No enunciado “Curiosa, perguntou à sua acompanhante: Por que...
Feridas do esquecimento
Certa vez, tomei conhecimento de um episódio impressionante, que causou um forte impacto sobre a minha vida, especialmente no que diz respeito à importância dos relacionamentos significativos da vida e de como eles se tornam periféricos em nossos dias, sobretudo, por conta do individualismo que tem marcado a nossa geração.
Quando foi receber o prêmio Nobel da Paz, em 1979, Madre Tereza de Calcutá fez menção a uma visita que fizera a um dos mais luxuosos asilos para idosos, na América. A beleza e o luxo deixaram-na impressionada. Contudo, algo a impactou mais ainda: os velhinhos ali colocados pelos próprios filhos tinham no rosto uma profunda expressão de tristeza. Ela, intrigada, indagou a si mesma: “por que tanta tristeza e expressão de dor naquelas pessoas, apesar do conforto material que as rodeava?”
De repente, percebeu que todos eles olhavam para uma grande porta. Curiosa, perguntou à sua acompanhante: “Por que todos olham para a mesma porta? E por que não conseguem sorrir?” A responsável pela visita respondeu-lhe: “Eles olham para aquela porta porque esperam ansiosamente a visita dos filhos, e este semblante triste e distante que trazem no rosto é porque se sentem feridos. Acham que foram esquecidos por seus familiares. Infelizmente, de fato, foram esquecidos pelos seus” [...].
(FERNANDES, Estevam. In: Quando vem a brisa. Rio de Janeiro: Ed.Central, 2009, p. 75).
No enunciado “Curiosa, perguntou à sua acompanhante: Por que todos olham para a mesma porta? E por que não conseguem sorrir?”
Gabarito comentado
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Tema central: A questão aborda discurso direto e o uso de verbos de elocução (dicendi) na Língua Portuguesa. Esse assunto exige que o aluno saiba distinguir entre discurso direto, indireto e indireto livre, e identifique recursos gramaticais que caracterizam cada tipo.
Justificativa da alternativa correta (D):
No trecho citado, ocorre o seguinte: “Curiosa, perguntou à sua acompanhante: Por que todos olham para a mesma porta? E por que não conseguem sorrir?”
Note que há um verbo de elocução (“perguntou”) empregado antes dos dois enunciados interrogativos, que são exatamente as perguntas feitas pelo personagem. O discurso é expresso diretamente, ou seja, o que foi falado está transcrito literalmente, sem a mediação do narrador. Isso é característico do discurso direto.
Com base em autores renomados, como Evanildo Bechara e Cunha & Cintra, “os verbos de elocução, também chamados ‘dicendi’, introduzem a fala da personagem com exatidão, ou seja, aquilo foi falado exatamente daquele modo”. Logo, a alternativa D é correta.
Análise das alternativas incorretas:
A) Errada. Discurso indireto consiste em recontar a fala de outrem com adaptação pelo narrador, mas, aqui, a fala é transcrita exatamente como foi proferida — isso é discurso direto.
B) Errada. Apesar de não haver o verbo “dizer”, há o verbo “perguntar”, que é igualmente verbo de elocução, segundo a gramática normativa.
C) Errada. Novamente, trata-se do discurso direto, pois há transcrição literal das falas.
E) Errada. Discurso indireto livre ocorre quando as falas do personagem se misturam, sem marcas explícitas, ao discurso do narrador, o que não ocorre aqui.
Dica para provas: Sempre busque pelo verbo de elocução (perguntar, responder, afirmar, dizer etc.) e observe se a fala está reproduzida literalmente. Essa análise evita confusões com discurso indireto e indireto livre.
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