Ele é um ex-seminarista. Sério,
metódico e higiênico. Do tipo que dorme sem
amassar o pijama. Dela, todos dizem: é uma
santa. Nunca tiveram filhos, e explicam que é
por um problema de bacia estreita. Dele, não
dela, mas ninguém jamais pediu maiores
explicações. Ele é técnico contábil, está muito
bem de vida. Ela se dedica a obras
benemerentes e a atividades paroquiais. Os
dois fizeram cursilho. Certa vez, ele escreveu
uma carta ao jornal sobre uma vaga questão de
dogma da Igreja e assinou Leigo Alerta. Ela
usa o cabelo puxado para trás e amarrado num
coque que é uma declaração de princípios. Até
que um dia...
Um dia, por acaso, ligam o rádio no
meio de uma transmissão de futebol. E ela
ouve um nome: Dulcídio Wanderley Boschilia.
Não ouve o resto da frase, não sabe quem é,
mas fixa-se no nome como se o agarrasse com
os dentes. Dulcídio Wanderley Boschilia.
Estremece. Sente uma estranha sensação no
peito, uma aflição. Como um sumidouro.
Dulcídio Wanderley Boschilia. O que é que
está me acontecendo, Deus? Levanta e vai na
cozinha tomar água. Quando volta, o marido
acabou de desligar o rádio e está tirando a
gravata, sinal certo de que se prepara para
dormir. Será que ele notou alguma coisa?
Dulcídio Wanderley Boschilia. Não consegue
dormir. Nunca mais será a mesma. Que
fascínio tem aquele nome para mudar uma
vida? E o mais estranho é que só de
madrugada, o marido roncando como um urso,
ela se dá conta que existe um homem que
corresponde ao nome. Até então o nome fora
uma assombração sem corpo na sua vigília,
uma coisa etérea, uma abstração sonora.
Poucas horas antes da missa das seis, a
aflição ganha um corpo. Mas que corpo terá
Dulcídio Wanderley Boschilia? De volta da
missa ela pega o jornal e vira para a página de
esportes. Procura uma fotografia. Será este
aqui? Deixa ver. Zezinho. Não é este. Tadeu.
Cacau. Sente-se ridícula. O massagista Banha. Preciso me controlar. E súbito, num canto da
página, a notícia: o árbitro Dulcídio Wanderley
Boschilia, que apitou o jogo de ontem, ficará
na cidade até amanhã pela manhã, quando
embarcará para São Paulo.
A empregada aparece na sala para pedir
instruções para o almoço e descobre a patroa,
com o jornal amassado contra o peito, o olhar
perdido, e uma expressão na boca que a
empregada — se soubesse soletrar a palavra —
chamaria de pura lascívia. No mesmo dia,
temendo nem ela sabe bem o quê, a empregada
pede dispensa, depois de 17 anos com a
família.
Na manhã do dia seguinte, em vez da
missa, a mulher vai para o aeroporto. De
cabelo solto. O marido fica dormindo. Atenta a
todas as chamadas para embarque, a mulher
procura em vão por alguém com cara de
Dulcídio Wanderley Boschilia. Almoça um
bauru com guaraná no balcão do aeroporto e
fica até à noite. Só quando descobre que não há
mais voos para São Paulo naquele dia é que vai
para casa.
— Onde é que você esteve? quis saber
o marido, preocupado.
— Não interessa.
Ela tranca-se no quarto, e nos quatro
dias seguintes só sai uma vez, para telefonar a
um jornal. Pede o endereço de Dulcídio
Wanderley Boschilia em São Paulo. Ninguém
sabe.
Ela deve escrever para a Federação
Paulista de Futebol, o Departamento de
Árbitros, por aí. Na noite do quarto dia ela
declara para o marido:
— Quero ir para São Paulo.
— Está bem. Iremos.
— Você, não. Eu. Quero viver. Quero
viver!
O marido salta com os dois pés no seu
peito, como um Watusi, e a manda
cambaleando para dentro do quarto. Fecha a
porta. Até hoje, só a deixa sair para ir ao
banheiro. Ela tem assustado várias pessoas da
vizinhança com chamados furtivos, da janela,
no meio da noite, e misteriosos bilhetes “para
o Dulcídio, em São Paulo. Rápido, rápido!”
VERISSIMO, L. F. Ed Mort e outras
histórias. Porto Alegre: L&PM Editores,
1985.
Assinale a alternativa que apresenta todas as
expressões substantivas de referenciação à
personagem principal, esposa do ex-seminarista, que ocorrem no texto apresentado.
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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