Lançar versões simplificadas de clássicos da
literatura é uma prática comum em qualquer país do
mundo. A inexplicável polêmica sobre a adaptação
de O alienista para leitores jovens confirmou uma
verdade tão antiga quanto a obra de Machado de Assis:
a crítica literária brasileira tem o péssimo hábito de só
abrir a boca para reclamar.
Há exceções, é claro. Mas acompanhei o
empoeirado "debate" sobre a questão com tanta
preguiça que, em vez de apontar os culpados e
inocentes, prefiro jogar as carapuças para o alto. Azar
de quem decidir vesti-las.
Para quem não está por dentro da discussão
(que inveja!), ofereço aqui uma versão resumida e
simplificada dos fatos. Na semana passada, os críticos
literários brasileiros despertaram de suas catacumbas
ao ler a notícia de que a escritora Patrícia Secco
lançaria versões adaptadas de O alienista, de Machado
de Assis, e A pata da gazela, de José de Alencar. As duas obras serão distribuídas de graça pelo Instituto
Brasil Leitor, com uma tiragem total de 600 mil
exemplares. O objetivo é tornar clássicos da literatura
brasileira mais acessíveis para quem não tem o hábito
de ler.
Num país em que metade da população não leu
uma só página de um livro nos últimos três meses e a
média de tempo dedicado à leitura por dia é seis
minutos, qualquer iniciativa para divulgar a literatura
deveria ser bem-vinda. Mesmo se a qualidade das
adaptações de Patrícia se revelar duvidosa, é
impossível que a distribuição de centenas de milhares
de livros tenha algum impacto negativo.
Como já era previsto, porém, a iniciativa
provocou indignação. Surgiu um abaixo-assinado para
impedir o lançamento da edição simplificada. Alguns
disseram que ela deturparia a obra original. Outros,
que a leitura das obras na versão adaptada tiraria dos
leitores a oportunidade de enriquecer seu vocabulário.
Houve até quem dissesse que as adaptações em si nem
são uma ideia tão ruim, mas que Machado era
intocável.
Entre essas justificativas para a revolta, é
difícil dizer qual é a mais fraca. Os defensores da
"integridade" da obra parecem acreditar que o
lançamento da versão adaptada teria algum efeito
destrutivo sobre o original. O raciocínio é absurdo.
Obras literárias inspiram paródias e adaptações desde
sempre. Em vez de destruir a obra, cada nova versão
ajuda a divulgá-la e aumentar seu alcance. Os livros de
Machado de Assis não serão banidos das livrarias e da
internet. Eles sempre estarão disponíveis para quem
preferir lê-los no original. Não há motivo para histeria.
Acreditar que as versões simplificadas de Machado de
Assis emburrecerão a população é igualmente errôneo.
Quem defende esse argumento parte do pressuposto de
que vivemos num país de leitores ávidos de Machado
de Assis que, por pura preguiça, trocarão a versão
original pela adaptação e deixarão de enriquecer seu
vocabulário. Nada mais distante da realidade. A grande
maioria dos alunos foge da leitura obrigatória depois
de esbarrar na primeira palavra difícil e recorre a
resumos (ou à cola) para acertar a meia dúzia de
questões dedicadas a Machado nas provas escolares.
Muitos jamais dão outra chance aos clássicos da
literatura. Uma versão simplificada poderia diminuir o
choque e prepará-los para descobrir a obra original
mais tarde, quando estiverem prontos.
Por fim, não há nenhuma justificativa para a
crença de que Machado de Assis é intocável e não
deve ser adaptado. As livrarias estão cheias de
adaptações de Shakespeare, Homero e outros clássicos indiscutíveis da literatura. Se eles podem ser
adaptados, por que não Machado?
O que mais me chama atenção no discurso de
quem critica as adaptações de Machado de Assis é a
falta de propostas. Se adaptar Machado de Assis é uma
heresia, o que deve ser feito para incentivar a leitura no
Brasil? A resposta de todos os defensores da
integridade da literatura brasileira aparentemente é a
mesma. Devemos obrigar estudantes a ler Machado de
Assis na versão original e assistir, orgulhosos, ao
surgimento de uma nova geração de leitores cultos e
apaixonados pelos clássicos.
Parece promissor. Mas é isso o que as nossas
escolas já fazem há décadas. Não funciona. Aliás,
Machado de Assis provavelmente detestaria saber que
suas obras-primas são desperdiçadas em adolescentes
que, em sua maioria, não têm paciência nem
maturidade para entendê-las.
As versões originais de Machado de Assis
sempre serão melhores do que qualquer adaptação.
Disso, não há dúvida. O que os críticos puristas
precisam entender é que a questão não é essa. Não
existe uma disputa entre a versão original e a
simplificada. A versão original já está disponível em
inúmeros formatos para estudantes que, por diversos
motivos, não passam das primeiras páginas. Para eles,
a escolha é entre ler uma versão adaptada e
simplesmente não ler. Uma adaptação, por mais
rasteira que seja, pode ajudá-los a criar o hábito da
leitura. É pouco. Mas é melhor do que nada.
No trecho, “As livrarias estão cheias de adaptações
de Shakespeare, Homero e outros clássicos
indiscutíveis da literatura. Se eles podem ser
adaptados, por que não Machado?”, a palavra
“Machado” corresponde a uma
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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