“Somos uma geosociedade una, múltipla e diferente. ”Os senti...
Utilize o texto a seguir para responder as questões de 01 a 07.
DO BOM USO DO RELATIVISMO
Hoje pela multimídia, imagens e gentes do mundo inteiro nos entram pelos telhados, portas e janelas e convivem conosco. É o efeito das redes globalizadas de comunicação. A primeira reação é de perplexidade que pode provocar duas atitudes: ou de interesse para melhor conhecer que implica abertura e diálogo ou de distanciamento que pressupõe fechar o espírito e excluir. De todas as formas, surge uma percepção incontornável: nosso modo de ser não é o único. Há gente que, sem deixar de ser gente, é diferente. Quer dizer, nosso modo de ser, de habitar o mundo, de pensar, de valorar e de comer não é absoluto. Há mil outras formas diferentes de sermos humanos, desde a forma dos esquimós siberianos, passando pelos yanomamis do Brasil até chegarmos aos sofisticados moradores de Alphavilles onde se resguardam as elites opulentas e amedrontadas. O mesmo vale para as diferenças de cultura, de língua, de religião, de ética e de lazer.
Deste fato surge, de imediato, o relativismo em dois sentidos: primeiro, importa relativizar todos os modos de ser; nenhum deles é absoluto a ponto de invalidar os demais; impõe-se também a atitude de respeito e de acolhida da diferença porque, pelo simples fato de estar-aí, goza de direito de existir e de coexistir; segundo, o relativo quer expressar o fato de que todos estão de alguma forma relacionados. Eles não podem ser pensados independentemente uns dos outros porque todos são portadores da mesma humanidade. Devemos alargar, pois, a compreensão do humano para além de nossa concretização. Somos uma geosociedade una, múltipla e diferente.
Todas estas manifestações humanas são portadoras de valor e de verdade. Mas é um valor e uma verdade relativos, vale dizer, relacionados uns aos outros, autoimplicados, sendo que nenhum deles, tomado em si, é absoluto. Então não há verdade absoluta? Vale o everything goes de alguns pós-modernos? Quer dizer, o “vale tudo”? Não é o vale tudo. Tudo vale na medida em que mantém relação com os outros, respeitando-os em sua diferença. Cada um é portador de verdade mas ninguém pode ter o monopólio dela. Todos, de alguma forma, participam da verdade. Mas podem crescer para uma verdade mais plena, na medida em que mais e mais se abrem uns aos outros.
(...)
A ilusão do Ocidente é de imaginar que a única janela que dá acesso à verdade, à religião verdadeira, à autêntica cultura e ao saber crítico é o seu modo ver e de viver. As demais janelas apenas mostram paisagens distorcidas. Ele se condena a um fundamentalismo visceral que o fez, outrora, organizar massacres ao impor a sua religião e, hoje, guerras para forçar a democracia no Iraque e no Afeganistão.
Devemos fazer o bom uso do relativismo, inspirados na culinária. Há uma só culinária, a que prepara os alimentos humanos. Mas ela se concretiza em muitas formas, as várias cozinhas: a mineira, a nordestina, a japonesa, a chinesa, a mexicana e outras. Ninguém pode dizer que só uma é a verdadeira e gostosa e as outras não. Todas são gostosas do seu jeito e todas mostram a extraordinária versatilidade da arte culinária. Por que com a verdade deveria ser diferente?
BOFF, Leonardo. Disponível em: < http://alainet.org>. Acesso em: 21 nov. 2016.
“Somos uma geosociedade una, múltipla e diferente. ”
Os sentidos presentes nesse trecho do texto só não estão expressos, em outras palavras, no texto:
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Comentário da Questão – Interpretação de Texto e Relações Intertextuais
Tema central: A questão exige habilidade de interpretação de texto e análise de relações intertextuais. O foco é identificar, nas alternativas, quais reproduzem a ideia do trecho "Somos uma geosociedade una, múltipla e diferente", ou seja, a coexistência de unidade e diversidade na humanidade.
Justificativa da alternativa correta:
A alternativa D (Gilberto Gil) é a correta. Nela, a temática é o contraste entre a tecnologia e a individualidade humana (“só eu posso pensar se Deus existe/só eu posso chorar quando estou triste”), sem qualquer ênfase na diversidade cultural, pluralidade de modos de ser ou unidade na diferença. Conforme a norma-padrão e Celso Cunha & Lindley Cintra, para captar o sentido global de um texto, é fundamental buscar o eixo temático central – aqui, a “geosociedade una, múltipla e diferente” remete à valorização da diferença convivendo com unidade.
Análise das alternativas incorretas:
A (Tom Zé): “unimultiplicidade” já expressa explicitamente a união do uno e do múltiplo, alinhando-se ao texto-fonte.
B (Antônio Nóbrega): Ao listar diversas etnias indígenas, evidencia a pluralidade dentro de um coletivo único (a humanidade), em consonância com a ideia central.
C (Lenine): Ressalta que a diferença nos aproxima e que “diversidade é a sentença”, reforçando unidade na multiplicidade.
E (Engenheiros do Hawaii): Destaca a existência de múltiplos olhares e vivências, sintetizando a realidade múltipla e diversa.
Estrategicamente: Leia sempre com atenção ao tema central do texto de apoio e às palavras-chave das alternativas. Muitas vezes, a “pegadinha” está em opções que focam só no indivíduo ou em outro aspecto, desviando do eixo da coletividade e diversidade.
Segundo a Moderna Gramática Portuguesa (Evanildo Bechara), a capacidade de identificar o sentido global e os elementos que compõem a ideia central é indispensável para a boa interpretação em provas de concurso.
Gabarito: D
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