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Q518884 Português
                                                                                    Quem é o seu filho?
                                                       Os pais perderam a intimidade com as crianças. Esse
                                                         e outros efeitos da terceirização da educação e dos
                                                                                    cuidados de saúde


[...]Todos os dias as mulheres provam que são capazes de se dividir em muitas. Elas conciliam casa, trabalho, filhos, estudos, beleza com notável habilidade. O segredo é não almejar a perfeição.
      Administro a vida como o equilibrista de pratos daqueles circos antigos. O importante não é manter cada prato girando perfeitamente. O importante é acudir cada um no momento certo para evitar que eles caiam.
      Quando o bebê nasce, toda profissional vive o dilema do retorno ao trabalho. E, antes disso, vive o dilema da terceirização dos cuidados. O que é melhor? Deixar a criança na creche, com uma babá ou com a avó?
      Todas as possibilidades têm prós e contras.A escolha depende da estrutura familiar e do orçamento do casal. O importante, em todas as opções, é não exagerar na terceirização. Minha filha teve babá. Creches que funcionam em horário comercial não são uma alternativa para jornalistas.Trabalhamos em horários irregulares, frequentemente à noite e de madrugada.
       Nossa saída foi criar um sistema de semiterceirização. A babá não dormia no trabalho e folgava todos os sábados, domingos e feriados.
      Eu e meu marido fazíamos um revezamento. Um dos dois chegava em casa a tempo de substituir a babá quando a jornada diária dela terminava. Em boa parte das manhãs e nos finais de semana, nossa filha era só nossa. Nunca a babá nos acompanhou ao pediatra, ao supermercado, ao restaurante, ao hotel, ao teatrinho infantil. Pudemos acompanhar o desenvolvimento do paladar. Com alegria, levávamos a Bia para conhecer frutas e legumes no hortifrutti ou na feira. Apresentamos sabores e texturas e hoje nos orgulhamos de ver as escolhas que ela é capaz de fazer. Aos sábados ou domingos, eu preparava cardápios para a semana inteira e comprava os ingredientes. Faço isso até hoje. Facilita a vida, evita desperdício e nos dá a certeza de comer bem durante a semana toda, mesmo que o preparo das refeições seja terceirizado.
       Os pais precisam reassumir seu papel na educação alimentar. Durante a entrevista, Becker mencionou contradições comuns. “Os pais se preocupam com vento encanado e pés no chão frio, mas oferecem aos filhos lixo tóxico para eles comerem", afirma. Ao ouvir isso, me lembrei de outra historinha. Quando minha filha ainda estava na fase da papinha e decidíamos viajar de férias, a alimentação era um desafio. A babápreparava as sopinhas da semana em casa, congelávamos em diferentes potinhos e colocávamos numa bolsa térmica. No hotel, transferíamos tudo para o freezer. Como eram viagens curtas, sempre dava certo.
      Um dia fizemos uma viagem um pouco mais longa, de carro. Resolvi passar no supermercado e comprar uma papinha pronta, dessas industrializadas, para oferecer a ela quando  fizéssemos uma parada num restaurante de beira de estrada.
Planejei tudo direitinho. Só não contei com o apurado controle de qualidade da minha bebê. Tirei a tampa do produto e, na primeira colherada, ela cuspiu a gororoba longe. Fez uma careta horrível, como se eu estivesse oferecendo a ela alguma coisa imprópria para consumo humano.
      Como desprezar essa sabedoria? Foi a primeira e última vez que uma papinha pronta entrou no nosso carrinho de supermercado.
      Aprender a comer bem é um patrimônio para a vida toda, mas os pais negligenciam esse aprendizado. Acham que isso não é importante ou que não é função deles. Se preocupam mais em comprar o último iPad para os filhos do que em saber se eles reconhecem uma berinjela. Educar é difícil. Ter filhos é conhecer a vida selvagem. Precisamos menos de manuais de instrução e mais de bom senso. Acertamos aqui, erramos ali. É preciso ter serenidade para aceitar isso.
      Sou mãe há quase 14 anos. Muita coisa vem por aí. O balanço geral, até agora, deixa a família satisfeita. Não terceirizamos além da conta. Não perdemos o contato. Não nos arrependemos.


                                                         Adaptado de http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/cristiane-segatto/
                                                                                                         noticia/2013/12/quem-e-bo-seu-filhob.html


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Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito comentado – Interpretação de Texto e Figura de Linguagem (Analogia)

Tema cobrado: O tema central é interpretação de texto, com destaque para a identificação e compreensão da analogia (figura de linguagem) e análise da mensagem principal do texto.

A alternativa correta é a B, pois está fundamentada em uma leitura atenta do texto: a autora faz uma analogia entre a administração da vida e o trabalho do equilibrista de pratos de circo. Não visa manter todos os pratos girando com perfeição, mas sim socorrer cada um no momento necessário, ou seja, agir com equilíbrio e bom senso entre as muitas funções do cotidiano, sem a obsessão pela perfeição. Esse é o ponto central da analogia, recurso textual amplamente analisado por Massaud Moisés (“Dicionário de Termos Literários”) e explorado em provas de concurso.

De acordo com Celso Cunha & Lindley Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo), o sentido conotativo, isto é, não literal, é frequente em textos dissertativos, como ocorre aqui através da analogia dita.

Análise das alternativas incorretas:

A: Errada. O sistema de semiterceirização, segundo o texto, não significa entregar a educação integralmente aos outros, mas sim dividir responsabilidades entre os pais e uma babá, mantendo presença ativa dos pais.

C: Errada. O texto diz que o segredo é não almejar a perfeição. Perseguir a perfeição em cada tarefa contraria explicitamente o conselho central do texto.

D: Errada. Terceirizar não implica abandonar a profissão, mas equilibrar os cuidados com a vida profissional, encontrando alternativas possíveis para a família.

E: Errada. O texto mostra que os pais costumam se preocupar demais com doenças (como “vento encanado”), mas negligenciam a alimentação — exatamente o oposto do que a alternativa sugere.

Estratégia para resolver questões assim: Fique atento a palavras-chave, identificação da mensagem principal, distinção entre sentido literal e figurado, descartando alternativas que invertam ou distorçam ideias do texto (pegadinha comum em provas). A Norma-Padrão valoriza a leitura crítica e atenta, como recomenda o Manual de Redação da Presidência da República: “Procure sempre o sentido completo e fiel das informações.”

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Comentários

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Não entendi achei que fosse a A. Algum nobre comentário esclaredor pfv.

Camila, não poderia ser a alternativa A pois o sistema de semiterceirização ao qual a autora do texto se refere é definido nesse trecho:  "Nossa saída foi criar um sistema de semiterceirização. A babá não dormia no trabalho e folgava todos os sábados, domingos e feriados." Ou seja, é uma definição completamente diferente do que está na alternativa em questão.

Com isso, a alternativa B é a correta ao analisarmos o trecho abaixo:

    "Administro a vida como o equilibrista de pratos daqueles circos antigos. O importante não é manter cada prato girando perfeitamente. O importante é acudir cada um no momento certo para evitar que eles caiam.


Espero ter esclarecido sua dúvida.

Bons estudos!

Texto maravilhoso!

Muito bonito o texto na teoria, UM CONTO DE FADAS! hahahahaha

GABARITO: B

 O segredo é não almejar a perfeição.

    Administro a vida como o equilibrista de pratos daqueles circos antigos. O importante não é manter cada prato girando perfeitamente. O importante é acudir cada um no momento certo para evitar que eles caiam.

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