Sobre a sintaxe de concordância e a de regência, identifique...

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Q2890457 Português

Leia o texto a seguir para responder às questões de 06 a 15.


TEXTO:


Trabalhar e sofrer


“O trabalho enobrece” é uma dessas frases feitas que a gente repete sem refletir no que significam,

feito reza automatizada. Outra é “A quem Deus ama, Ele faz sofrer”, que fala de uma divindade cruel, fria,

que não mereceria uma vela acesa sequer. Sinto muito: nem sempre trabalhar nos torna nobres, nem

sempre a dor nos torna mais justos, mais generosos. O tempo para contemplação da arte e da natureza,

5 ou para a curtição dos afetos, por exemplo, deve enobrecer bem mais. Ser feliz, viver com alguma

harmonia, há de nos tornar melhores do que a desgraça. A ilusão de que o trabalho e o sofrimento nos

aperfeiçoam é uma ideia que deve ser reavaliada e certamente desmascarada.

O trabalho tem de ser o primeiro dos nossos valores, nos ensinaram, colocando à nossa frente

cartazes pintados que impedem que a gente enxergue além disso. Eu prefiro a velha dama esquecida

10 num canto feito uma mala furada, que se chama ética. Palavra refinada para dizer o que está ao alcance

de qualquer um de nós: decência. Prefiro, ao mito do trabalho como única salvação e da dor como

cursinho de aperfeiçoamento pessoal, a realidade possível dos amores e a dos valores que nos tornariam

mais humanos, para que trabalhássemos com mais força e ímpeto e vivêssemos com mais esperança.

O trabalho que dá valor ao ser humano e algum sentido à vida pode, por outro lado, deformar e

15 destruir. O desprezo pela alegria e pelo lazer espalha-se entre muitos de nossos conceitos, e, por isso, nos

sentimos culpados se não estamos em atividade, na cultura do corre-corre e da competência pela

competência, do poder pelo poder, por mais tolo que ele seja.

Assim como o sofrimento pode nos tornar amargos e até emocionalmente estéreis, o trabalho pode

aviltar, humilhar, explorar e solapar qualquer dignidade, roubar nosso tempo, saúde e possibilidade de

20 crescimento. Na verdade, o que enobrece é a responsabilidade que os deveres, incluindo os do trabalho,

trazem consigo. O que nos pode tornar mais bondosos e tolerantes, eventualmente, nasce do sofrimento

suportado com dignidade, quem sabe com resignação. Mas um ser humano decente é resultado de muito

mais que isso: de genética, da família, da sociedade em que está inserido, da sorte ou do azar, e das

escolhas pessoais (essas a gente costuma esquecer: queixar-se é tão mais fácil!).

LUFT, Lya. Trabalhar e sofrer. Veja, São Paulo: Abril, ed. 2148, ano 43, n. 3, p. 24, 20 jan. 2010. Adaptado.

Sobre a sintaxe de concordância e a de regência, identifique as afirmativas verdadeiras (V) e as falsas (F).


( ) A preposição “de” pode aparecer, dentre outras situações, por exigência de um verbo ou de um nome, conforme atestam os fragmentos “que fala de uma divindade cruel” (linha 2) e “A ilusão de que o trabalho e o sofrimento nos aperfeiçoam” (linhas 6 e 7).

( ) Os adjetivos “reavaliada” (linha 7) e “desmascarada” (linha 7) estão no feminino, singular, concordando com diferentes nomes.

( ) O verbo preferir, em “Prefiro, ao mito do trabalho como única salvação e da dor como cursinho de aperfeiçoamento pessoal, a realidade possível dos amores e a dos valores” (linhas 11 e 12), possui a mesma regência que dar, em “O trabalho que dá valor ao ser humano” (linha 14).

( ) A forma verbal “tornariam” (linha 12) está no plural para concordar com o antecedente do relativo “que”, termo que o representa.

