Três paixões simples, mas irresistivelmente fortes, governaram minha vida: o desejo imenso de amor,
a procura do conhecimento e a insuportável compaixão
pelo sofrimento da humanidade. Essas paixões, como os
fortes ventos, levaram-me de um lado para outro, em caminhos caprichosos, para além de um profundo oceano
de angústias, chegando à beira do verdadeiro desespero.
Primeiro, busquei o amor, que traz um êxtase tão
grande que sacrificaria o resto de minha vida por umas
poucas horas dessa alegria. Procurei-o, também, porque
abranda a solidão - aquela terrível solidão em que uma
consciência horrorizada observa, da margem do mundo,
o insondável e frio abismo sem vida. [...].
Com igual paixão, busquei o conhecimento. Desejei compreender o coração dos homens. Desejei saber por
que as estrelas brilham. [...]
Amor e conhecimento, até onde foram possíveis,
conduziram-me aos caminhos do paraíso. Mas a compaixão sempre me trouxe de volta à Terra. Ecos de gritos
de dor reverberam em meu coração. Crianças famintas,
vítimas torturadas por opressores, velhos desprotegidos
[...] Anseio ardentemente aliviar o mal, mas não posso, e
também sofro.
Isso foi minha vida. Achei-a digna de ser vivida e
vivê-la-ia de novo com a maior alegria se a oportunidade
me fosse oferecida.
(RUSSEL, Bertrand. Revista Mensal de Cultura.
Enciclopédia Bloch, nº. 58, set.1971. p.83.)
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