Fabiano estava de bom humor. Dias antes a enchente
havia coberto as marcas postas no fim da terra de aluvião,
alcançava as catingueiras, que deviam estar submersas.
Certamente só apareciam as folhas, a espuma subia, lambendo ribanceiras que se desmoronavam.
Dentro em pouco o despotismo de água ia acabar, mas
Fabiano não pensava no futuro. Por enquanto a inundação
crescia, matava bichos, ocupava grotas e várzeas. Tudo muito
bem. E Fabiano esfregava as mãos. Não havia o perigo da seca
imediata, que aterrorizara a família durante meses. A catinga
amarelecera, avermelhara-se, o gado principiara a emagrecer e horríveis visões de pesadelo tinham agitado o sono das
pessoas. De repente um traço ligeiro rasgara o céu para os lados da cabeceira do rio, outros surgiram mais claros, o trovão
roncara perto, na escuridão da meia-noite rolaram nuvens cor
de sangue. A ventania arrancara sucupiras e imburanas, houvera relâmpagos em demasia – e Sinha Vitória se escondera
na camarinha com os filhos, tapando as orelhas, enrolando-se
nas cobertas. Mas aquela brutalidade findara de chofre, a chuva
caíra, a cabeça da cheia aparecera arrastando troncos e animais mortos. A água tinha subido, alcançado a ladeira, estava
com vontade de chegar aos juazeiros do fim do pátio. Sinha
Vitória andava amedrontada. Seria possível que a água topasse os juazeiros? Se isto acontecesse, a casa seria invadida, os
moradores teriam de subir o morro, viver uns dias no morro,
como preás.
Suspirava atiçando o fogo com o cabo da quenga de
coco. Deus não permitiria que sucedesse tal desgraça.
(Graciliano Ramos, Vidas Secas, 1998)
O trecho da narrativa mostra um cenário
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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