De acordo com o texto, infere-se que, no passado, a civiliz...
ESTE É O MEU CORPO
Caro leitor: você está contente com o seu corpo? Pense bem. Olhe-se bem. Os ingleses não estão. Informa* a BBC Brasil que um grupo de deputados auscultou a população nativa a respeito.
As conclusões do estudo, intitulado "Reflections on Body Image" ("reflexões sobre a imagem do corpo”), são dramáticas: ninguém gosta da respectiva carcaça.
Nas escolas, o cenário é particularmente aterrador: um em cada cinco meninos de 10 anos despreza a própria figura; uma em cada três meninas também.
A situação é tão extrema que os deputados sugerem aulas de imagem e expressão corporal para combater a insatisfação com o corpo. É preciso mais "autoestima", dizem os especialistas. A saúde psíquica de uma nação depende disso.
Boa sorte, rapazes. Mas posso explicar por que motivo o projeto educacional está destinado ao fracasso? Deixo ficar a teoria para mais tarde. Prefiro a prática por agora.
Moro em frente a uma academia de ginástica. E todos os dias, manhã cedo, contemplo através do vidro exércitos de infelizes que marcham lá para dentro em busca das formas perfeitas.
O cortejo é deprimente, concedo: a angústia plasmada no rosto de cada um dos peregrinos faria as delícias de Hieronymus Bosch. Mas o essencial da experiência está na propaganda da academia - duas frases escritas em inglês e com cores berrantes, logo na entrada: "One life. Live it well."
Nem mais. Durante séculos, a civilização ocidental - corrijo: a civilização judaico-cristã que forjou o Ocidente - tinha uma singular visão do corpo que se alterou com a modernidade.
Simplificando, o corpo tinha a sua importância como guardião da alma divina. Mas só a alma era eterna; só a alma viajava para o outro lado, o que concedia ao corpo um estatuto perecível e secundário.
Quando existe um horizonte de eternidade pela frente, e quando a eternidade se assume como prolongamento da existência terrena e compensação de suas misérias, é normal que o olhar humano não atribua ao corpo e às suas imperfeições o lugar histérico de hoje.
Esse horizonte de eternidade perdeu-se. Para usar as palavras de Thomas Hardy em poema célebre sobre o "funeral de Deus”, a divindade podia ser uma projeção que os homens modernos não conseguiram mais manter viva.
Mas existem consequências desse enterro. Se não existe nenhuma continuidade pós-terrena, se tudo que resta é esta passagem breve e incompleta que termina entre quatro tábuas, o olhar humano recentra-se sobre a matéria.
Pior: coloca a matéria no altar das antigas divindades e troca as orações e as penitências do passado pelo calvário tangível da malhação matinal.
Só existe uma vida. Só existe uma oportunidade para vivê-la bem. As frases promocionais da academia podem ser lidas como grito festivo e obviamente narcísico.
Mas também são a expressão de uma angústia e terror bem profundos: a angústia e o terror de quem sabe que não terá uma segunda oportunidade.
Todas as fichas do jogo estão cá embaixo, não íá em cima. Aliás, não existe mais "lá em cima”.
Os deputados ingleses, sem originalidade, acreditam que a insatisfação com o corpo tem origem nas imagens de perfeição irreal que a moda ou o cinema cultivam. O clichê de um clichê.
Erro crasso. Essas imagens de perfeição irreal são apenas a consequência, e não a causa, de uma cultura que concedeu ao corpo uma fatídica importância.
E "fatídica" pela razão evidente de que condena os homens a adorar um deus falível por definição. Um deus caprichoso e inconstante, sujeito às inclemências da velhice, da doença e da morte. Se existem causas perdidas, o corpo é a primeira delas. Alimentar causas perdidas é um sintoma de demência.
É por isso que a nossa obsessão com a carcaça não se corrige com as tais aulas de imagem e expressão corporal. Não se corrige com mais "autoestima".
Ironicamente, corrige-se com menos "autoestima". Somos pó e ao pó retornaremos. Aulas de teologia fariam mais pelas crianças inglesas do que renovadas sessões com o corpo no papel principal.
João Pereira Coutinho, Folha de Sao Paulo,
05/06/2012.
Gabarito comentado
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A questão apresentada é uma interpretação de texto. O aluno deve analisar as informações contidas no texto para inferir a razão pela qual a civilização judaico-cristã dava menos importância ao corpo no passado.
Alternativa Correta: A - A opção correta é "acreditavam na eternidade da alma como prolongamento da própria existência."
O texto indica que, para a civilização judaico-cristã, o corpo tinha um papel secundário, pois era visto como o "guardião da alma divina", mas apenas a alma era considerada eterna e capaz de viajar para o "outro lado". Essa visão fazia com que a eternidade fosse percebida como um prolongamento da existência terrena, o que atribuía menos importância às imperfeições do corpo. Assim, a crença na eternidade da alma era a razão para a menor importância ao corpo.
Alternativas Incorretas:
B - A frase "One life. Live it well." não é um princípio adotado pela civilização judaico-cristã. Pelo contrário, o texto a apresenta como parte da visão moderna que valoriza excessivamente o corpo.
C - Embora o texto mencione que o corpo tinha a importância de ser o "guardião da alma", isso não justifica por si só a menor importância dada ao corpo. A chave está na eternidade da alma, conforme mencionado na alternativa A.
D - Esta alternativa menciona "orações e penitências", que estão mais associadas às práticas religiosas tradicionais, mas o texto vai além ao explicar que a menor importância ao corpo estava relacionada à visão da eternidade da alma.
E - A afirmação de que as pessoas "não acreditavam na existência da continuidade pós-terrena" é incorreta. O texto sustenta que a crença na eternidade da alma era central, o que, na verdade, afirmava uma continuidade pós-terrena.
Para resolver questões de interpretação de textos como esta, é importante identificar e focar nos marcadores discursivos e nas ideias centrais que o autor apresenta. Isso ajuda a evitar as armadilhas que podem surgir em opções que distorcem o contexto original.
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Comentários
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Gab: A
"acreditavam na eternidade da alma como prolongamento da própria existência."
Trecho confirmatório da menor importância ao corpo:
...Mas só a alma era eterna; só a alma viajava para o outro lado, o que concedia ao corpo um estatuto perecível e secundário...Esse horizonte de eternidade perdeu-se.
Alternativa a) acreditavam na eternidade da alma como prolongamento da própria existência.
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