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Q3106695 Português
Ladrão de Galinhas


   Pegaram o cara em flagrante roubando galinhas de um galinheiro e levaram para a delegacia.
   - Que vida mansa, hein, vagabundo? Roubando galinha para ter o que comer sem precisar trabalhar. Vai para cadeia!
   - Não era para mim não. Era para vender.
   - Pior. Venda de artigo roubado. Concorrência desleal com o comércio estabelecido. Sem-vergonha! -
   Mas eu vendia mais caro.
   - Mais caro?
   - Espalhei o boato que as galinhas do galinheiro eram bichadas e as minhas não. E que as galinhas do galinheiro botavam ovos brancos enquanto as minhas botavam ovos marrons.
   - Mas eram as mesmas galinhas, safado!
   - Os ovos das minhas eu pintava.
   - Que grande pilantra...
   Mas já havia um certo respeito no tom do delegado.
    - Ainda bem que tu vai preso. Se o dono do galinheiro te pega...
   - Já me pegou. Fiz um acerto com ele. Me comprometi a não espalhar mais boato sobre as galinhas dele, e ele se comprometeu a aumentar os preços dos produtos dele para ficarem iguais aos meus. Convidamos outros donos de galinheiro a entrar no nosso esquema. Formamos um oligopólio. Ou, no caso, um ovigopólio.
    - E o que você faz com o lucro do seu negócio?
   - Especulo em dólar. Invisto alguma coisa no comércio ilegal. Comprei alguns deputados. Dois ou três ministros. Consegui exclusividade no suprimento de galinhas e ovos para programas de alimentação do governo e superfaturo os preços.
    O delegado mandou pedir um cafezinho para o preso e perguntou se a cadeira estava confortável, se ele não queria uma almofada. Depois perguntou:
   - Doutor, não me leve mal, mas, com tudo isso, o senhor não está milionário?
   - Trilionário. Sem contar o que eu sonego de Imposto de Renda e o que tenho depositado ilegalmente no exterior.
    - E, com tudo isso, o senhor continua roubando galinhas?
    - Às vezes, sabe como é.
    - Não sei não, excelência. Me explique.
    - É que, em todas essas minhas atividades, eu sinto falta de uma coisa. Do risco, entende? Daquela sensação de perigo, de estar fazendo uma coisa proibida, da iminência do castigo. Só roubando galinhas eu me sinto realmente um ladrão, e isso é excitante. Como agora. Fui preso, finalmente. Vou para a cadeia. É uma experiência nova.
    - O que é isso, excelência? O senhor não vai ser preso não.
   - Mas fui preso em flagrante pulando a cerca do galinheiro! - Sim. Mas primário, e com esses antecedentes...

(Fonte: https//:sitedoescritor.com.br/lfverissimo – acesso em 07/09/2022, adaptado)
A variedade linguística leva em consideração as diferentes possibilidades discursivas que há na sociedade no que se refere ao modo de falar das pessoas. Assim, gírias, regionalismos e jargões ajudam a construir a expressividade do idioma quanto à língua falada. Nesse caso, aponte a alternativa que não fez uso do registro coloquial da linguagem no texto.
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central da questão: Variação linguística, com foco nos registros formal e coloquial da língua portuguesa. A banca exige identificar, no texto, a frase que não utiliza o registro coloquial.

Variação linguística envolve as diferentes maneiras de usar a língua conforme o contexto, situação e relação entre as pessoas. O registro coloquial é típico do cotidiano, usa gírias, construções informais, regionalismos e até “quebra” regras gramaticais. Já o registro formal segue a norma-padrão, com vocabulário mais cuidado, frases elaboradas e ausência de gírias.

Alternativa correta: D – “É que, em todas essas minhas atividades, eu sinto falta de uma coisa. Do risco, entende?”
Aqui, a estrutura da frase está mais próxima da norma-padrão: predomínio de oração bem estruturada, ausência de gírias ou expressões populares, uso de pontuação adequada.
Segundo Celso Cunha & Lindley Cintra: “O registro formal caracteriza-se pelo uso culto, elaborado, atento à gramática normativa.”

Análise das alternativas incorretas:

A) “Pegaram o cara em flagrante...”
“Cara” é gíria típica do coloquial.

B) “Ainda bem que tu vai preso. Se o dono do galinheiro te pega...”
Uso do “tu” com verbo na 3ª pessoa (erro comum em linguagem informal) e expressão “te pega”, coloquial.

C) “Convidamos outros donos de galinheiro a entrar no nosso esquema.”
A palavra “esquema” tem sentido de gíria, informal.

E) “Não sei não, excelência. Me explique.”
Uso de expressão enfática repetida (“não sei não”) e estrutura invertida comum na oralidade (“me explique” em vez de “explique-me”).

Estratégia para provas: Em questões sobre registro, busque: gírias, construções típicas da fala, palavras contraídas, concordâncias “relaxadas”. Essas são pistas de linguagem coloquial. Atenção também a frases muito informais ou que imitariam uma conversa.

Dica: Use a norma-padrão como referência para formalidade. Se a frase “soaria bem” numa redação oficial, provavelmente é formal, como orienta o Manual de Redação da Presidência da República.

Conclusão: A alternativa D é a única com predominância de registro formal. As demais apresentam traços claros do coloquialismo.

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Não concordo com o gabarito, pois "coisa" é um termo coloquial.

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