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Q3081597 Português

Língua é progressista, reacionária ou nada disso, muito pelo contrário?



    Dia desses, soube que, na nossa praça pública virtual, se travava um interessante debate sobre a língua portuguesa, que, em suma, se resumia a distinguir entre a postura progressista e a postura reacionária (ou “fascista”) em relação ao idioma. A defesa do aprendizado da norma culta coube aos “reacionários”, enquanto o ataque à valorização desse registro formal reunia os “progressistas”. Posta dessa forma, a discussão cai na polaridade ideológica e o público tende a se alinhar segundo o posicionamento de seu grupo (ou de sua bolha), o que, em geral, abrevia o debate, logo dando lugar a outra polêmica qualquer.

    Segundo a tese progressista, o que chamamos de norma culta é o registro linguístico das classes dominantes, que, exatamente por sê-lo, seria “elitista” ou excludente. Hoje, soma-se a essa ideia a de que nem mesmo uma boa parte dessa classe dominante brasileira domina à perfeição essa norma, o que faria dela, em grande medida, uma norma obsoleta, um padrão antiquado ou mesmo “subserviente ao modelo colonizador eurocêntrico”.

    Se está na ordem do dia contar a história do ponto de vista dos historicamente excluídos e estimular ações concretas (queima de estátuas, destruição de símbolos etc.) para “recontar” o passado, analogamente parece estar em curso uma tentativa de derrubar a norma culta do pilar em que ainda se encontra e promover a “diversidade linguística”. Nesse caso, cada um se expressaria como achasse melhor em qualquer circunstância, tese que parece bem razoável quando vista apenas do ponto de vista de certo ativismo político.

    A tese progressista é sempre mais sedutora (e mais o seria se não fosse abraçada tão facilmente pelo sistema). Por que dizer “nós vamos” se a desinência “-mos” carrega a mesma informação contida no pronome “nós”? A formulação “nós vai”, por exemplo, é mais econômica, pois suprime a redundância, que é parte do sistema de concordância. Mais que isso, dizer “nós vai” pode ser algo libertário ou mesmo revolucionário. Pode, mas só enquanto representar um contraponto a uma norma estabelecida. Destruída a norma, “nós vai” se institucionaliza e passa a ser a nova norma. Ou, como aparentemente se deseja, as normas conviveriam todas em harmonia, com o mesmo peso. Será?

    Para começar a mudança, talvez os textos pudessem ter um salutar percentual de desvios da norma, outro percentual de estrangeirismos (os que porventura não o tivessem espontaneamente), um percentual de gírias locais, enfim, os textos poderiam ser mais “diversos”, refletindo a língua efetivamente falada pela sociedade. Bem, chega de imaginação.

    Quem tem de enfrentar as consequências desses debates são, em geral, os professores nas salas de aula. A eles cabe a parte prática de incorporar essas teses libertárias ao cotidiano da sala de aula ou bater na tecla da importância de dominar a norma dos espaços de poder e, ao mesmo tempo, estimular os jovens a ler os autores da nossa literatura, aqueles que, com sua inteligência e imaginação, cultivaram a língua portuguesa em todos os seus recursos.

    Como se sabe, nem todos os estudantes se transformarão em leitores de literatura, principalmente nestes tempos de muita pressa para chegar a lugar algum. Aqueles que se aventurarem nesse mergulho, em que o tempo é suspenso e somos levados para outros mundos, esses, por certo, saberão dar valor à língua que, sim, nós herdamos do colonizador – do qual, a propósito, muitos de “nós” descendem – e cultivamos à nossa maneira, língua que é repleta de recursos e cujo conhecimento é mais que uma vestimenta de luxo para frequentar ambientes “elitistas”.

    Literatura requer tempo e um pouco de solidão. A leitura de um livro nos faz adentrar cenários que se constroem com palavras e conhecer pessoas também feitas de palavras, que nos deixam saudade quando o livro se fecha. Escritores transformam palavras e frases (as mesmas que usamos na comunicação) em arte e, assim, somos levados à fruição da linguagem como fruímos música ou pintura.

