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Q3408389 Português
Sobre poesia


   Não têm sido poucas as tentativas de definir o que é poesia. Desde Platão e Aristóteles até os semânticos e concretistas modernos, insistem filósofos, críticos e mesmo os próprios poetas em dar uma definição da arte de se exprimir em versos, velha como a humanidade. Eu mesmo, em artigos e críticas que já vão longe, não me pude furtar à vaidade de fazer os meus mots de finesse em causa própria – coisa que hoje me parece senão irresponsável, pelo menos bastante literária.

   Um operário parte de um monte de tijolos sem significação especial senão serem tijolos para – sob a orientação de um construtor, que por sua vez segue os cálculos de um engenheiro obediente ao projeto de um arquiteto – levantar uma casa. Um monte de tijolos é um monte de tijolos. Não existe nele beleza específica. Mas uma casa pode ser bela, se o projeto de um bom arquiteto tiver a estruturá-la, os cálculos de um bom engenheiro e a vigilância de um bom construtor, no sentido do bom acabamento, por um bom operário, do trabalho em execução.

   Troquem-se tijolos por palavras, ponha-se o poeta, subjetivamente, na quádrupla função de arquiteto, engenheiro, construtor e operário, e aí tendes o que é poesia. A comparação pode parecer orgulhosa, do ponto de vista do poeta, mas, muito pelo contrário, ela me parece colocar a poesia em sua real posição diante das outras artes: a de verdadeira humildade. O material do poeta é a vida, e só a vida, com tudo o que ela tem de sórdido e sublime. Seu instrumento é a palavra. Sua função é a de ser expressão verbal rítmica ao mundo informe de sensações, sentimentos e pressentimentos dos outros com relação a tudo o que existe ou é passível de existência no mundo mágico da imaginação. Seu único dever é fazê-lo da maneira mais bela, simples e comunicativa possível, do contrário ele não será nunca um bom poeta, mas um mero lucubrador de versos.

   Mas para o poeta a vida é eterna. Ele vive no vórtice dessas contradições, no eixo desses contrários. Não viva ele assim, e transformar-se-á, certamente, dentro de um mundo em carne viva, num jardinista, num floricultor de espécimes que, por mais belos sejam, pertencem antes a estufas que ao homem que vive nas ruas e nas casas. Isto é: pelo menos para mim. E não é outra a razão pela qual a poesia tem dado à história, dentro do quadro das artes, o maior, de longe o maior número de santos e de mártires. Pois, individualmente, o poeta é, “ai dele”, um ser em constante busca de absoluto e, socialmente, um permanente revoltado. Daí não haver por que estranhar o fato de ser a poesia, para efeitos domésticos, a filha pobre na família das artes, e um elemento de perturbação da ordem dentro da sociedade tal como está constituída.


(MORAES, Vinicius de. Para viver um grande amor, 6. ed., Sabiá, 1962, p. 101-103. Adaptado.)
Considerando o fragmento “Não viva ele assim, e transformar-se-á, certamente, dentro de um mundo em carne viva, [...]” (4º§), no que concerne à colocação pronominal do verbo em destaque, assinale a afirmativa que apresenta a correta explicação acerca da posição do pronome oblíquo átono.
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Tema central: Colocação Pronominal (Morfologia – Pronomes)

No português padrão, a colocação pronominal diz respeito à posição do pronome oblíquo átono em relação ao verbo, ocorrendo, conforme a norma culta:

  • Próclise: antes do verbo;
  • Ênclise: depois do verbo;
  • Mesóclise: entre o radical verbal e a desinência.

No trecho analisado – “transformar-se-á” – o verbo está no futuro do presente do indicativo (“transformará”), e não há palavra atrativa que exija a próclise. Por isso, segundo a gramática normativa (Evanildo Bechara, Moderna Gramática Portuguesa; Celso Cunha & Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo), deve-se usar a mesóclise:

“transformar-se-á” = transformar (radical) + se (pronome) + á (desinência)

Explicação da alternativa correta (D):
A alternativa D está correta. A mesóclise só ocorre quando o verbo está no futuro do presente ou no futuro do pretérito e não há palavra que exija próclise. A posição do pronome entre o radical (transformar-) e a desinência (-á) é exemplar da mesóclise.

Por que as demais estão erradas?

  • A) Ênclise: Incorreta, porque não é uma posição pós-verbal simples, mas sim intermediária (mesóclise), típica do futuro simples.
  • B) Próclise: Equívoco: o pronome não antecede o verbo. Além disso, a conjunção “e” não exige ou permite atração pronominal.
  • C) Mesóclise com alteração morfológica: Errada: Não há “alteração morfológica” pelo acréscimo da partícula “á”; “-á” é a desinência de tempo e modo do verbo.

Dica: Em concursos, o uso da mesóclise costuma ser cobrado justamente nesses tempos verbais – fique atento quando identificar verbos no futuro!

Resumo: A alternativa D está correta, pois aplica rigorosamente a regra da mesóclise no futuro do presente do indicativo sem atração pronominal.

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gab - d

mesóclise

costuma vir + futuro do pretérito / presente.

ex.: transformar-se-ia → f. pret.

ex.: transformar-se-á → f. pres.

ex.: transformar-se-ão → f. pres. (plural).

Mesóclise pronome no meio do verbo: Usada com verbos no futuro do presente ou futuro do pretérito, quando não houver fator de próclise.

Ênclise pronome depois do verbo: Usada em todos os outros casos, principalmente quando o verbo inicia a oração, e após verbos no imperativo afirmativo.

Lembrem-se de que verbo no futuro não pode ter ênclise!

A forma "transformar-se-á" é um caso clássico de mesóclise, porque o verbo tá no futuro do presente ("transformará"), e o pronome "se" fica no meio do verbo, colado por hífen.

A explicação certinha é a da letra D.

GAB.: D

APMBB⭐

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-> Colocação pronominal

- Antes do verbo: próclise (é a prioridade nas colocações pronominais): usar em orações negativas (ninguém a vai visitar); em pronomes relativos/indefinidos/demonstrativos (alguns funcionários e o mantém informado); verbos antecedidos por advérbios (certamente nos disseram a verdade); orações exclamativas (era bom que nos dissessem a verdade!); orações com conjunções subordinativas (para me contar é que conheciam os fatos); com verbo no gerúndio regido da preposição “em”; orações interrogativas.

obs.: quando usar próclise: negação, advérbio, pronome relativo, pronome demonstrativo, pronome indefinido, preposição segura de gerúndio, conjunção subordinada (não coordenada).

- No meio do verbo: mesóclise (utilizada somente com verbos no futuro do presente e no futuro do pretérito) usada em orações em que o verbo esteja no futuro do presente (ouvir-te-ei sempre que quiseres); orações em que o verbo esteja no futuro do pretérito (pentear-te-ia com paciência)

- Depois do verbo: ênclise (em segundo caso, utiliza-se a ênclise) usada quando o verbo inicia a oração (fez-me um favor); com verbo no imperativo afirmativo (quando eu avisar, retirem-no da sala); com verbo no infinitivo impessoal (prometo amar-te); com verbo no gerúndio (vive castigando-lhe sem motivos aparentes).

Fonte: Minhas anotações :)

GAB: D

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