Titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira da USP – Ribeirão Preto e professor emérito da UFPE
O primeiro semestre escolar de 2021 terminou, e de maneira muito similar à de um ano atrás. E a
resposta é simples: nada fizemos, numa esfera de coordenação nacional, para prover ensino remoto a todas
as crianças e a todos os jovens deste país. Os mais prejudicados são os de baixa renda das regiões Norte e
Nordeste do Brasil. A desigualdade entre ricos e pobres vai aumentar ainda mais, e também entre as regiões
brasileiras. A situação poderia ter sido muito amenizada caso tivéssemos elaborado um plano nacional de
conectividade digital, com internet e banda larga, para esses estudantes e professores da educação básica.
Mas não. Nós os deixamos ao deus-dará.
O retorno às atividades escolares presenciais depende da velocidade da vacinação, que, infelizmente,
ainda está muito lenta em nosso país. A cada dia sem aula, mais afastamos os estudantes da escola, e
começamos a perder a oportunidade de assegurar um futuro digno a essa geração de crianças e jovens.
As primeiras avaliações vêm mostrando o abismo em que estamos mergulhando no campo da
aprendizagem escolar. Com a transparência que o tempo exige, o estado de São Paulo foi o primeiro da
federação a fazer uma avaliação da proficiência escolar de seus alunos do 5° e 9° anos do ensino fundamental
e do 3° ano do ensino médio. Os resultados apontam para um grande retrocesso – e isso no estado cuja área
pública, juntamente com a do Paraná, mais rapidamente conseguiu oferecer atividades remotas para boa parte
de seus estudantes.
O maior retrocesso ocorre com os alunos do 5° ano; em língua portuguesa, o retorno corresponde aos
resultados de 10 anos atrás, enquanto em matemática o impacto é ainda maior, voltando aos resultados de 14
anos atrás. Outro resultado que chama a atenção é o de matemática relativo ao 3° ano do ensino médio: é o
pior resultado da série histórica do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) relativo à rede estadual
de São Paulo.
[...]
O desafio que se coloca – sobretudo às redes públicas de educação básica que atendem 85% dos
estudantes do país e grande diversidade de estudantes com origens sociais diversas e condições de vida muito
desiguais – refere-se à urgência da volta às aulas e à necessidade de desenvolver novas estratégias e
metodologias pedagógicas eficazes para recuperar e acelerar a aprendizagem desta geração de crianças e
jovens fortemente afetada pela pandemia.
Para o enfrentamento dessa situação, o Conselho Nacional de Educação (CNE), em colaboração com
as três esferas de governo e instituições e organizações vinculadas à área da educação, elaborou parecer e
resolução para o enfrentamento desse desafio, cumprindo assim o seu papel de órgão de estado em defesa da
educação.