No trecho "A noite sombria e gelada, ao invés de embalar, ...
Texto para a questão.
TEXTO 1
Chove. A noite sombria e gelada, ao invés de embalar, me rouba o sono. Eu, debaixo do edredom macio, no aconchego do calor de meu quarto escuro, passo a cismar. Um vento frio que advém de fora, vaza a fresta da janela de onde adentra uma réstia de um poste vizinho. Apesar da comodidade de meu leito, não consigo conciliar-me com Morfeu. Vem-me à memória a criança imunda nos braços da mãe, chorando debaixo de um viaduto. Chorava de fome. Agora, talvez, chore também de frio. Eles precisam é de justiça social, não de uma moeda ou um de cobertor.
Fragmento adaptado da crônica "Desigualdades", de Tarcisio Cardoso. Disponível em: https://tarcisiofcardoso.com.br/cronica-desigualdades/.
I. O termo "ao invés de" poderia ser substituído por "em vez de" sem alteração de sentido no contexto, pois ambas expressam a ideia de continuidade ou substituição.
II. A omissão do pronome oblíquo átono "me" (“me rouba o sono”) configuraria uma possibilidade de uso, pois o verbo “roubar" não necessita de complemento.
III. No trecho "Vem-me à memória a criança imunda", o acento grave indicativo de crase em "à memória" é obrigatório, pois o verbo "vir" (no sentido de "ocorrer") exige a preposição "a", e o substantivo "memória" aceita o artigo definido feminino "a".
Está correto o que se afirma em:
Gabarito comentado
Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores
Gabarito: B
Fundamento decisivo: A questão se resolve pela norma-padrão de regência e crase na construção "vem-me à memória": a preposição exigida pela expressão se funde com o artigo feminino de "memória", o que torna correta a assertiva III e, por consequência, confirma o gabarito B.
- Em crase, não basta verificar se o substantivo feminino admite artigo; é preciso confirmar também a preposição exigida pela construção.
- Não aceite como sinônimas, sem ressalva, expressões como "ao invés de" e "em vez de"; a distinção tradicional entre oposição e substituição pode ser decisiva.
- Quando a alternativa justificar a retirada de pronome oblíquo, teste o fundamento sintático apresentado, e não apenas a possibilidade aparente de reescrever a frase.
Clique para visualizar este gabarito
Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo
Comentários
Veja os comentários dos nossos alunos
GABARITO: B
ASSERTIVA I: INCORRETA. Existe uma distinção semântica clássica na norma culta. "Ao invés de" deve ser utilizado apenas para indicar oposição/contrário (ex: subir ao invés de descer). Já "em vez de" é mais abrangente e significa "no lugar de", servindo tanto para oposição quanto para simples substituição. No trecho, como "embalar" e "roubar o sono" são ações opostas, a substituição por "em vez de" seria gramaticalmente possível, mas a afirmação erra ao dizer que ambas expressam a ideia de "continuidade", o que não é verdade para nenhuma delas.
ASSERTIVA II: INCORRETA. O verbo "roubar" é transitivo direto e indireto (roubar algo de alguém) ou transitivo direto (roubar algo). No contexto "me rouba o sono", o "me" exerce a função de objeto indireto (ou possessivo adnominal: rouba o sono de mim). Se o pronome for omitido, a frase perde o sentido pretendido pelo autor, pois o verbo ficaria carente de indicar quem está sofrendo a privação do sono.
ASSERTIVA III: CORRETA. O verbo "vir" rege a preposição "a" (vir a algum lugar/algo). Somando-se a preposição exigida pelo verbo com o artigo definido feminino aceito pelo substantivo "memória", ocorre a fusão que justifica o acento grave (a + a = à). A estrutura "Vem à memória" segue a mesma lógica de "Vem à mente".
Dica de Prova: Lembre-se que "ao invés de" pede obrigatoriamente um antônimo. Se a relação não for de oposição clara (ex: "em vez de café, tomou chá"), o uso de "ao invés de" é considerado incorreto pela gramática tradicional.
Clique para visualizar este comentário
Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo