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Ano: 2012 Banca: FAPEMS Órgão: UEMS Prova: FAPEMS - 2012 - UEMS - Técnico Administrativo |
Q824596 Português

                               ESTE É O MEU CORPO

      Caro leitor: você está contente com o seu corpo? Pense bem. Olhe-se bem. Os ingleses não estão. Informa* a BBC Brasil que um grupo de deputados auscultou a população nativa a respeito.

      As conclusões do estudo, intitulado "Reflections on Body Image" ("reflexões sobre a imagem do corpo”), são dramáticas: ninguém gosta da respectiva carcaça.

      Nas escolas, o cenário é particularmente aterrador: um em cada cinco meninos de 10 anos despreza a própria figura; uma em cada três meninas também.

      A situação é tão extrema que os deputados sugerem aulas de imagem e expressão corporal para combater a insatisfação com o corpo. É preciso mais "autoestima", dizem os especialistas. A saúde psíquica de uma nação depende disso.

      Boa sorte, rapazes. Mas posso explicar por que motivo o projeto educacional está destinado ao fracasso? Deixo ficar a teoria para mais tarde. Prefiro a prática por agora.

      Moro em frente a uma academia de ginástica. E todos os dias, manhã cedo, contemplo através do vidro exércitos de infelizes que marcham lá para dentro em busca das formas perfeitas.

      O cortejo é deprimente, concedo: a angústia plasmada no rosto de cada um dos peregrinos faria as delícias de Hieronymus Bosch. Mas o essencial da experiência está na propaganda da academia - duas frases escritas em inglês e com cores berrantes, logo na entrada: "One life. Live it well."

      Nem mais. Durante séculos, a civilização ocidental - corrijo: a civilização judaico-cristã que forjou o Ocidente - tinha uma singular visão do corpo que se alterou com a modernidade.

      Simplificando, o corpo tinha a sua importância como guardião da alma divina. Mas só a alma era eterna; só a alma viajava para o outro lado, o que concedia ao corpo um estatuto perecível e secundário.

      Quando existe um horizonte de eternidade pela frente, e quando a eternidade se assume como prolongamento da existência terrena e compensação de suas misérias, é normal que o olhar humano não atribua ao corpo e às suas imperfeições o lugar histérico de hoje.

      Esse horizonte de eternidade perdeu-se. Para usar as palavras de Thomas Hardy em poema célebre sobre o "funeral de Deus”, a divindade podia ser uma projeção que os homens modernos não conseguiram mais manter viva. 

      Mas existem consequências desse enterro. Se não existe nenhuma continuidade pós-terrena, se tudo que resta é esta passagem breve e incompleta que termina entre quatro tábuas, o olhar humano recentra-se sobre a matéria.

      Pior: coloca a matéria no altar das antigas divindades e troca as orações e as penitências do passado pelo calvário tangível da malhação matinal.

      Só existe uma vida. Só existe uma oportunidade para vivê-la bem. As frases promocionais da academia podem ser lidas como grito festivo e obviamente narcísico.

      Mas também são a expressão de uma angústia e terror bem profundos: a angústia e o terror de quem sabe que não terá uma segunda oportunidade.

      Todas as fichas do jogo estão cá embaixo, não íá em cima. Aliás, não existe mais "lá em cima”.

      Os deputados ingleses, sem originalidade, acreditam que a insatisfação com o corpo tem origem nas imagens de perfeição irreal que a moda ou o cinema cultivam. O clichê de um clichê. 

      Erro crasso. Essas imagens de perfeição irreal são apenas a consequência, e não a causa, de uma cultura que concedeu ao corpo uma fatídica importância.

      E "fatídica" pela razão evidente de que condena os homens a adorar um deus falível por definição. Um deus caprichoso e inconstante, sujeito às inclemências da velhice, da doença e da morte. Se existem causas perdidas, o corpo é a primeira delas. Alimentar causas perdidas é um sintoma de demência.

      É por isso que a nossa obsessão com a carcaça não se corrige com as tais aulas de imagem e expressão corporal. Não se corrige com mais "autoestima".

       Ironicamente, corrige-se com menos "autoestima". Somos pó e ao pó retornaremos. Aulas de teologia fariam mais pelas crianças inglesas do que renovadas sessões com o corpo no papel principal.

