No outro dia eu estava traindo o meu médico com
um apfelstrudel quando comecei a pensar
seriamente na maçã. Na importância da maçã na
história do mundo e nos seus significados para a
humanidade, nunca muito bem explicados. Dois-pontos. A Bíblia não especifica qual era o fruto
proibido que Adão e Eva comeram naquele dia
fatídico em que, desobedecendo a Deus,
perdemos o Paraíso e em troca ganhamos a
mortalidade, o sexo e a indústria do vestuário.
Pensando bem, a única fruta que era certo que
havia no Paraíso era o figo, pois foi com folhas
de figueira que cobriram a nossa protonudez. Só
muito mais tarde convencionou-se que, para
provocar tanto estrago de uma vez só, a fruta
proibida do Paraíso tinha que ser uma maçã.
Como a maçã não tem propriedades afrodisíacas
nem, que se saiba, estimula a inteligência ou o
desrespeito à autoridade, conclui-se que sua
reputação se deve à sua aparência, ao seu rubor
lustroso e à rigidez das suas formas, que de
algum modo simbolizam rebeldia e luxúria. A
maçã é um triunfo da sugestão sobre a verdade.
Existem frutas muito mais lúbricas, como o
próprio figo e a escandalosa romã, enquanto a
maçã é recomendada para crianças e
convalescentes (no erótico “Cãntico dos
cãnticos” ela só entra como terapia: “Confortai-me com maçãs, pois desfaleço de amor”), e
mesmo assim a sua fama de provocadora
persiste. Também não se sabe ao certo que fruta
caiu na cabeça de Newton para que ele
descobrisse a gravidade, mas na história ficou
que era uma maçã. A maçã parece que está
sempre querendo nos dizer alguma coisa. E, no
meu caso pessoal, continua induzindo à
desobediência e ao pecado. A fruta não me
seduz, mas não resisto a nenhum doce feito com
maçã, que é a maçã com ainda mais culpa. Não
tem sido fácil conciliar a necessidade da dieta e
do combate ao colesterol com a minha busca do
apfelstrudel perfeito. Mas todos temos uma
missão a cumprir neste mundo.
VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio
século de crônicas, ou coisa parecida. São
Paulo: Objetiva, 2020.
A ênclise em “Confortai-me com maçãs, pois
desfaleço de amor” se justifica, pois, de acordo
com a norma-padrão da língua portuguesa:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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