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Q418667 Português

        O recente interesse na regulamentação da astrologia como profissão oferece a oportunidade de refletir sobre questões que vão desde as raízes históricas da ciência até a percepção, infelizmente muito popular, de seu dogmatismo. Preocupa-me, e imagino que a muitos dos colegas cientistas, a rotulação do cientista como um sujeito inflexível, bitolado, que só sabe pensar dentro dos preceitos da ciência. Ela vem justamente do desconhecimento sobre como funciona a ciência. Talvez esteja aqui a raiz de tanta confusão e desentendimento.

        Longe dos cientistas achar que a ciência é o único modo de conhecer o mundo e as pessoas, ou que a ciência está sempre certa. Muito ao contrário, seria absurdo não dar lugar às artes, aos mitos e às religiões como instrumentos complementares de conhecimento, expressões de como o mundo é visto por pessoas e culturas muito diversas entre si.

        Um mundo sem esse tipo de conhecimento não científico seria um mundo menor e, na minha opinião, insuportável. O que existe é uma distinção entre as várias formas de conhecimento, distinção baseada no método pertinente a cada uma delas. A confusão começa quando uma tenta entrar no território da outra, e os métodos passam a ser usados fora de seus contextos.

        Portanto, é (ou deveria ser) inútil criticar a astrologia por ela não ser ciência, pois ela não é. Ela é uma outra forma de conhecimento. [...]

        Essa caracterização da astrologia como não ciência não é devida ao dogmatismo dos cientistas.É importante lembrar que, para a ciência progredir, dúvida e erro são fundamentais. Teorias não nascem prontas,mas são refinadas como passar do tempo, a partir da comparação constante com dados. Erros são consertados, e, aos poucos, chega-se a um resultado aceito pela comunidade científica.

        A ciência pode ser apresentada como um modelo de democracia: não existe o dono da verdade, ao menos a longo prazo. (Modismos, claro, existem sempre.) Todos podem ter uma opinião, que será sujeita ao escrutínio dos colegas e provada ou não. E isso tudo ocorre independentemente de raça, religião ou ideologia. Portanto, se cientistas vão contra alguma coisa, eles não vão como donos da verdade, mas com o mesmo ceticismo quecaracteriza a sua atitude com relação aos próprios colegas. Por outro lado, eles devem ir dispostos a mudar de opinião, caso as provas sejam irrefutáveis.

         Será necessário definir a astrologia? Afinal, qualquer definição necessariamente limita. Se popularidade é medida de importância, existem muito mais astrólogos do que astrônomos. Isso porque a astrologia lida com questões de relevância imediata na vida de cada um, tendo um papel emocional que a astronomia jamais poderia (ou deveria) suprir.

         A astrologia está conosco há 4.000 anos e não irá embora. E nem acho que deveria. Ela faz parte da história das ideias, foi fundamental no desenvolvimento da astronomia e é testemunha da necessidade coletiva de conhecer melhor a nós mesmos e os que nos cercam. De minha parte, acho que viver com a dúvida pode ser muito mais difícil, mas é muito mais gratificante. Se erramos por não saber, ao menos aprendemos com os nossos erros e, com isso, crescemos como indivíduos. Afinal, nós somos produtos de nossas escolhas, inspiradas ou não pelos astros.

(GLEISER, Marcelo. Folha de São Paulo, 22 set. 2002)


Considerado o ponto de vista expresso no início do parágrafo, o enunciado:

“Ela faz parte da história das ideias, foi fundamental no desenvolvimento da astronomia e é testemunha da necessidade coletiva de conhecer melhor a nós mesmos e os que nos cercam.” (§ 8) poderia, sem prejuízo da coerência argumentativa, ser introduzido por:
Alternativas

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Vamos analisar a questão apresentada, que envolve interpretação textual, mais especificamente, coesão e coerência. O objetivo é identificar o conector que introduz adequadamente o enunciado “Ela faz parte da história das ideias, foi fundamental no desenvolvimento da astronomia e é testemunha da necessidade coletiva de conhecer melhor a nós mesmos e os que nos cercam.” sem prejudicar a coerência do texto.

Alternativa C - Afinal: Esta é a alternativa correta. O conector "afinal" é utilizado para explicar ou justificar uma ideia previamente mencionada, reforçando a conclusão sobre a importância da astrologia ao longo do tempo. No texto, ele introduz uma justificativa para a permanência e relevância da astrologia na história das ideias, alinhando-se com o ponto de vista inicial do parágrafo.

Por que as outras alternativas estão incorretas:

  • A - Aliás: Este conector é usado para introduzir uma informação adicional ou para corrigir algo dito anteriormente. No contexto do texto, não se está acrescentando uma informação nova, mas sim justificando uma afirmação anterior, o que torna essa opção inadequada.
  • B - Além disso: "Além disso" serve para adicionar informações, indicando continuação de ideias. No entanto, o trecho a ser inserido não está adicionando uma nova ideia, mas sim reforçando uma justificativa, o que faz com que essa alternativa também não seja a mais apropriada.
  • D - Portanto: Este conector indica uma conclusão, uma consequência lógica. No trecho, não se está chegando a uma conclusão baseada nas ideias anteriores, mas sim justificando o papel histórico da astrologia, o que faz com que o uso de "portanto" não se ajuste corretamente à intenção do texto.

Para resolver questões de interpretação como esta, é essencial prestar atenção aos conectores e ao que eles indicam: adição, justificativa, conclusão ou contraste. Além disso, compreender o contexto geral do parágrafo ajuda a discernir qual conector se encaixa melhor na intenção do autor.

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Comentários

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Tive muita dificuldade para resolver. Mas, acertei. ''Aliás'' e ''além disso'' dão ideia de adição, mas perceba que anteriormente o autor propõe que há uma preocupação dele e dos colegas sobre a ciência. A frase seguinte é a conclusão disso: ''Ela vem justamente (...)''. Logo, ''afinal'' dá a ideia de conclusão.

Pensei no ''portanto'', mas se observamos bem ''afinal'' enfatiza mais a mensagem dando mais coerência.

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