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Q3504982 Português
Instrução: Leia o texto a seguir e responda à questão.


Expressões desaparecem. Para onde foram?


    Cartear marra é uma delas. Usadíssima nos anos 60, não vejo ninguém mais carteando marra. Quantas vezes nós, adolescentes, nos bailinhos, ao vermos alguém de outra cidade querendo dançar com as nossas meninas, chegávamos perto: não vem cartear marra aqui, não. Cartear marra era querer ser metido a gostoso.

    Hoje, décadas depois, vou ao dicionário. Cartear significa também chutar. E marra, coragem. Portanto a expressão estava correta: fingir coragem. E, cá entre nós, naquele tempo todo mundo carteava marra.

    Outra genial: par de besta. Tipo assim: o cara veio com par de besta pra cima de mim e eu saí na porrada. E eu nunca entendia porque o sujeito com um par de besta (o animal, claro), significava que era todo valentão. O que é que a besta tinha a ver com valentia?

    Mas hoje, descobri. O primeiro significado da palavra besta é uma arma, uma espécie de arco para atirar setas. Portanto, o cara que vinha com par de besta, vinha armado, vinha para agredir, para ofender.

    Por outro lado, e ainda mais bestial, o interessante é que o sujeito metido a besta era o metido a gostoso, a bonitão, a conquistador. Aqui, no caso, nunca entendi o porquê da besta. Se você for metido a besta, me explique.

[...] 

    Naquela época não tinha pêr-répis, a não ser se você fosse gilete. A gente saía para encher o picuá dos outros e, qualquer problema, noves fora zero. 

    Mas o que mais me irritava, na adolescência, era a minha irmã mais velha achar que eu era inocente. Já tinha uns doze anos e ela dizia que eu era inocente. E olha que eu já era culpadíssimo!

    Me desculpe cartear tanta marra…


(PRATA, Mário. Estadão, 11/02/2004. Disponível em: www.mensagenscomamor.com. Acesso em 10/10/2024.)
Ao longo do texto, o autor estabelece interação com o leitor, tomando-o diretamente como interlocutor. Qual trecho NÃO apresenta essa característica?
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é identificar marca linguístico-discursiva de interlocução direta com o leitor. No trecho obrigatório “A gente saía para encher o picuá dos outros e, qualquer problema, noves fora zero.”, há apenas relato memorialístico de um hábito passado do grupo do narrador, sem segunda pessoa, pedido, apelo, imperativo ou inclusão explícita do leitor na cena enunciativa; por isso, essa é a alternativa que NÃO apresenta essa característica.

Tema central: interlocução com o leitor
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada como resposta porque apresenta interlocução direta de modo explícito. O trecho usa “você” e o pedido “me explique”, que são marcas claras de fala dirigida ao leitor/interlocutor.
B
Errada
Está errada como resposta porque “cá entre nós” funciona como estratégia de aproximação e cumplicidade com o destinatário. Mesmo sem usar “você”, o trecho simula confidência direta com o leitor.
C
Certa
A alternativa C está correta porque o trecho tem função narrativa: o autor rememora uma prática de seu grupo na adolescência. A expressão “a gente” não convoca o leitor como interlocutor; no contexto, refere-se ao grupo do narrador. Assim, embora o trecho tenha tom coloquial, não há dirigimento direto ao destinatário.
D
Errada
Está errada como resposta porque “Me desculpe” constitui pedido direto a um interlocutor. A interlocução existe mesmo sem pronome expresso, pois o ato de fala pressupõe destinatário diretamente convocado.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre oralidade e interlocução: um trecho pode ser coloquial sem se dirigir diretamente ao leitor. Também explora o fato de que a interlocução nem sempre aparece com “você”; ela também surge em expressões como “cá entre nós” e em pedidos como “Me desculpe”.
Dica para questões semelhantes
  • Separe tom coloquial de chamamento direto: informalidade, sozinha, não prova interlocução.
  • Procure marcas de destinatário, como segunda pessoa, imperativo, pedido, apelo ou expressão de cumplicidade.
  • Verifique no contexto a referência de “a gente” e “nós”: nem sempre incluem o leitor; podem retomar apenas o grupo do narrador.

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Comentários

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Com exceção da letra C, que ele conta uma historinha, em todos os outros casos o autor fala com o leitor de alguma forma.

Se você for metido a best@, me explique.

E, cá entre nós, naquele tempo todo mundo carteava marra.

Me desculpe cartear tanta marra…

Letra C - "A gente saía para encher o picuá dos outros e, qualquer problema, noves fora zero." - Está contando o que aconteceu na vida dele quando era menor.

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