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Q2447992 Português
É tempo de pós-amor


       Cansei de amor! Quantos filmes, entrevistas, artigos, livros sobre amor cruzaram seu caminho ultimamente? Em uma semana, assisti a um vídeo, vi um filme, li meio livro e participei de um debate na televisão. Tudo sobre amor. E ouvi as pessoas – provavelmente também eu própria – dizerem coisas pertinentes e bem ditas que, de tão pertinentes e repetidas, já se tornaram chavões comportamentais, e parecem fichas de computador dissecadas de qualquer verdade emocional. E de repente está me dando uma urticária na alma, um desconforto interno que em tudo se assemelha à indigestão.
        Estamos fazendo com o amor o que já fizemos com o sexo. Na década passada parecia que tínhamos reinventado o sexo. Não se pensava, não se falava, não se praticava outro assunto. Toda a nossa energia pensante, todo o nosso esforço vital pareciam concentrados na imensa cama que erguíamos como única justificativa da existência humana. Transformamos o sexo em verdade. Adoramos um novo bezerro de ouro.
            Mas o ouro dos bezerros modernos é de liga baixa, que logo se consome na voracidade da mass media. O sexo não nos deu tudo o que dele esperávamos, porque dele esperávamos tudo. E logo a sociedade começou a olhar em volta, à procura de um outro objeto de adoração. Destronado o sexo, partiu-se para a grande festa de coroação do amor.
          Agora, aqui estamos nós, falando pelos cotovelos, analisando, procurando, destrinchando. E desgastando. Antes, quando eu pensava numa conversa séria, direita, com a pessoa que se ama, sabia a que me referia. Mas agora, quando ouço dizer que “o diálogo é fundamental para a manutenção dos espaços”, não sei o que isso quer dizer, ou melhor, sei que isso não quer dizer mais nada. Antes, quando eu pensava ou dizia que amor é fundamental, tinha a exata noção da diferença entre o fundamental e o absoluto. Mas agora, quando eu ouço repetido de norte a sul, como num gigantesco eco, que “a vida sem amor não tem sentido”, fico com a impressão de estar ouvindo um slogan publicitário e me retraio porque sei que estão querendo me impor um produto.
         A vida sem amor pode fazer sentido, e muito. É bom que a gente recomece a dizer isso. Mesmo porque há milhões de pessoas sem amor, que viveriam bem mais felizes se de repente a voz geral não lhes buzinasse nos ouvidos que isso é impossível. O mundo só andou geometricamente aos pares na Arca de Noé. Fora disso, anda emparelhado quem pode, quando pode. E o resto espera uma chance, sem nem por isso viver na escuridão.
       Antes que se frustrem as expectativas, como aconteceu com o sexo, seria prudente descarregar o amor, tirar-lhe dos ombros a responsabilidade. Ele não pode nos dar tudo. Nada pode nos dar tudo. Porque o tudo não existe. O que existe são parcelas, que, eternamente somadas e subtraídas, multiplicadas e divididas, nos aproximam e afastam do tudo. E a matemática dessas parcelas pode ser surpreendente: quando, como está acontecendo agora, tentamos agrupá-las todas em cima de uma única parcela – o amor –, elas não se somam, pelo contrário, se fracionam, causando o esfacelamento da parcela-suporte.
        Amor criativo é ótimo, dizem todos. E é verdade. Mas melhor ainda é pegar uma parte da criatividade que está concentrada no amor, e jogá-la na vida. Solta, ela terá possibilidades de contaminar o cotidiano, permear a vida toda e voltar a abastecer o amor, sem deixar-se absorver e esgotar por ele. Dedicar-se à relação é importante, dizem todos. E é verdade. Mas qualquer um de nós tem inúmeras relações, de amizade, vizinhança, sociais, e anda me parecendo que concentrar toda a dedicação na relação amorosa pode custar o empobrecimento das outras.
             Sim, o amor é ótimo. Porém acho que vai ficar muito melhor quando sair do foco dos refletores e passar a ser vivido com mais naturalidade. Quando readquirirmos a noção de que não é mais vital do que comer e banhar o corpo em água fria nem mais tranquilizador do que ter amigos e estar de bem com a própria cara. Quando aceitarmos que não é o sal da terra, simplesmente porque a terra é seu próprio sal, e é ela que dá sabor ao amor.


(COLASANTI, Marina. 1937- Eu sei, mas não devia. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.)
O sentido figurado é o sentido que adquirem as palavras quando se referem a uma ideia diferente daquela que significam literalmente. Esse sentido é sugerido e não é explícito, pois o valor semântico não se encontra no significante geralmente usado. É possível inferir que as seguintes transcrições textuais comprovam tal particularidade, EXCETO: 
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: Sentido figurado e figuras de linguagem na interpretação de texto.

