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Q2956117 Português

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O recente interesse na regulamentação da astrologia como profissão oferece a oportunidade de refletir sobre questões que vão desde as raízes históricas da ciência até a percepção, infelizmente muito popular, de seu dogmatismo. Preocupa-me, e imagino que a muitos dos colegas cientistas, a rotulação do cientista como um sujeito inflexível, bitolado, que só sabe pensar dentro dos preceitos da ciência. Ela vem justamente do desconhecimento sobre como funciona a ciência. Talvez esteja aqui a raiz de tanta confusão e desentendimento.

Longe dos cientistas achar que a ciência é o único modo de conhecer o mundo e as pessoas, ou que a ciência está sempre certa. Muito ao contrário, seria absurdo não dar lugar às artes, aos mitos e às religiões como instrumentos complementares de conhecimento, expressões de como o mundo é visto por pessoas e culturas muito diversas entre si.

Um mundo sem esse tipo de conhecimento não científico seria um mundo menor e, na minha opinião, insuportável. O que existe é uma distinção entre as várias formas de conhecimento, distinção baseada no método pertinente a cada uma delas. A confusão começa quando uma tenta entrar no território da outra, e os métodos passam a ser usados fora de seus contextos.

Portanto, é (ou deveria ser) inútil criticar a astrologia por ela não ser ciência, pois ela não é. Ela é uma outra forma de conhecimento. [...]

Essa caracterização da astrologia como não ciência não é devida ao dogmatismo dos cientistas. É importante lembrar que, para a ciência progredir, dúvida e erro são fundamentais. Teorias não nascem prontas, mas são refinadas com o passar do tempo, a partir da comparação constante com dados. Erros são consertados, e, aos poucos, chega-se a um resultado aceito pela comunidade científica.

A ciência pode ser apresentada como um modelo de democracia: não existe o dono da verdade, ao menos a longo prazo. (Modismos, claro, existem sempre.) Todos podem ter uma opinião, que será sujeita ao escrutínio dos colegas e provada ou não. E isso tudo ocorre independentemente de raça, religião ou ideologia. Portanto, se cientistas vão contra alguma coisa, eles não vão como donos da verdade, mas com o mesmo ceticismo que caracteriza a sua atitude com relação aos próprios colegas. Por outro lado, eles devem ir dispostos a mudar de opinião, caso as provas sejam irrefutáveis.


Será necessário definir a astrologia? Afinal, qualquer definição necessariamente limita. Se popularidade é medida de importância, existem muito mais astrólogos do que astrônomos. Isso porque a astrologia lida com questões de relevância imediata na vida de cada um, tendo um papel emocional que a astronomia jamais poderia (ou deveria) suprir.

A astrologia está conosco há 4.000 anos e não irá embora. E nem acho que deveria. Ela faz parte da história das ideias, foi fundamental no desenvolvimento da astronomia e é testemunha da necessidade coletiva de conhecer melhor a nós mesmos e os que nos cercam. De minha parte, acho que viver com a dúvida pode ser muito mais difícil, mas é muito mais gratificante. Se erramos por não saber, ao menos aprendemos com os nossos erros e, com isso, crescemos como indivíduos. Afinal, nós somos produtos de nossas escolhas, inspiradas ou não pelos astros.

(GLEISER, Marcelo. Folha de São Paulo, 22 set. 2002)

Altera-se fundamentalmente o sentido de: “Ela vem justamente do desconhecimento sobre como funciona a ciência.” (§ 1), com a substituição da forma verbal VEM por:

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Gabarito Comentado: Interpretação de Texto e Relação Causal

Tema central: A presente questão cobre interpretação de texto com ênfase em relações semânticas de causa e consequência. O foco é analisar como a troca da expressão verbal altera o sentido original, exigindo leitura atenta ao contexto de causa e efeito.

Justificativa da alternativa correta (B) – “é causa”:
No trecho “Ela vem justamente do desconhecimento sobre como funciona a ciência”, o verbo vem indica que a “rotulação do cientista como sujeito inflexível” é resultado do desconhecimento acerca da ciência. Pela norma-padrão e autores como Evanildo Bechara (“Moderna Gramática Portuguesa”), o verbo vir de assume sentido de origem/resultado/consequência em contextos como esse.

Ao substituir por “é causa”, invertemos a relação de sentidos: passa-se a afirmar que a rotulação seria a origem do desconhecimento, e não sua consequência. Portanto, a alteração do sentido é fundamental, exatamente o que pede o comando da questão.

Por que as demais alternativas estão incorretas:

A) “é reflexo”
A forma “é reflexo” mantém a ideia de consequência instalada pela frase original (ou seja, a rotulação do cientista decorre do desconhecimento). O sentido não sofre mudança significativa. Exemplo: “A inflação é reflexo da alta dos custos.”

C) “resulta”
Também reitera a relação de consequência, de acordo com a norma: “A crise resulta de má gestão.” Logo, não altera o sentido fundamentalmente.

D) “procede”
“Proceder de” indica algo que tem como origem outro elemento, preservando a relação semântica de consequência no texto (“O boato procede de uma fonte obscura.”).

Dicas de estratégia:
Para questões como essa, atente-se às palavras de transição e relação no texto. Trocas que invertem causa e consequência alteram o sentido. Se necessário, releia o trecho e tente reescrever com suas palavras, garantindo a compreensão da relação lógica estabelecida.

Referência: Celso Cunha & Lindley Cintra observam que “a substituição inadequada de conectivos ou verbos pode provocar completa inversão de sentido em períodos complexos”. Adote sempre cautela na interpretação dessas estruturas.

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Altera-se fundamentalmente o sentido de: “Ela vem justamente do desconhecimento sobre como funciona a ciência.” (§ 1), com a substituição da forma verbal VEM por:

B) é causa.

A forma verbal "vem" indica que o desconhecimento sobre como funciona a ciência é a origem ou a causa da confusão e desentendimento. Substituir "vem" por "é causa" mudaria a forma da expressão, enfatizando a relação de causa e efeito de maneira diferente, o que pode alterar o sentido original da frase.

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