minha pergunta, foi resultado do meu primeiro espanto diante de uma questão a qual sequer poderia supor que se tornaria minha principal indagação e meu maior desafio na prática docente.
    A professora desejava que seus alunos surdos lessem Machado de Assis, o que, para minha ignorância, não se constituía em um problema diferente daqueles que a grande maioria dos professores de literatura enfrenta. Por isso me pus a sugerir os mais batidos conselhos: ler com eles, explicar a sintaxe de Machado, mostrar que a estrutura frasal é mais complexa do que a dos textos com os quais estão acostumados, fazer um passeio pelo contexto histórico e cultural do Brasil do século XIX, e, principalmente, fazê-los acreditar que a professora deles é uma leitora, e todo aquele papo de educação pelo exemplo.
    A professora me repetiu que os alunos eram surdos e que, por isso, tinham muitas dificuldades com a leitura, logo, ensinar literatura para eles não era uma tarefa fácil. Confesso que não entendi quase nada do problema, porque minha ignorância no assunto me fazia pensar que a surdez não se configurava em impedimento para o aprendizado da língua portuguesa.
    Movida pela curiosidade em adentrar em um universo de novas possibilidades e pelo desejo de ajudar a tal aluna, procurei auxílio com a professora Deize Santos, que, à época, atuava no departamento de linguística da Faculdade de Letras. Coincidentemente, ela estava às voltas com a aprovação de dois importantes cursos nessa área – uma graduação em Letras-Libras e uma pós-graduação em tradução e interpretação em língua de sinais – e não mediu esforços em partilhar todo conhecimento que havia acumulado sobre o tema. Três anos depois, por ocasião da aprovação do curso de “pós”, convidou-me para ministrar a disciplina de literatura infantil e juvenil para a turma de surdos e ouvintes que começava na Faculdade de Letras. A experiência não só me fez rever toda prática de ensino, como ainda proporcionou minha plena realização profissional, confirmando a crença de que ensinar literatura é preciso e aprender literatura é um direito de todo ser humano.
    Tenho por hábito começar minhas aulas buscando esclarecer a origem e a natureza do objeto sobre o qual vamos nos debruçar durante o período letivo, daí a necessidade de começar investigando, juntamente com a turma, os diferentes modos de conceituar literatura e seus principais gêneros discursivos, como poesia e prosa, para, logo em seguida, entrar na discussão sobre o literário e o literal, tendo como suporte as noções linguísticas de denotação e conotação. Mas como fazer isso com alunos surdos que não têm a língua portuguesa como primeira língua?
    Descobri que os surdos acabam por ser estrangeiros na própria pátria. Era preciso pensar o ensino de literatura de outro modo, uma literatura para ver, e só depois para ler […]


Disponível em: https://cienciahoje.org.br/artigo/literatura-para-ver/. Adaptado. 
De acordo com o texto, a autora: 
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Tema cobrado: Interpretação de texto é a habilidade de extrair a ideia central, analisar informações explícitas e implícitas, e compreender as intenções do autor. Essa competência é fundamental para concursos, conforme orientam obras clássicas como Interpretação de Textos, de Pasquale Cipro Neto e Ulisses Infante.

Justificativa da alternativa correta (C):

A alternativa C está correta porque a autora narra uma experiência pessoal ao ser desafiada a ensinar literatura para alunos surdos, descrevendo como isso mudou sua compreensão e prática docente. Expressões como “minha principal indagação e meu maior desafio” e “me fez rever toda prática de ensino” indicam nitidamente essa transformação profissional.

Estratégias de resolução:
Ao resolver questões de interpretação:

  • Leia o texto buscando expressões-chave sobre o propósito do autor.
  • Cuidado com alternativas generalizantes, ou que abordam temas não tratados no texto.
  • Confirme se a alternativa reflete o conteúdo global do texto, e não apenas um exemplo ou citação isolada.

Análise das alternativas incorretas:

A) Incorreta: Não há crítica à forma de ensinar dos colegas; a autora relata seu próprio processo de aprendizagem.
B) Incorreta: O texto menciona Machado de Assis apenas como contexto do desafio, não como convite à leitura.
D) Incorreta: A referência correta é à surdez, não à deficiência visual.
E) Incorreta: O texto não defende explicitamente o uso de intérprete de Libras, mas destaca a necessidade de adaptar métodos de ensino.

Nota de gramática de referência: A Nova Gramática do Português Contemporâneo (Cunha & Cintra) reforça que a coerência textual é essencial para identificar o núcleo da mensagem, habilidade aqui solicitada.

Resumo: Para garantir acerto em interpretação de textos, busque sempre a essência do que foi narrado e desconfie de alternativas que distorcem o foco central do autor.

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