Quanto a alguns elementos textuais que concorrem para o proc...
Texto 1
SINTAXE PENOSA
Não, dileto leitor, não incorporei o espírito do professor Pasquale; não é o objetivo da presente coluna proferir uma invectiva contra os que violentam a sintaxe da língua de Camões com gerundismos ("vamos estar falando de ciência") ou destroçam a harmonia das orações subordinadas. Quando digo "sintaxe penosa", entenda-me literalmente: passarinhos cujo canto tem regras semelhantes à nossa tradicional ordem de sujeito seguido de verbo e objeto (por exemplo) nas frases.
Se essa possibilidade não faz cair o seu queixo, deveria. Como enfatizei na coluna passada (eu sei, faz duas semanas já, mas quem sabe você recorda), os cientistas têm mostrado que é cada vez menor a lista das faculdades mentais exclusivamente humanas. Uma das poucas que sobraram – ou melhor, sobravam – é a linguagem com sintaxe. Alguns passarinhos japoneses resolveram melar o nosso triunfo, ao que parece. Os penosos em questão pertencem à espécie Parus minor, ou chapim-japonês. Assim como uma grande variedade de outros animais, incluindo outras aves, obviamente, mas também primatas como nós e outras criaturas, o chapim-japonês produz vocalizações que podem ser comparadas às nossas palavras.
Esses sons foram criativamente apelidados com as letras A, B, C e D. Seu significado varia um pouco, mas podemos dizer, de modo geral, que combinações das três primeiras "palavras" (AC ou BC, por exemplo) denotam a presença de diversos tipos de predadores, enquanto os sons do tipo D (caracterizados por uma sequência de sete a dez "notas", como as de uma música) servem para recrutar outros passarinhos – quando um macho chama sua parceira, por exemplo.
O bacana, porém, é que a "palavra" D pode ser combinada às outras, modificando o sentido delas. AC-D, digamos, pode ser usado quando um chapim vê um falcão e chama outras aves para avisá-las sobre o caçador e convocá-las para fazer "mobbing" (quando vários passarinhos se juntam para intimidar uma ave de rapina).
A pergunta é: será que faz diferença a ordem dos fatores? Afinal, em português, "O cão mordeu o menino" e "O menino mordeu o cão" são frases com sentido completamente distinto. Foi o que Toshitaka Suzuki, da Universidade Sokendai, no Japão, resolveu testar usando gravações das "palavras" típicas das aves. Resultado: quando ouvem as gravações de ABC, os chapins olham assustados para os lados esperando um predador; se escutam só D, voam na direção do alto-falante, procurando o colega que teria chamado por eles. ABCD produz, como esperado, um misto de olhares assustados para os lados e voo rumo ao som. E quando o som é DABC? Em geral, nada – os bichos ficam confusos. A sintaxe da "frase" não faz sentido para eles. Ou seja, é a ordem dos termos dos chamados que importa nesse caso, como na fala humana. Os dados estão em artigo na revista científica "Nature Communications".
Pode ser que você não esteja lá muito embasbacado com as proezas sintáticas do chapim-japonês. Está no seu direito, obviamente, mas o que descobertas como essa reiteram, feito a linha de baixo constante e sólida de um bom rock, é o fato inconteste de que as nossas capacidades mentais aparentemente inigualáveis derivam, na verdade, de "tijolinhos" cognitivos que já estavam presentes nos lugares mais improváveis da Árvore da Vida. Nosso edifício comportamental é mais arrojado, faraônico até – mas ainda tem as marcas de que um dia foi uma choupana.
LOPES, Reinaldo José. Publicado em 27 mar. 2017.
Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/reinaldojoselopes/2016/03/1754157-sintaxe-penosa.shtml.
Acesso em: 8 jul. 2017. Adaptado.
Quanto a alguns elementos textuais que concorrem para o processo de coesão e coerência textual, analise as afirmativas a seguir.
I. No trecho: “Se essa possibilidade não faz cair o seu queixo” (2º parágrafo), o autor está falando da possibilidade de ele cometer erros de sintaxe ao escrever na “língua de Camões”.
II. O trecho: “Uma das poucas que sobraram (...) é a linguagem com sintaxe.” (2º parágrafo), deve ser entendido como "Uma das poucas faculdades mentais humanas que sobraram (...)".
III. No trecho: “Esses sons foram criativamente apelidados com as letras A, B, C e D.” (4º parágrafo), o segmento destacado, retomando, do parágrafo anterior, o termo “vocalizações”, mantém a continuidade semântica do texto.
IV. Considerando as informações que antecedem o trecho: “E quando o som é DABC? Em geral, nada – os bichos ficam confusos.” (7º período), ele deve ser assim compreendido: "E quando o som é DABC? Em geral, nada acontece – os bichos não reagem, porque ficam confusos.".
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Questão de Interpretação de Texto — Coesão e Coerência
O tema central desta questão refere-se à interpretação de texto, especialmente aos mecanismos de coesão e coerência textual, fundamentais para o entendimento de referências, retomadas e progressão do sentido no texto. É necessário, portanto, identificar como o texto estrutura suas ideias, usando pronomes demonstrativos e elementos referenciais para ligar informações e garantir a continuidade semântica, conforme orientam autores como Bechara e Cunha & Cintra.
Análise das afirmativas:
I. Incorrreta: "Essa possibilidade", pelo contexto, refere-se à capacidade dos passarinhos apresentarem sintaxe semelhante à humana, não sobre o autor cometer erros de sintaxe. É fundamental interpretar corretamente o pronome demonstrativo, que aqui faz referência anáfora ao fenômeno apresentado no parágrafo anterior.
II. Correta: O trecho "Uma das poucas que sobraram" se refere de fato às faculdades mentais exclusivamente humanas, mantidas até então pela linguagem sintática, conforme explicitado no texto.
III. Correta: "Esses sons" retoma "vocalizações" do parágrafo anterior, exemplificando o uso de coesão referencial no texto. Segundo a Moderna Gramática Portuguesa, essa relação é típica do uso dos demonstrativos para manter a unidade do texto.
IV. Correta: O termo "nada" no trecho — "E quando o som é DABC? Em geral, nada – os bichos ficam confusos" — deve ser interpretado como ausência de reação, explicando o porquê da confusão dos animais. Essa leitura decorre da análise contextual das informações imediatamente anteriores.
Alternativa correta: D) II, III e IV, apenas.
Resumo Estratégico:
A chave da questão é fazer uma leitura atenta dos pronomes e das referências internas empregadas. Fique atento a pegadinhas que exploram o mau uso de pronomes demonstrativos: sempre volte ao texto para conferir a que o termo realmente se refere, evitando interpretações precipitadas.
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Comentários
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GABARITO: letra D (II, III e IV, apenas.)
I – ERRADA: “Se essa possibilidade não faz cair o seu queixo” ⇨ “passarinhos cujo canto tem regras semelhantes à nossa tradicional ordem de sujeito seguido de verbo e objeto (...).” (possibilidade dos passarinhos terem regras de comunicação semelhantes às nossas.)
I - Errada. Não fala da possibilidade de cometer erros e sim de manter o msm padrão de escrita.
Fé na missão #PMPE
PMPE 2018/2019.
Será que foi erro de digitação? A assertiva III não está no 4º parágrafo, mas sim no 3º.
Jefferson, realmente foi erro de digitação da prova não do QC. Se eu tivesse errado essa questão entraria com recurso alegando que o erro de digitação comprometeu o julgamento objetivo da questão.
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