Desde que começou a envelhecer realmente começou a
querer ficar em casa.
Parece-me que achava feio passear quando não se era
mais jovem: o ar tão limpo, o corpo sujo de gordura e rugas.
Sobretudo a claridade do mar como desnuda. Não era para os
outros que era feio ela passear, todos admitem que os outros
sejam velhos. Mas para si mesma. Que ânsia, que cuidado com
o corpo perdido, o espírito aflito nos olhos, ah, mas as pupilas
essas límpidas.
Outra coisa: antigamente no seu rosto não se via o que
ela pensava, era só aquela face destacada, em oferta. Agora,
quando se vê sem querer ao espelho, quase grita horrorizada:
mas eu não estava pensando nisso! Embora fosse impossível
e inútil dizer em que rosto parecia pensar, e também impossível
e inútil dizer no que ela mesma pensava.
Ao redor as coisas frescas, uma história para a frente, e
o vento, o vento... Enquanto seu ventre crescia e as pernas
engrossavam, e os cabelos se haviam acomodado num
penteado natural e modesto que se formara sozinho.
LISPECTOR, Clarice. A não aceitação. In: LISPECTOR, Clarice. A
descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. p. 291.
Considerando a construção de sentidos do texto como um
todo, a coerência textual é organizada principalmente pela
relação entre o(a)