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No trecho "Era uma dessas comuns. Bem ordinária, para falar ...

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Q4156086 Português

O texto seguinte servirá de base para responder à questão.



O amor é uma rocha sedimentar



Sobre as camadas invisíveis do coração


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Outro dia, peguei uma pedra nas mãos. Era uma dessas comuns. Bem ordinária, para falar a verdade. Passei o dedo pelas faixas de cores, notei espessuras variadas. As listrinhas imediatamente lembraram à pequena Cíntia que amava Ciências na quinta série que aquela devia ser uma rocha sedimentar.


Desde cedo, amei descobrir que as rochas sedimentares são como grandes livros de histórias. Por serem feitas de deposições lentas de poeira, areia, matéria orgânica e restos de outras rochas, armazenam e preservam vestígios de vidas que passaram por ali. É como se o tempo tivesse decidido botar nelas sua própria caligrafia.


Já reparou que algumas emoções pedem da gente esse tempo rabiscado com intenção? Um tipo de assentamento, uma acomodação lenta e gradativa, sabe? O amor, por exemplo. Fiquei pensando no amor como uma rocha sedimentar.


Não falo apenas do amor romântico das propagandas de margarina que cristalizaram padrões inatingíveis e limitados do que aprendemos sobre o amor. Também não me refiro àquele sentimento inflamado de urgências que confundimos com amor e mais parece fogo de palha. Falo menos ainda daquele conformismo morno batizado de amor, mas que tem como sobrenome a desesperança de encontrar algo melhor a esta altura da vida... (Que vida?)


Penso no amor como algo que se forma devagar, pela acumulação de pequenos gestos intencionais, atravessando o tempo e as intempéries. Aquela emoção que às vezes leva eras para se transformar em algo sólido. Que _______ de camadas e mais camadas de escolhas que _______ sua singularidade.


Não amei meus filhos a primeira vez que os vi. Aqueles bebês com cheirinho inesquecível me _______ um misto de medo e ternura. Impotência e encantamento. Desespero e coragem em estado bruto. Mas o amor... ah, o amor foi se desenhando nas madrugadas.


Nos pequenos sorrisos que já não eram mais reflexos inatos, e sim manifestações de excitação pela descoberta do mundo. Nos choros – os deles e principalmente os meus. No acelerar do coração ao vê-los se lambuzar com uma manga docinha pela primeira vez, como fazia meu pai, até as últimas vezes... No alívio daquele cocô que chega como um prêmio depois de uma semana de constipação. O amor é movimento e participar dele ativamente é um pré-requisito.


A escritora Bell Hooks ensina que o amor não é apenas um sentimento, mas uma ação, escolha e compromisso de nutrir o crescimento espiritual próprio e do outro. Isso cabe no amor entre mãe e filhos, cabe na paternidade, no amor romântico, no amor entre irmãos, entre amigos, entre quaisquer pessoas... Amar alguém é integrar um processo de formação. Lembrando que os vestígios de todos os envolvidos estarão presentes. 

No trecho "Era uma dessas comuns. Bem ordinária, para falar a verdade.", o vocábulo destacado pode ser substituído, sem prejuízo do sentido, por:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o sentido contextual do vocábulo, definido pela própria reformulação do período: "Era uma dessas comuns. Bem ordinária, para falar a verdade." Nesse trecho, "ordinária" é explicado por "dessas comuns", de modo que a substituição correta deve preservar a ideia de comum, banal, sem destaque; por isso, a resposta é "corriqueira".

Tema central: sentido contextual vocabular
Análise das alternativas
A
Errada
"Desprezível" está errada porque introduz um julgamento pejorativo forte, de desvalor moral ou repulsa, que não aparece no trecho. A pedra é descrita como comum, não como indigna ou repulsiva.
B
Errada
"Grosseira" está errada porque desloca o sentido para rudeza, falta de polidez ou aspereza. Além de esse campo semântico não ser o de "dessas comuns", o referente é "uma pedra", isto é, um objeto, e não um comportamento humano.
C
Certa
A alternativa C está correta porque "corriqueira" mantém exatamente o valor semântico ativado no trecho: algo comum, banal, habitual, sem traço de destaque. O próprio texto já fornece essa chave ao apresentar a pedra como "dessas comuns" e, em seguida, chamá-la de "ordinária". A substituição, portanto, precisa conservar essa equivalência contextual, sem acrescentar desprezo, grosseria ou excepcionalidade.
D
Errada
"Singular" está errada porque produz sentido oposto ao do texto. Se a pedra era "dessas comuns", ela não pode ser caracterizada como incomum, especial ou particular.
E
Errada
"Excepcional" também contraria diretamente o contexto, pois significa algo fora do comum, extraordinário. O trecho faz exatamente o movimento inverso: apresenta a pedra como banal, sem destaque.
Pegadinha da questão
A banca explorou a polissemia de "ordinária": fora do contexto, a palavra pode sugerir carga pejorativa, mas, no trecho, seu sentido é neutralizado e explicado pela expressão "dessas comuns". O erro estava em escolher um possível sentido isolado da palavra, e não o sentido efetivamente ativado no texto.
Dica para questões semelhantes
  • Em substituição vocabular, procure primeiro a pista dada pelo próprio período; aqui, "dessas comuns" funciona como explicação de "ordinária".
  • Não escolha sinônimo possível da palavra em abstrato; escolha o sinônimo que preserva o sentido exato no contexto.
  • Elimine alternativas que acrescentem julgamento pejorativo ou mudem o campo semântico quando o texto apenas indica banalidade ou normalidade.

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