As filmagens de Kuarup são mais fiéis ao espírito do
livro de Antonio Callado do que o próprio filme. Acontece.
Publicado em 1967, Quarup narra, por intermédio da saga de
padre Nando, as transformações vividas pelo Brasil desde o
suicídio de Getúlio até a ditadura militar. A narrativa acompanha
um grupo de brasileiros que se embrenha nos cafundós do
Planalto Central para demarcar o centro geográfico do país. Os
personagens, cada um à sua maneira, se juntam à expedição por
razões idealistas, românticas, éticas e científicas, mas acabam
fazendo uma viagem para dentro de si mesmos. O marco
geográfico se revela um lugar hostil, habitado por um gigantesco
formigueiro de saúvas agressivas. Nós, atores, produtores e
técnicos, seríamos submetidos às mesmas pressões de que
padeceram os heróis da literatura. Esse era o choque que Ruy
Guerra, o diretor, desejava captar.
Sondada para participar do projeto, sofri frenesis de
expectativa: eu tinha 23 anos, em 1998. A vontade de me perder
no Brasil profundo por quatro semanas — elas viraram dez —,
alojada junto aos povos do Alto Xingu, na pele da personagem
Francisca e dirigida por Guerra, ofuscava, em mim, quaisquer
outras vontades. Eu me via em Uma aventura na África,
abrigada numa barraca militar inglesa, discutindo o roteiro da
película à luz do poente.
Um filme não é apenas um filme: é um filme e mais a
logística de dar conta da tropa que o realiza. Um circo grande
como aquele, no meio do nada, com duração prevista de três
meses, contava com mais de uma centena de voluntários: de
peões goianos a intelectuais sensíveis, de cozinheiras do Méier a
atrizes burguesas, de japoneses paulistas a lendas vivas da tela
grande.
Viveríamos isolados na mata, com luz racionada, sem
privacidade, banheiro ou telefone, a três horas e meia de tecoteco de um aparelho de televisão. Improviso, logística tupiniquim
e espírito aventureiro se misturavam para tornar real a visão do
diretor.
Fernanda Torres. Sete anos. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 13-14 (com adaptações).
No texto precedente, Fernanda Torres relata sua experiência
como atriz do elenco do filme Kuarup, dirigido por Ruy Guerra
e inspirado no romance Quarup, de Antonio Callado. A partir
dos argumentos que sustentam a opinião da atriz no relato
apresentado, é correto afirmar que, na perspectiva de Fernanda
Torres,
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