Gosto de ouvir conversas. Mania de psicanalista. É que
nas conversas moram mundos diferentes do meu.
Thomas Mann, no seu livro "José do Egito", conta um
diálogo entre José e o mercador que o comprara para
vendê-lo como escravo, no Egito: "Estamos a um metro
de distância um do outro. E, no entanto, ao teu redor
gira um universo do qual o centro és tu, e não eu. E ao
meu redor gira um universo do qual o centro sou eu, e
não tu". Fascinam-me esses universos que me
tangenciam e que, no entanto, estão distantes de mim.
Gosto de ouvir conversas para viajar por outros mundos.
Por vários anos eu viajei diariamente de trem, de
Campinas para Rio Claro, no Estado de São Paulo, onde
eu era professor na antiga Faculdade de Filosofia. No
mesmo vagão viajavam também muitos professores a
caminho das escolas onde trabalhavam. Iam juntos,
alegres e falantes... Por anos escutei o que falavam.
Falavam sempre sobre as escolas. Era ao redor delas
que giravam os seus universos. Falavam sobre diretores,
colegas, salários, reuniões, relatórios, férias, programas,
provas. Mas nunca, nunca mesmo, eu os ouvi falar
sobre os seus alunos. Parece que nos universos em que
viviam não havia alunos, embora houvesse escolas. Se
não falavam sobre alunos é porque os alunos não
tinham importância.
Participei da banca que examinou uma tese de
doutoramento cujo tema eram os livros em que, nas
escolas, são registradas as reuniões de diretores e
professores. A candidata se dera ao trabalho de
examinar tais reuniões para saber sobre o que falavam
diretores e professores. As coisas registradas eram as
coisas importantes que mereciam ser guardadas para a
posteridade. Nos livros estavam registradas discussões
sobre leis, portarias, relatórios, assuntos administrativos
e burocráticos, eventos, festas. Mas não havia registros
de coisas relativas aos alunos. Os alunos, aqueles para
os quais as escolas foram criadas, para os quais
diretores e professoras existem: ausentes. Não, não era
bem assim: os alunos estavam presentes quando se
constituíam em perturbações da ordem administrativa.
Os alunos, meninos e meninas, alegres, brincalhões,
curiosos, querendo aprender, alunos como
companheiros dessa brincadeira que se chama ensinar e
aprender —sobre tais alunos o silêncio era total.
Essa ausência do aluno —não do aluno a quem o
discurso administrativo das escolas se refere como o "o
perfil dos nossos alunos", nem esse nem aquele, todos,
aluno abstrato— não esse, mas aquele aluno de rosto
inconfundível e nome único, esse aluno de carne e osso
que é a razão de ser das escolas. Ah!, é importante
nunca se esquecer disso: alunos não são unidades
biopsicológicas móveis sobre os quais se devem gravar
os mesmos saberes, não importando que sejam meninos
nas praias do Nordeste, nas montanhas de Minas, às
margens do Amazonas, ou nas favelas do Rio. Os alunos
são crianças de carne e osso que sofrem, riem, gostam
de brincar, têm o direito de ter alegrias no presente e
não vão à escola para serem transformados em
unidades produtivas no futuro. E é essa ausência do
aluno de carne e osso que está progressivamente
marcando os universos que giram em torno da escola.
Os professores não falam sobre os alunos. Na verdade,
não é próprio que os professores falem com entusiasmo
e alegria sobre os alunos. Os alunos não são tema de
suas conversas. Acontece nas escolas primárias (ainda
escrevo do jeito antigo porque não acredito que a
mudança de nomes mude a realidade...). Mas não só
nelas. Lembro-me de uma brincadeira séria que corria
entre os professores de uma de nossas universidades
mais respeitadas. Diziam os professores que, para que a
dita universidade fosse perfeita, só faltava uma coisa:
acabar com os alunos... Brincadeira? Psicanalista não
acredita na inocência das brincadeiras. Com isso
concordam os critérios de avaliação dos docentes,
impostos pelos órgãos governamentais: o que se
computa, para fins de avaliação de um docente, não são
as suas atividades docentes, a relação com os alunos,
mas a publicação de artigos em revistas indexadas internacionais. O que esses critérios estão dizendo aos
professores é o seguinte: "Vocês valem os artigos que
publicam: publish or perish"! Num universo assim
definido pelo discurso dos burocratas, o aluno, esse em
particular, cujo pensamento é obrigação do professor
provocar e educar, esse aluno se constitui num
empecilho à atividade que realmente importa. Os raros
professores que têm prazer e se dedicam aos seus
alunos estão perdendo o tempo precioso que poderiam
dedicar aos seus artigos.
"Aquele que é um verdadeiro professor toma a sério
somente as coisas que estão relacionadas com os seus
estudantes —inclusive a si mesmo", afirmou Nietzsche.
Eu sonho com o dia em que os professores, em suas
conversas, falarão menos sobre os programas e as
pesquisas e terão mais prazer em falar sobre os seus
alunos.
Assinale a única alternativa que não está de
acordo com as normas de regência da língua
culta.
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
Compare seu desempenho com quem faz o mesmo concurso. Ver concorrência
teste
Parabéns! Você acertou!
Compare seu desempenho com quem faz o mesmo concurso. Ver concorrência