                                João Pereira Coutinho, Folha de Sao Paulo, 05/06/2012

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Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: Em questão de ideia principal, vale a alternativa que sintetiza a tese global retomada na conclusão. O trecho obrigatório é: "É por isso que a nossa obsessão com a carcaça não se corrige com as tais aulas de imagem e expressão corporal. Não se corrige com mais \"autoestima\"." Esse fechamento nomeia diretamente o eixo temático do texto e fixa a resposta na alternativa que exprime a obsessão com o corpo.

Tema central: obsessão pelo corpo
Análise das alternativas
A
Errada
Incorreta. O projeto educacional das escolas inglesas aparece no texto como proposta mencionada e depois refutada pelo autor, que afirma estar ele "destinado ao fracasso". Logo, trata-se de um ponto de partida argumentativo e de um alvo de crítica, não da ideia principal discutida.
B
Errada
Incorreta. O fim da crença na vida eterna funciona como explicação causal para o recentramento do olhar humano sobre o corpo, como mostra o trecho: "Se não existe nenhuma continuidade pós-terrena [...] o olhar humano recentra-se sobre a matéria." Isso a coloca como causa histórica/cultural subordinada à tese central, não como tema principal do texto.
C
Certa
A alternativa C sintetiza com fidelidade a macroideia do texto. A argumentação começa com a insatisfação corporal, passa por explicações históricas e culturais e culmina na crítica à valorização excessiva do corpo. Isso é reforçado por trechos como "Essas imagens de perfeição irreal são apenas a consequência, e não a causa, de uma cultura que concedeu ao corpo uma fatídica importância" e pela conclusão, em que o autor explicita a "obsessão com a carcaça". Portanto, C não recorta um aspecto secundário: ela resume o eixo temático dominante do artigo.
D
Errada
Incorreta. A cena da academia e o movimento de seus frequentadores têm função exemplificativa: ilustram concretamente a angústia corporal contemporânea. O texto não discute superlotação de academias como assunto autônomo; usa esse recorte para sustentar a crítica ao culto ao corpo.
E
Errada
Incorreta. A efemeridade da vida humana aparece como fundamento filosófico da argumentação, ligado à ausência de continuidade pós-terrena, mas não é o foco principal da discussão. O objeto da crítica continua sendo a centralidade excessiva dada ao corpo; a brevidade da vida serve de base explicativa para essa obsessão.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre tese central e elementos de apoio do texto: o projeto educacional inglês, o fim da crença na eternidade, a cena da academia e a efemeridade da vida parecem temas fortes, mas todos funcionam como exemplo, causa ou fundamento da tese principal, que é a obsessão contemporânea com o corpo.
Dica para questões semelhantes
  • Em perguntas sobre ideia principal, priorize a tese que o texto retoma ou explicita na conclusão, não o primeiro assunto mencionado.
  • Separe tema central de causa, exemplo e consequência: se o texto usa um elemento para explicar outro, esse elemento não é automaticamente a ideia principal.
  • Observe a progressão argumentativa inteira antes de marcar: a macroideia é a que organiza todos os demais trechos.
  • Desconfie de alternativas que isolam um recorte concreto do texto, como um episódio, uma cena ou uma proposta específica, quando ele funciona apenas como apoio da tese.

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Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

Gab: C_     

"a obsessão das pessoas pelo próprio corpo."

 

Trecho confirmatório da principal ideia transmitida:
É por isso que a nossa obsessão com a carcaça não se corrige com...

Alternativa c) a obsessão das pessoas pelo próprio corpo.

NAO CONCORDO COM O GABARITO... MAS QUEM SOU EU.... 

O AUTOR SE UTILIZA DE UMA VIVENCIA PESSOAL (OLHAR PELA JANELA E VER PESSOAS INDO À ACADEMIA) PARA ILUSTRAR ALGO QUE OCORRERA NAS ESCOLAS INGLESAS, OU SEJA, NAO FALARIA SOBRE A OBSESSÃO DO CORPO SE NAO FOSSE O PROB DE AUTOESTIMA DOS ESTUDANTES LONDRINOS...

A ideia principal do texto sempre esta no primeiro e último parágrafo.

" As conclusões do estudo, intitulado "Reflections on Body Image" ("reflexões sobre a imagem do corpo”), são dramáticas: ninguém gosta da respectiva carcaça". L2

Ai ele conclui :

" É por isso que a nossa obsessão com a carcaça não se corrige com as tais aulas de imagem e expressão corporal. Não se corrige com mais "autoestima".

''C''    

"a obsessão das pessoas pelo próprio corpo."

Pm Mato Grosso do Sul

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