    É para ler os artistas da palavra que aprendemos os recursos da língua e é porque os lemos e vivenciamos em profundidade a experiência que generosamente compartilham conosco que queremos conhecer mais e mais os meandros dessa língua que nos conduz à sua alma.

    Ninguém deveria ser privado da experiência da leitura de romances, que é a melhor forma de aprender a língua. O debate público bem poderia sair da superfície e estimular o avanço do conhecimento. Aos professores cabe a tarefa de ensinar os alunos a ler literatura – e a língua estará lá em seu esplendor.


(NICOLETI, Thaís. Língua é progressista, reacionária ou nada disso, muito pelo contrário? Jornal Folha de S. Paulo, 2024.)

A forma mais eficiente de aprender a língua portuguesa, na opinião da autora, é estar em contato frequente, sobretudo, com os gêneros textuais próprios do domínio discursivo: 
Alternativas

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Tema central: Interpretação de texto, com foco em gêneros textuais e na função da literatura para o aprendizado da língua portuguesa. Essa questão avalia a capacidade do candidato de compreender ideias explícitas e implícitas no texto, identificando o gênero textual indicado pela autora como essencial para o domínio do idioma.

Justificativa da alternativa correta – B) Ficcional:

No texto, a autora Thaís Nicoleti afirma que “Ninguém deveria ser privado da experiência da leitura de romances, que é a melhor forma de aprender a língua.” e complementa ao destacar a importância de leituras literárias para o contato profundo com o idioma. Esse trecho evidencia que os textos ficcionais (romances, contos) são, para a autora, o gênero mais eficiente para se aprender a língua portuguesa, pois possibilitam imersão no vocabulário, estruturas sintáticas e riqueza expressiva.

Segundo Marcuschi, gêneros textuais são formatos específicos que circulam socialmente, como o romance dentro do domínio ficcional. O Manual de Redação da Presidência e autores como Bechara também reforçam que o contato com a ampla variedade textual aprimora a competência linguística.

Análise das alternativas incorretas:

A) Jurídico: Incorreta. Gêneros jurídicos (leis, contratos) são essencialmente normativos e não são apontados no texto como eficientes para o aprendizado amplo da língua.

C) Jornalístico: Incorreta. Textos jornalísticos (notícias, reportagens) têm linguagem informativa, limitada em variedade e riqueza expressiva se comparada à literatura.

D) Instrucional: Incorreta. Textos instrucionais (manuais, receitas) visam orientar ações, sendo restritos quanto à exploração dos recursos complexos da língua, como recursos estilísticos e variedade vocabular.

Estratégia para o concurso: Sempre destaque palavras-chave no texto, como “romances”, “literatura”, “experiência da leitura”, e busque compreender o domínio discursivo ao qual pertencem, fundamentando sua escolha conceitualmente (Marcuschi, Travaglia).

Resumo da regra: A leitura de textos literários/fictícios é considerada pela autora a prática mais eficiente para o aprendizado profundo da língua portuguesa.

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Comentários

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Não sei se era de entender ou de sentir, mas não entendi

Primeiro período do último parágrafo do texto:  Ninguém deveria ser privado da experiência da leitura de romances, que é a melhor forma de aprender a língua.

é dissertativo (jornalístico) as outras não poderia ser.

A alternativa correta: B

A questão pede o tipo textual que, na opinião da autora, é eficiente para aprender a língua portuguesa. E a opinião dela está expressa no 1º período do último parágrafo do texto: "Ninguém deveria ser privado da experiência da leitura de romances, que é a melhor forma de aprender a língua".

A autora argumenta que a leitura de romances e o contato com a literatura são as melhores formas de aprender a língua portuguesa, pois proporcionam uma vivência profunda da linguagem em todo o seu esplendor artístico e criativo. Assim, a resposta correta está relacionada ao domínio discursivo ficcional, que inclui romances e outras obras literárias.

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