( ) As formas verbais “nasce” (linha 21) e “sabe” (linha 22) estão no singular, concordando com o mesmo sujeito.


A alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo, é a

Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: A resolução depende da identificação objetiva de regência verbal e nominal, concordância nominal e verbal, e do antecedente do pronome relativo nos trechos citados do texto. Esses critérios permitem fixar a sequência V F V V F, correspondente à alternativa B.

Tema central: regência e concordância
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque altera três itens decisivos. O item 1 não é F, mas V, já que há regência verbal em “fala de” e regência nominal em “ilusão de que...”. O item 2 não é V, mas F, porque “reavaliada” e “desmascarada” retomam o mesmo nome, “ideia”. O item 5 também não é V, mas F, pois “nasce” tem sujeito próprio e “quem sabe” funciona incidentalmente.
B
Certa
A alternativa B é a correta porque corresponde exatamente à valoração gramatical dos cinco itens. O item 1 é verdadeiro: em “que fala de uma divindade cruel”, a preposição “de” é exigida pelo verbo “falar”; em “A ilusão de que o trabalho e o sofrimento nos aperfeiçoam”, ela se liga ao nome “ilusão”, introduzindo complemento nominal oracional. O item 2 é falso: “reavaliada” e “desmascarada” estão no feminino singular porque concordam com o mesmo nome, “ideia”, e não com nomes diferentes. O item 3 é verdadeiro: nos trechos citados, tanto “preferir” quanto “dar” aparecem com dois complementos, sendo um introduzido por preposição e outro não. O item 4 é verdadeiro: em “a dos valores que nos tornariam mais humanos”, o relativo “que” retoma “valores”, por isso “tornariam” vai ao plural. O item 5 é falso: “nasce” concorda com “O que nos pode tornar mais bondosos e tolerantes, eventualmente”, enquanto “quem sabe” é expressão parentética, não compartilhando o mesmo sujeito.
C
Errada
Está errada porque marca como falso o item 1, embora os dois trechos realmente exemplifiquem a preposição “de” exigida por verbo e por nome. Também erra o item 5 ao marcá-lo como verdadeiro: “nasce” e “sabe” não concordam com o mesmo sujeito, já que “quem sabe” integra expressão parentética.
D
Errada
Está errada em dois pontos centrais. O item 2 não pode ser verdadeiro, porque não há dois nomes diferentes regendo “reavaliada” e “desmascarada”; ambos concordam com “ideia”. O item 4 não pode ser falso, porque em “a dos valores que nos tornariam mais humanos” o antecedente de “que” é “valores”, o que justifica o plural de “tornariam”.
E
Errada
Está errada porque não é possível validar todos os itens. O item 2 é falso, já que a concordância nominal recai sobre o mesmo nome, “ideia”. O item 5 também é falso, porque “nasce” tem como sujeito “O que nos pode tornar mais bondosos e tolerantes, eventualmente”, e “quem sabe” não entra com o mesmo sujeito na estrutura.
Pegadinha da questão
A banca concentrou a confusão em três pontos reais: a proximidade entre “ilusão” e “ideia”, que pode levar à falsa impressão de que cada adjetivo concorda com um nome diferente; o antecedente de “que” em “a dos valores que nos tornariam mais humanos”, que não é “realidade”; e a leitura de “quem sabe” como verbo com o mesmo sujeito de “nasce”, quando ali funciona como expressão parentética.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique a regência no próprio trecho: identifique se a preposição é exigida por verbo ou por nome, sem tratar todas as ocorrências como iguais.
  • Na concordância nominal, localize o núcleo exato retomado pelo adjetivo ou particípio antes de decidir se há um ou mais referentes.
  • Quando houver pronome relativo, descubra primeiro seu antecedente; a concordância verbal depende disso.
  • Em período com expressão incidental, como “quem sabe”, não atribua automaticamente a ela o mesmo sujeito do verbo principal.

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