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Recuperação da educação brasileira, possíveis caminhos

Durante o último ano tenho conversado com formuladores de políticas, diretores escolares, professores e estudantes sobre as suas experiências durante a pandemia de Covid-19. Do Chile à Coreia do Sul, surgem questões comuns: são muitas as situações de aceleração da digitalização; por outro lado, as perdas de aprendizagem e as desigualdades aumentaram. 

O Brasil não é exceção, mas existem particularidades que merecem atenção. Nas últimas décadas, a educação tem sido parte vital do progresso do País. Porém mesmo antes da pandemia o crescimento econômico e o progresso social tinham estagnado, até mesmo retrocedido. A pandemia levou a mais de um ano de fechamento de escolas. Está diminuindo a capacidade das famílias, especialmente as mais desfavorecidas, de apoiar a educação dos seus filhos, e desafiando a capacidade do governo de financiar a educação. O risco não é apenas o fim do progresso, mas também de conquistas feitas serem perdidas.

Este é um momento crítico para a educação no Brasil. É um momento que exige que os brasileiros olhem para o futuro, para a educação e o futuro que desejam para suas crianças; para dentro, aprendendo com experiências passadas e presentes e, para fora, procurando inspiração de pares internacionais.

Olhar para o futuro requer uma visão estratégica de longo prazo para o Brasil. Significa enfrentar os desafios profundamente enraizados da qualidade e equidade. No Pisa 2018, metade dos brasileiros de 15 anos não atingiram a proficiência básica em leitura. As desvantagens socioeconômicas e o status da escola ainda têm impacto maior no sucesso escolar dos estudantes do que na maioria dos países da OCDE.

Olhar para dentro também oferece caminhos para o futuro. A aprovação do novo Fundeb é uma vitória para o Brasil e prova de compromisso contínuo com a educação e a equidade. No entanto, as escolas desfavorecidas ou rurais ainda são mais propensas a enfrentar a escassez de recursos do que outras no Brasil mesmo e do que seus pares da OCDE.

Melhorar a distribuição de recursos para chegar aos que mais necessitam e onde os maiores ganhos podem ser obtidos exigirá que os Estados e municípios repensem os seus mecanismos de alocação. O Ceará fornece um exemplo poderoso, alinhando indicadores de desempenho e transferências intergovernamentais com medidas para elevar a alfabetização. O sistema descentralizado brasileiro oferece tais oportunidades de inovação local; é importante identificar boas práticas, replicando-as em todo o sistema.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é crucial na promoção da equidade e qualidade, definindo as competências que todos os estudantes devem adquirir. O fechamento de escolas complicou sua implantação, mas a Covid-19 é também uma oportunidade para reacender o ímpeto da reforma: a BNCC será fundamental para a recuperação da aprendizagem. Da mesma forma, o novo ensino médio, prometendo maior flexibilidade curricular e relevância no mercado de trabalho, poderá reengajar os alunos após meses fora da escola. Mas para que essas oportunidades sejam concretizadas será necessária uma liderança eficaz, forte cooperação e monitoramento constante.

Olhar para fora pode servir de inspiração. Sistemas escolares bem-sucedidos mostram que a qualidade deles depende da qualidade de seus professores. O Brasil tem trabalho a fazer nessa área, selecionando e formando cuidadosamente os docentes e estruturando sua remuneração e sua trajetória profissional para refletir os padrões profissionais esperados. As novas Diretrizes Nacionais para a Formação de Professores são um passo positivo, mas esforços complementares ainda serão necessários.

Durante a última década, muitos países da OCDE deram prioridade à educação da primeira infância, vista como uma forma de igualar as condições de educação e da vida. No Brasil, apesar da elevada participação entre as crianças mais velhas, em 2018 apenas cerca de dois terços das crianças de 3 anos estavam matriculadas nesse nível, com uma lacuna preocupante entre os mais ricos e os mais pobres. A qualidade também precisa de atenção: o impacto da participação nesse nível nos futuros resultados de aprendizagem não é tão positivo no Brasil como é na média da OCDE.

Há muito a fazer. Três novos relatórios da OCDE – Educação no Brasil: uma Perspectiva Internacional; Education Policy Outlook: Brasil, com foco em políticas nacionais e subnacionais; e Education Policy Outlook: Brasil, com foco em políticas internacionais –, publicados com apoio do Todos Pela Educação e do Itaú Social, podem oferecer perspectivas para apoiar o Brasil nesse esforço.

Em 2021, a resposta e a recuperação da covid-19 continuarão a dominar a agenda. Mas para que a educação possa apoiar o desenvolvimento do País o progresso alcançado não só tem de ser sustentado, como também acelerado. O Brasil precisa equilibrar o urgente e o importante, considerando prioridades imediatas e reformas estruturais como parte de uma estratégia de recuperação coerente.

(SCHLEICHER, Andreas. Recuperação da educação brasileira: possíveis caminhos. O Estado de S. Paulo, São Paulo, ano 142, n. 46642, 30 jun. 2021. Espaço Aberto, p. A2.) 
A substituição do elemento destacado pelo sugerido entre parênteses implica desvio de concordância em:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O verbo finito concorda em número e pessoa com o núcleo do sujeito. No trecho “Da mesma forma, o novo ensino médio, prometendo maior flexibilidade curricular e relevância no mercado de trabalho, poderá reengajar os alunos após meses fora da escola.”, a substituição do sujeito pela expressão plural indicada em D torna necessária a alteração da forma verbal; mantê-la como no original produz o desvio pedido.

Tema central: Concordância verbal após substituições
Análise das alternativas
A
Errada
Não há desvio: “debates bastante semelhantes” mantém o sujeito no plural, compatível com “surgem”, mesmo estando depois do verbo. A concordância interna também está adequada: “semelhantes” concorda com “debates”, enquanto “bastante” permanece invariável porque intensifica o adjetivo.
B
Errada
A substituição altera o objeto direto de “oferece”, não seu sujeito. Tanto “caminhos para o futuro” quanto “direcionamento para o que está por vir” completam o verbo; a concordância continua sendo determinada pelo sujeito oracional “Olhar para dentro”. Assim, “oferece” permanece correto.
C
Errada
A expressão partitiva “a maior parte dos países membros da OCDE” admite concordância no singular, com “parte”, ou no plural, com “países”. Portanto, manter “deram” é permitido; a concordância no singular não é obrigatória.
D
Certa
Em D, o núcleo do novo sujeito é “mudanças”, e não “ensino médio”, que integra a caracterização dessas mudanças. Por isso, a flexão plural deve recair sobre o verbo finito da locução: “poderão reengajar”. O infinitivo “reengajar” permanece inalterado.
Pegadinha da questão
A banca pede a substituição que produz erro. Em D, “ensino médio”, no singular, pode desviar a atenção do verdadeiro núcleo do novo sujeito, “mudanças”. Já em C, o singular de “parte” não torna obrigatório o verbo no singular.
Dica para questões semelhantes
  • Identifique se o termo substituído é sujeito ou objeto: mudar o número do objeto direto não exige mudar a concordância verbal.
  • Localize o núcleo do sujeito, mesmo quando ele aparece depois do verbo ou separado dele por uma intercalação.
  • Em locuções como “poderá reengajar”, ajuste o verbo finito ao sujeito; o infinitivo permanece inalterado.
  • Com expressão partitiva seguida de especificador plural, verifique as duas concordâncias admitidas antes de apontar erro.

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