Leia o trecho destacado do romance O coração das trevas, pub...
Leia o trecho destacado do romance O coração das trevas, publicado por Joseph Conrad em 1902, e assinale a alternativa correta.
“Ora, quando eu era menino, era apaixonado por mapas. Passava horas olhando a América do Sul, a África ou a Austrália, e me abandonava a todas as glórias da exploração. Naquele tempo, havia muitos espaços vazios na Terra e, quando via um que me parecesse especialmente convidativo num mapa (mas quase todos parecem assim), colocava o dedo em cima e dizia: ‘quando crescer, vou até lá’ [...]. Mas havia um – o maior, o mais vazio, por assim dizer – pelo qual eu tinha um anseio muito forte. A verdade é que naquela época já não era mais um espaço vazio. Havia-se enchido, desde a minha meninice, de rios, de lagos, de nomes. Havia deixado de ser um espaço vazio com um mistério encantador [...]. Tinha virado um lugar de trevas. Mas havia nele um rio, em especial, um rio extremamente grande, que se podia ver no mapa como uma imensa serpente desenrolada com a cabeça no mar [...]. E, enquanto eu olhava para o mapa do lugar numa vitrine de loja, ele me hipnotizou como uma serpente faz com um pássaro”.
(CONRAD, Joseph. O coração das trevas. Tradução de Celso Paciornik. São Paulo: Iluminuras, 2002, p. 17).
O relato do personagem de Conrad revela
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Alternativa correta: D - o imaginário colonialista europeu em relação a lugares “distantes” do mundo, principalmente após a Conferência de Berlim (1884-1885).
1. Tema central da questão
A questão trata de imperialismo europeu no fim do século XIX, mais especificamente do modo como os europeus enxergavam (“imaginavam”) as regiões da África. Relaciona-se ao contexto da Partilha da África e da Conferência de Berlim (1884-1885), quando potências europeias dividiram o continente africano conforme seus interesses, baseando-se em ideias de superioridade e “missão civilizadora”.
2. Resumo teórico
O imaginário colonialista foi um conjunto de ideias, discursos e representações que justificavam e motivavam o avanço imperialista europeu sobre territórios africanos, asiáticos e americanos. Os europeus viam tais regiões como “terra incógnita”, “espaços vazios” ou “lugares de trevas”, prontos para serem desbravados, explorados e “civilizados”. O romance O coração das trevas, de Joseph Conrad, é uma forte crítica e exposição desse olhar europeu sobre a África.
Fontes: Hobsbawm, Eric. A Era dos Impérios. Young, Robert. Colonial Desire.
3. Justificativa da alternativa correta
A alternativa D destaca o aspecto mental e simbólico do imperialismo: a forma como os europeus imaginavam a África como local exótico, misterioso e a ser “preenchido” com seus próprios valores e presença. O texto de Conrad cita mapas com “espaços vazios” e um “lugar de trevas”, refletindo essa visão colonial. Após a Conferência de Berlim, essas ideias foram reforçadas e legitimadas pelas políticas de ocupação territorial europeia.
4. Análise das alternativas incorretas
- A: Falsa, pois o texto mostra que o conhecimento dos europeus sobre a geografia africana era limitado e baseado em percepções imaginativas, não em conhecimento detalhado.
- B: Parcialmente correta, mas superestima o “projeto de civilizar” — o foco do texto é o fascínio/exotismo, não a esperança civilizadora.
- C: Errada, pois o texto não expressa apoio, e sim distanciamento ou crítica ao imperialismo.
- E: Interpretação subjetiva; não há ênfase no “espaço vazio interior” do personagem, e sim no olhar europeu sobre a África.
5. Estratégia de interpretação
Observe palavras-chave do texto (“espaço vazio”, “mistério”, “trevas”, “serpente”) que remetem à visão europeia sobre a África e desconfie de alternativas que exagerem aspectos pessoais ou ignorem o contexto histórico (como “espaço vazio em si mesmo” ou “apoio” ao imperialismo).
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