Assinale a alternativa que melhor descreva o sentimento do ...

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Q4378994 Português

O texto seguinte servirá de base para responder à questão



Nem surgisse um olhar de piedade ou de amor


Nem houvesse uma branca mão que apaziguasse minha fronte palpitante...


Eu estaria sempre como um círio queimando para o céu a minha fatalidade


Sobre o cadáver ainda morno desse passado adolescente.


Talvez no espaço perfeito aparecesse a visão nua


Ou talvez a porta do oratório se fosse abrindo misteriosamente...


Eu estaria esquecido, tateando suavemente a face do filho morto


Partido de dor, chorando sobre o seu corpo insepultável.


Talvez da carne do homem prostrado se visse sair uma sombra igual à minha


Que amasse as andorinhas, os seios virgens, os perfumes e os lírios da terra


Talvez... mas todas as visões estariam também em minhas lágrimas boiando


E elas seriam como óleo santo e como pétalas se derramando sobre o nada.


Alguém gritaria longe: - "Quantas rosas nos deu a primavera!..."


Eu olharia vagamente o jardim cheio de sol e de cores noivas se enlaçando


Talvez mesmo meu olhar seguisse da flor o voo rápido de um pássaro


Mas sob meus dedos vivos estaria a sua boca fria e os seus cabelos luminosos.


Rumores chegariam a mim, distintos como passos na madrugada


Uma voz cantou, foi a irmã, foi a irmã vestida de branco! - a sua voz é fresca como o orvalho...


Beijam-me a face - irmã vestida de azul, por que estás triste?


Deu-te a vida a velar um passado também?


Voltaria o silêncio - seria uma quietude de nave em Senhor Morto


Numa onda de dor eu tomaria a pobre face em minhas mãos angustiadas


Auscultaria o sopro, diria à toa - Escuta, acorda


Por que me deixaste assim sem me dizeres quem eu sou?


E o olhar estaria ansioso esperando


E a cabeça ao sabor da mágoa balançando 


E o coração fugindo e o coração voltando


E os minutos passando e os minutos passando...


No entanto, dentro do sol a minha sombra se projeta


Sobre as casas avança o seu vago perfil tristonho


Anda, dilui-se, dobra-se nos degraus das altas escadas silenciosas


E morre quando o prazer pede a treva para a consumação da sua miséria.


É que ela vai sofrer o instante que me falta


Esse instante de amor, de sonho, de esquecimento


E quando chega, a horas mortas, deixa em meu ser uma braçada de lembranças


Que eu desfolho saudoso sobre o corpo embalsamado do eterno ausente.


Nem surgisse em minhas mãos a rósea ferida


Nem porejasse em minha pele o sangue da agonia...


Eu diria - Senhor, por que me escolheste a mim que sou escravo


Por que me chagaste a mim cheio de chagas?


Nem do meu vazio te criasses, anjo que eu sonhei de brancos seios


De branco ventre e de brancas pernas acordadas


Nem vibrasses no espaço em que te moldei perfeita...


Eu te diria - Por que vieste te dar ao já vendido?


Oh, estranho húmus deste ser inerme e que eu sinto latente


Escorre sobre mim como o luar nas fontes pobres


Embriaga o meu peito do teu bafo que é como o sândalo


Enche o meu espírito do teu sangue que é a própria vida!


Fora, um riso de criança - longínqua infância da hóstia consagrada


Aqui estou ardendo a minha eternidade junto ao teu corpo frágil!


Eu sei que a morte abrirá no meu deserto fontes maravilhosas


E vozes que eu não sabia em mim lutarão contra a Voz.


Agora porém estou vivendo da tua chama como a cera


O infinito nada poderá contra mim porque de mim quer tudo


Ele ama no teu sereno cadáver o terrível cadáver que eu seria


O belo cadáver nu cheio de cicatriz e de úlceras. Quem chamou por mim, tu, mãe? Teu filho sonha...


Lembras-te, mãe, a juventude, a grande praia enluarada...


Pensaste em mim, mãe? Oh, tudo é tão triste 


 A casa, o jardim, o teu olhar, o meu olhar, o olhar de Deus...


E sob a minha mão tenho a impressão da boca fria murmurando


Sinto-me cego e olho o céu e leio nos dedos a mágica lembrança


Passastes, estrelas... Voltais de novo arrastando brancos véus


Passastes, luas... Voltais de novo arrastando negros véus... ?



Vinicius de Moraes?. em: Moraes, V. de. Poesia completa e prosa. 4a ed., rio de Janeiro, nova aguilar, 2004. 

Assinale a alternativa que melhor descreva o sentimento do eu lírico no poema O Olhar para Trás de Vinicius de Moraes:
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