Essa questão explora a capacidade do candidato em reconhecer quando as palavras e expressões são empregadas fora do seu sentido literal, provocando outros significados sugeridos – o chamado sentido figurado. Identificar figuras de linguagem é essencial para interpretar corretamente textos – especialmente em concursos, cuja banca exige domínio da norma-padrão e percepção precisa de nuances textuais.

Regra: Segundo a gramática normativa (como ensina Evanildo Bechara), palavra ou expressão em sentido literal mantém seu significado usual; em sentido figurado, transporta-se valor e significado para além do que o dicionário apresenta de forma estrita.

Justificativa da resposta – Alternativa C (correta):

O trecho “Antes, quando eu pensava ou dizia que amor é fundamental, tinha a exata noção da diferença entre o fundamental e o absoluto.” retoma palavras utilizadas em seu sentido objetivo e direto, sem recorrer a imagens ou figuras. Não há aqui metáfora, prosopopeia, hipérbole ou qualquer outra figura de linguagem. “Fundamental” e “absoluto” se referem apenas aos seus próprios conceitos, da forma como aparecem em qualquer dicionário.

Análise das alternativas incorretas:

A)Falando pelos cotovelos” é expressão metáforica: cotovelos não falam. Representa falar demais, usando imagens do corpo.

B)Urticária na alma” compara um desconforto emocional com uma reação alérgica física, também metáfora (transposição do significado).

D)Tirar-lhe dos ombros a responsabilidade” emprega personificação/prosopopeia – amor não possui ombros, mas a expressão atribui a ele uma característica humana, sugerindo sentido figurado.

Estratégias para provas: Cuidado com alternativas que apenas explicam ou definem conceitos (como “fundamental” e “absoluto”), pois raramente terão sentido figurado. Dê atenção a imagens, comparações impossíveis ou características humanas atribuídas a conceitos abstratos: quase sempre indicam figuras de linguagem.

Segundo Bechara (Gramática Normativa da Língua Portuguesa) e o Manual de Redação da Presidência da República, o uso de palavras no sentido próprio/natural não configura linguagem figurada – apenas uso ornamental ou expressivo com quebra da lógica literal caracteriza o sentido figurado.

Resumo: A alternativa C é a resposta correta porque é literal, enquanto as demais se utilizam de sentido figurado para dar ênfase ou expressividade ao texto.

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Comentários

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✔️ PARA AJUDAR A FIXAR

O sentido figurado é o sentido que adquirem as palavras quando se referem a uma ideia diferente daquela que significam literalmente.

Ou seja, não literal. Quando se fala em sentido figurado liga-se a figuras de linguagem.

Ex.: Ele ficou bravo como uma fera. Além de eu usar um sentido figurado, não real, eu também usei da figura de linguagem COMPARAÇÃO

C) “Antes, quando eu pensava ou dizia que amor é fundamental, tinha a exata noção da diferença entre o fundamental e o absoluto.” (4º§)

Essa alternativa está totalmente estruturada em linguagem denotativa, real, literal. Sendo, portanto, a exceção.

FIGURADA/CONOTATIVA

A “Agora, aqui estamos nós, falando pelos cotovelos, analisando, procurando, destrinchando.” (4º§) 

B “E de repente está me dando uma urticária na alma, um desconforto interno que em tudo se assemelha à indigestão.” (1º§) 

D “Antes que se frustrem as expectativas, como aconteceu com o sexo, seria prudente descarregar o amor, tirar-lhe dos ombros a responsabilidade.” (6º§) 

Bons estudos

Vamos juntos!!

✍ GABARITO: C

GAB - C

esse texto é ótimo.

A questão pede que identifiquemos a alternativa que não emprega o sentido figurado, ou seja, aquela que apresenta um uso das palavras mais próximo ao seu significado literal.

Analisando as opções:

  • Alternativa A: “falando pelos cotovelos” é uma expressão idiomática que significa falar demais, claramente um uso figurado.
  • Alternativa B: “urticária na alma” e “desconforto interno que se assemelha à indigestão” são construções metafóricas para representar um estado emocional, portanto, uso figurado.
  • Alternativa C: Aqui, “fundamental” e “absoluto” são usados em um sentido literal, discutindo conceitos sem empregar metáforas ou figuras de linguagem.
  • Alternativa D: A ideia de “tirar dos ombros a responsabilidade” personifica o amor e sugere uma carga emocional ou social imposta a ele, caracterizando um uso figurado.

Dessa forma, a alternativa que não usa sentido figurado é a C.

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