Considere as afirmações a seguir sobre o uso de pronomes obl...

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Q2741524 Português

Instrução: As questões 11 a 20 referem-se ao texto abaixo.


  1. _____Todo mundo teve ao menos uma namorada esquisita,
  2. comigo não foi diferente. Beber é trivial, bebe-se por
  3. prazer, para comemorar, para esquecer, para suportar
  4. a vida, mas beber para ficar de ressaca nunca tinha
  5. visto. Essa era Stela, ela bebia em busca do lado escuro
  6. do porre. Acreditava que precisava desse terremoto
  7. orgânico para seu reequilíbrio espiritual.
  8. _____Sua ressaca era diferente, não como a nossa, tingida
  9. de culpa pelo excesso. A dela era almejada, portanto
  10. com propriedades metafísicas. Nem por isso passava
  11. menos mal, sofria muito, o desconforto era visível,
  12. pungente. Tomava coisas que poucos profissionais
  13. do copo se arriscariam, destilados das marcas mais
  14. diabo. Ou então era revés de um vinho da Serra com
  15. nome de Papa, algo que nem ao menos rolha tinha,
  16. era de tampinha. Bebida que, com sua qualidade,
  17. desonrava, simultaneamente, os vinhos e o pontífice.
  18. _____Não era masoquismo. Acompanhando suas
  19. peregrinações etílicas, cheguei a outra conclusão: ela
  20. realmente precisava daquilo. Stela inventara uma
  21. religião do Santo Daime particular, caseira, sabia que
  22. era preciso passar pelo inferno para vislumbrar o céu.
  23. Os porres eram uma provação cósmica, um ordálio
  24. voluntário, um encontro reverencial com o sagrado.
  25. _____Depois da devastação do pileque, ela ficava melhor.
  26. Uma lucidez calma a invadia, sua beleza readquiria os
  27. traços que a marcavam, seus olhos voltavam ao
  28. brilho que me encantara. Tinha mergulhado no poço
  29. da existência e reavaliado seus rumos. Durante dias a
  30. paz reinava entre nós e entre ela e o mundo.
  31. _____Mas bastava uma nova dúvida em sua vida, uma
  32. decisão a tomar, e ela requisitava mais um inferno para
  33. se repensar. A rotina era extenuante. Quem aguenta uma
  34. mulher que, em vez de falar sobre a vida, mergulha
  35. num porre xamânico? Mas o amor perdoa. Lá estava
  36. eu ajudando-a a levantar-se de mais uma triste
  37. manguaça. Fiquei expert em reidratar e reanimar mortos,
  38. em contornar enxaquecas siderais e em amparar dengues
  39. existenciais
  40. _____Amava Stela pela inusitada maneira de consultar o
  41. destino. Triste era o desencontro. Eu cansado por
  42. cuidá-la depois de uma noite mal dormida, servindo de
  43. enfermeiro, e ela radiante, prenha da energia que a
  44. purgação lhe rendera.
  45. _____Stela era irredutível no seu método terapêutico,
  46. dizia que só nesse estado se encontrava com o melhor
  47. de seu ser. Reiterava que era mais sábia durante o
  48. martírio. Insistia que, sóbria, em seu estado normal,
  49. sofria de um otimismo injustificado que lhe turvava a
  50. realidade. Seu lema era: “Só na ressaca enxergamos o
  51. mundo como ele é”.
  52. _____Um dia, sem muitas palavras, Stela foi embora.
  53. Alguma ressaca oracular deve ter lhe dito que eu não
  54. era bom para seu futuro. Não a culpo.


Adaptado de: CORSO, M. O valor da ressaca. Zero Hora, n. 18489,

02/04/2016. Disponível em: http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a5711255.xml&template=3916.dwt&edition=28691§ion=4572. Acessado em 02/04/2016.

Considere as afirmações a seguir sobre o uso de pronomes oblíquos de terceira pessoa no texto.


I - O pronome se (l. 13) é um pronome recíproco.

II - O pronome se (l. 33) é um pronome reflexivo.

III - O pronome se (l. 36) é um pronome recíproco.


Quais estão corretas?

Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: A questão aborda o emprego dos pronomes oblíquos de terceira pessoa (“se”), exigindo o reconhecimento das funções reflexiva e recíproca na construção do texto. Trata-se, portanto, de uma questão gramatical com ênfase em morfologia e interpretação sintática.

Regra fundamental: Segundo a norma-padrão, como bem detalham Bechara (Moderna Gramática Portuguesa) e Cunha & Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo), o pronome reflexivo indica que o sujeito pratica a ação sobre si mesmo (ex: “Ela vestiu-se”), enquanto o pronome recíproco indica ação mútua entre os sujeitos (ex: “Eles se abraçaram”). Apenas pronomes do plural (nos, vos, se) podem ter valor recíproco, desde que haja dois ou mais agentes interagindo.

Análise das afirmações:

I - Incorreta: Em “poucos profissionais do copo se arriscariam”, o “se” é reflexivo (“arriscariam a si mesmos”); não há reciprocidade, pois a ação não é entre eles, mas de cada um sobre si.

II - Correta: Em “mergulha num porre xamânico?”, o sujeito (Stela) pratica a ação sobre si mesma, caracterizando reflexividade (“mergulha a si mesma”). A frase evidencia o caráter reflexivo do “se”.

III - Incorreta: Em “a levantar-se de mais uma triste manguaça”, novamente vemos reflexividade: Stela levanta a si mesma. Não existe ação mútua, mas sim algo que ela faz consigo.

Pegadinhas em destaque: Atenção ao uso do “se” com sujeitos no plural, pois só nesses casos pode ser recíproco, e desde que haja agir mútuo (“se entreolharam”). Procure pelo contexto se há, de fato, protagonismo conjunto ou apenas o indivíduo agindo sobre si.

Alternativa correta: B) Apenas II.

Orientação final: Quando encontrar o “se”, sempre busque identificar: o sujeito é individual ou plural? Há troca mútua ou somente o agente sobre si? Com esse filtro, evita-se confundir itens reflexivos com recíprocos.

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